1ae20 Não há quem não chore por Luciano do Valle. O homem que fez do talento um caminho para revolucionar o esporte no seu amado Brasil. O destino não quis esperar 52 dias. Para que transmitisse a Copa do Mundo mais desejada...
Acabou ontem o confronto entre Luciano do Valle e Galvão Bueno.

De forma triste, chocante.

Desde o final da Copa de 1982, o Brasil se dividia.

Os dois melhores narradores de futebol do país estavam em lados diferentes.

Com uma vantagem enorme para Galvão.

A Globo com seu poderio econômico tinha os maiores eventos.

Sua voz virou obrigatória para quem os queria acompanhar.

Bandeirantes e Record, em curto período, lutavam na guerrilha.

Luciano ficou em desvantagem, em segundo plano.

Ambos eram assumidos descendentes da tradição sul-americana de narradores.

Quando chegou a televisão neste continente a transição foi imediata.

Os locutores de rádio simplesmente passaram para o novo veículo.

E impuseram por aqui o que muitos ingleses e americanos acham loucura.

Narrar os jogos como quem está assistindo não acompanhasse as imagens.

Para eles beira a insanidade acompanhar a bola.

O telespectador está vendo.

Não haveria a necessidade de descrever cada lance.

Mas esse estilo já domina a alma do brasileiro.

Tanto Galvão quanto Luciano beberam na mesma fonte de inspiração.

Geraldo José de Almeida.

Locutor que não só fazia questão de levar emoção exagerada a cada partida.

Mas ia além.

Mergulhava de cabeça no nacionalismo.

Forçava o espectador a torcer de forma absoluta pelos brasileiros.

Era um exagero.

Os dois narradores decidiram que o caminho era esse.

Isenção, imparcialidade não dava audiência.

Tive a sorte de entrevistar longamente os dois.

E sei a filosofia de ambos.

Transformar o espectador mais do que fã, um cúmplice.

Não era a Seleção Brasileira que estava em campo.

"Éramos nós."

"Ganhávamos e perdíamos títulos."

A tática dá certo até hoje.

Principalmente em uma competição tão grandiosa quanto a Copa do Mundo.

Luciano do Valle não usava bordões.

"Haja coração...Quem é que sobe? Isso, pra cima deles...

Roooooonaldinho... Isso pode, Arnaldo?"

Esse e tantos outros ficava para Galvão.

"Não sou artista, animador, sou jornalista."

Essa era a principal diferença.

Luciano acreditava que deveria reportar o jogo.

Galvão tem a certeza que é o principal personagem da transmissão.

Por isso narra, comenta e critica quem não concorda com ele.

Tanta confiança vem desde 1982.

Ou melhor depois do final da Copa da Espanha.

Quando Luciano resolveu deixar a Globo.

Ele decidiu que era hora apostar em outro esporte que amava.

O vôlei.

2reproducao8 Não há quem não chore por Luciano do Valle. O homem que fez do talento um caminho para revolucionar o esporte no seu amado Brasil. O destino não quis esperar 52 dias. Para que transmitisse a Copa do Mundo mais desejada...

Já com a parceria importantíssima e discreta de Carlos Nuzman.

O locutor se transformou em empresário.

Montou a empresa Promoação.

E depois a Luqui.

Homem de visão, juntou parceiros poderosos, milionários.

Com sua popularidade obtida como maior narrador do país, na Globo.

No dia 26 de julho de 1983 conseguiu sua façanha mais admirável.

Levou 95.887 pessoas para o Maracanã, com o Rio em pleno temporal.

Brasil e a então União Soviética disputaram um amistoso.

De vôlei!!!

É o maior público até hoje para um esporte olímpico a céu aberto.

A TV Record transmitiu a partida.

"Ganhamos por 3 a 1 dos poderosos russos.

Demos início a geração de prata: Bernard, Montanaro, William.

E mais do que isso.

O país descobriu que havia outro esporte além do futebol."

Toda a alegria de Luciano do Valle se justificava.

Como empresário sabia estar no caminho certo.

Logo formaria com o consórcio Luqui-Bandeirantes.

Sua ideia parecia ousada.

Mas deu certo demais.

Levar onze horas de transmissões esportivas em seguida.

Elia Júnior e Simone Mello ficaram mais conhecidos que Tom e Jerry.

Eles eram os apresentadores do Show do Esporte.

O projeto foi tão vitorioso que dominou o espírito da emissora.

A Bandeirantes era o 'canal do esporte'.

Por imposição do seu nacionalismo, o microfone da emissora mudou.

Deixou de ser vermelho, preto e branco, cores da bandeira paulista.

Daí o nome da emissora, Bandeirantes.

Para ser verde e amarelo, como a bandeira e os uniformes brasileiros.

Luciano era prático, ele adaptou ao país o que acontecia nos Estados Unidos.

Fez de uma tevê aberta um canal a cabo aos domingos.

Nessas onze horas de programação, o forte eram os esportes amadores.

A Globo, desde a ditadura militar, mantinha o monopólio do futebol.

O que se mostrou excepcional para Galvão Bueno.

Todos os jogos importantes, principalmente da Seleção, eram dele.

Com tanto tempo no ar, Luciano ousou.

Mostrou de tudo, até sinuca.

Transformou Rui Chapéu em ídolo do país.

Apostou em Adilson Rodrigues.

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Usou com muita sabedoria os dúbios caminhos do boxe profissional.

E fez do brasileiro um fenômeno.

Muitos não levavam em conta os adversários fraquíssimos que enfrentou.

Mas eram garantia de primeiro lugar na audiência.

Foi até onde pôde.

Nunca houve a 'luta do século' contra Mike Tyson.

O empresário o segurou derrotando oponentes sem potencial o quanto pôde.

Mas a subida no ranking o obrigou a encarar os melhores.

E vieram George Foreman e Evander Holyfield.

Durou apenas dois rounds contra cada um.

Maguila despencaria do segundo lugar do Conselho Mundial de Boxe.

Perdia o fôlego.

Ter acontecido esses combates já foi uma façanha.

Depois vieram mais lutas e adversários insignificantes.

Sua missão havia sido cumprida.

Dera à Bandeirantes muitas noites em primeiro lugar.

Luciano do Valle tinha um sonho.

"Eu gostaria muito de treinar a Seleção Brasileira.

Sei que tenho condições por tudo que vivi no futebol."

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Ele me fez essa confissão quando decidiu ousar.

Não narraria a Copa do Mundo de Masters.

Seria o técnico.

Sentou no banco, comandou Rivellino, Edu, Dario.

Mas não se transformou no 'novo' João Saldanha.

Logo estava envolvido no basquete feminino.

Com Magic Paula, a Rainha Hortência.

Investidor, trouxe a Fórmula Indy ao País.

Mostrou os primeiros jogos da NBA.

A Traffic de Jota Hawilla assumiria o esporte na Band.

O projeto das onze horas no ar aos domingos se esgotava.

Os canais a cabo começavam a se firmar no país.

Luciano trocou São Paulo por Recife.

Estava envolvido em vários projetos.

Narrar virou apenas o trabalho de quarta e domingo.

Ainda tinha fôlego e voz para brigar com Galvão Bueno.

Até que em 2012, sofreu um AVC.

Se afastou da narração por cerca de um ano.

Voltou diferente, debilitado.

Mas sua carreira vitoriosa, se nome ainda era seu crachá.

Companheiros já o ajudavam na transmissão.

Principalmente quando trocava algum nome de atleta.

Nada falavam.

Escreviam em letras garrafais o nome correto.

O que parecia uma gafe imperdoável ao telespectador comum...

Mas era, na verdade, quase um milagre.

Médicos ficavam boquiabertos como ele transmitia jogos.

Luciano se superava, ia além dos limites, em qualquer partida após o AVC.

Mostrava muita coragem de se expor.

2013 havia sido um ano mágico.

A Copa das Confederações coincidiu com os 50 anos de carreira.

O nacionalista incorrigível estava mais do que animado.

Queria demais transmitir a sua 11ª Copa.

O Mundial seria no seu país.

Com a final marcada para o mesmo Maracanã de Brasil e Rússia em 1983.

Faltavam apenas 52 dias.

Mas o coração não suportou.

E começou a falhar ontem no voo entre São Paulo e Uberlândia.

Iria narrar Corinthians e Atlético.

Mas morreu ao desembarcar na cidade mineira, aos 66 anos.

Com ele, se vai um revolucionário.

Pura sorte do Brasil que o melhor narrador quis ser empresário.

E enxergou o potencial de outros esportes além do futebol

Zé Roberto Guimarães, Rivellino, Hortência, Fittipaldi estão desolados.

Mesmo o vaidoso Galvão Bueno também não escapou das lágrimas.

Não ter o principal concorrente não é motivo de alegria.

É o fim de uma era.

Todos sabem o profissional e o homem que este país perdeu.

Não há quem não chore hoje por Luciano do Valle...
5reproducao2 Não há quem não chore por Luciano do Valle. O homem que fez do talento um caminho para revolucionar o esporte no seu amado Brasil. O destino não quis esperar 52 dias. Para que transmitisse a Copa do Mundo mais desejada...

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