126 Na rescisão de Nilmar com o Santos, a certeza. O futebol começa a perder para a depressão
O pedido do atacante foi claro.

Sem coletiva, sem presença de jornalistas, conselheiros, torcedores. Era para ser o mais discreto possível. E foi. Bastou a assinatura na rescisão do contrato.

E pronto.

Nilmar deixou ontem de ser jogador do Santos.

Foi vencido pela depressão.

O atacante atuou apenas 39 minutos com a camisa santista, desde foi contratado, em junho. Entrou como reserva, contra Coritiba e Cruzeiro. Nada conseguiu fazer. Teve atuações irreconhecíveis, para os torcedores que aprenderam a admirá-lo. No Internacional, Lyon, Corinthians. Teve chance até na Seleção Brasileira, marcando nove gols, em 24 convocações. Disputou como reserva a Copa de 2010.

Só que Nilmar chegou ao Santos, depois de um período de um ano e três meses sem atuar. Estava há mais de um ano sem atuar no Al Nasr. As cirurgias nos dois joelhos, mais lesões nos tornozelos, no ombro, fora as várias contusões musculares que teve ao longo da carreira, já pesavam. Ele havia perdido sua principal característica, a velocidade. Se tornou um atacante fácil de ser dominado. Acabou na reserva. Discutiu com treinadores e dirigentes. Acabou deixando até de ser inscrito para as competições. Como seu contrato era excelente, não quis ir embora. Apenas treinava e recebia.

Ao chegar na Vila Belmiro, sua fama de artilheiro o precedia. E aceitou fazer o mesmo tipo de contrato de Ricardo Oliveira. Assinou por R$ 200 mil mensais, salário quatro vezes menor do que recebia no Catar. Firmou compromisso de três anos. Tinha certeza que daria a volta por cima e resgataria sua condição de artilheiro, de ídolo. Até porque sabia do nível baixo do futebol no país.´

Só que seus treinos eram cada vez piores.

Como foi publicado em setembro pelo blog, "no empate em 1 a 1 contra o Cruzeiro, no dia 27 de agosto, Nilmar entrou aos 29 minutos do segundo tempo, no lugar de Copete. Mal pegou na bola. Ao entrar no vestiário, com o restante do time, ele começou a passar mal. De tanta tensão, parte do seu rosto ficou paralisado. Precisou de atendimento médico para dominar sua crise nervosa.

Nilmar seguiu alternando irritabilidade com apatia. Os médicos santistas o encaminharam para psiquiatras e psicólogos. Ficou diagnosticada a depressão. Além do longo período que ficou sem atuar por contusões, o afastamento forçado no Oriente Médio também pode ter pesado.

A falta da produção de serotonina, noradrenalina e dopamina, substâncias produzidas pelo corpo do atleta, em jogos de futebol, pode ter sido fundamental para a depressão de Nilmar.

Além da evidente pressão para que consiga jogar em alto nível. Sua carreira é vitoriosa. Foi campeão mundial sub-20. Campeão da Copa das Confederações com a Seleção. Campeão francês, campeão brasileiro, da Sul-Americana. Artilheiro da Libertadores, da Sul-Americana. Teve gol seu indicado ao prêmio Puskás. Foi o Craque do Brasileiro de 2008.

É casado, tem dois filhos pequenos. Está milionário. Com a vida resolvida".

Foi combinado que Nilmar teria seu contrato suspenso. Deixaria de receber seus salários, mas faria um tratamento intensivo para tentar se livrar da depressão. A aposta é que voltaria a jogar em 2018. Os dirigentes santistas não contavam com a renovação de Ricardo Oliveira. Teriam outro atacante experiente como titular.

Só que o atacante não conseguiu se recuperar.

O tempo foi passando e a pressão para que voltasse a jogar, em alto nível, a partir do início de 2018, virou um fantasma. De acordo com dirigentes santistas, só trazia mais ansiedade e insegurança ao atacante. E prejudicava profundamente o tratamento da depressão.

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Ele tomou a iniciativa de pedir a rescisão.

Não suportou ter a responsabilidade de voltar a jogar.

Seguirá com o tratamento e, se um dia, se sentir preparado e motivado, poderá voltar a campo. Mas também não está descartada a possibilidade de não mais retornar a jogar profissionalmente.

O atleta Nilmar perdeu para a depressão.

Vale a pena deixar claro o quadro.

Repetir o quanto esta doença é silenciosa.

E terrível.

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"Um estudo da ONU calcula que a população mundial chega a 7,6 bilhões de habitantes. Mas é outro estudo, o feito pela Organização Mundial da Saúde que assusta. Há cerca de 332 milhões de pessoas com depressão. A doença, considerada mal do século XXl pode provocar ansiedade, desespero, profunda tristeza, irritação, desinteresse pelas pessoas, pela vida.

Desprezo por atividades que antes eram prazerosas, podem perder o apetite ou comer demais. Alcoolismo. Problemas de concentração, dificuldade para lembrar detalhes ou tomar decisões. Problemas de insônia, sono excessivo, fadiga, perda de energia, mudança na alimentação, sofrimento, dores ou problemas digestivos resistentes a tratamento também podem estar presentes.

Levar até o suicídio.

E o esporte não é um mundo à parte.

Michael Phelps, Andre Agassi, Diego Hipólito, Rafaela Silva, Poliana Okimoto, Joanna Maranhão, Dwayne "The Rock" Johnson foram alguns atletas que conseguiram superar a depressão.

Um estudo no Reino Unido, em 2014, chegou à incrível conclusão que um quarto dos jogadores de lá tinha depressão ou ansiedade. A pressão para jogar futebol era a maior causa. Dos atletas em atividade, 26% assumiam o preocupante quadro. E entre os aposentados, 39%.

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Em 2015 foi divulgada uma pesquisa mais recente. Foi feito pelo FIFPro, o sindicato internacional dos atletas. E os resultados, assustadores. 38% dos 607 jogadores em atividade e 25% entre os 219 ex-jogadores disseram ter sofrido de depressão ou ansiedade nas quatro semanas anteriores a que foram entrevistados."

O que escrevi em setembro se encaixa perfeitamente ao quadro atual de Nilmar.

Os dirigentes santistas foram otimistas demais.

Não sabiam com o que estavam lidando.

Até que veio a rescisão.

É importantíssimo Nilmar jogar futebol.

Mas é fundamental seguir vivendo, cuidando de sua família, dos filhos.

E de maneira saudável.

Se tiver de encerrar a carreira para se curar, a troca vale a pena.

Quanto aos clubes.

Mais uma vez, o apelo deste jornalista.

Que prestem atenção cada vez maior à psicologia no esporte.

O ambiente é extremamente competitivo, cruel.

Seguido de vitórias e derrotas.

Contusões, suspensões, conquistas, frustrações.

Pressão de imprensa, torcida.

Não são todos os jogadores que suportam.

Enquanto tudo ficar por conta dos treinadores, que se consideram psicólogos, a situação só vai piorar.

Que o triste caso de Nilmar sirva de alerta.

O futebol começa a perder para a depressão...
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