MP escancara a promiscuidade entre cambistas e organizadas no Rio. Medo domina outros estados
Há muita preocupação entre os dirigentes brasileiros. Graças ao Rio de Janeiro. Não, eles não estão nem um pouco preocupados com o estado de calamidade pública que os governos Garotinho, Sérgio Cabral e Pezão mergulharam o estado. Não. O medo é outro.

O Ministério Público e a Polícia Civil cariocas tiveram coragem de enfrentar a hipocrisia. Desde março, investigaram uma das denúncias mais antigas do futebol brasileiro. A que dirigentes desviavam ingressos, proibidos para a venda, para torcedores organizados. Antigamente, eles entravam com as entradas nos estádios. Mas de anos para cá, passaram a vender os ingressos a cambistas, ficando com o dinheiro. Só que o esquema de corrupção cresceu, ficou mais indecente.

Nascia a Operação Limpidus.

O MP e a Polícia Civil descobriram que chefes das organizadas vendiam os ingressos, entre 150 e 250, e dividiam o dinheiro com os dirigentes. Uma promiscuidade criminosa, indigna. E que está sendo punida de forma exemplar.

Flamengo, Botafogo, Fluminense e Vasco foram investidos por mais de nove meses. Já são 15 os indiciados. Todos denunciados com mandados de prisão expedidos responderão por associação criminosa (art. 288). Os torcedores serão enquadrados no art. 41-F (vender ingressos de evento esportivo, por preço superior ao estampado no bilhete). Já os dirigentes, no 41-G (fornecer, desviar ou facilitar a distribuição de ingressos para venda por preço superior ao estampado no bilhete).

Nesta segunda-feira foram para a prisão seis pessoas. Artur Mahmoud, assessor de imprensa da presidência do Fluminense; Filipe Dias, gerente de operações de arenas e jogos do tricolor; Alesson Galvão, presidente da Raça Rubro-negra; Leandro Schilling, coordenador da Imply, empresa responsável pela confecção de ingressos para jogos do Flamengo; Monique Patrício dos Santos Gomes e Vinícius Carvalho, funcionários da Imply.

Enquanto no Rio de Janeiro, tudo já está adiantado, em São Paulo, o cerco se fecha. A relação entre as organizadas do São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Santos com suas diretorias já é pública e notória. A ajuda acontece. Quer nos jogos como também no Carnaval. A polícia sabe que é uma maneira de controlar os torcedores. Evitar protestos, perseguições, pressão, ameaças.

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Em relação a repasse dos ingressos, a situação está complicada para o Palmeiras. O Ministério Público e a Polícia Civil paulistas trabalham juntas. E com a denúncia de a dona da Crefisa, Leila Pereira, doava seus 150 ingressos nos jogos da arena paulistana para o ex-presidente palmeirense Mustafá Contursi. Pereira esperava que ele desse ingressos a conselheiros que a apoiam no Palmeiras.

Só que há denúncia que Mustafá dava os ingressos a uma funcionária do clube. E ela os dava para membros das organizadas, que os revendiam para torcedores comuns. O dinheiro da negociação dos ingressos 'invendáveis' ficava com os torcedores. O esquema foi descoberto quando a funcionária parou de dar as entradas aos torcedores. E começou a repassá-los a conselheiros. Ela foi ameaçada de morte por membros das organizadas.

As investigações estão adiantadas. E a qualquer momento, Mustafá será obrigado a depor. Assim como a funcionária do clube. Membros das organizadas e mesmo Leila Pereira.

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Só que há várias denúncias. Envolvendo São Paulo e suas organizadas. O estranho comportamento dos torcedores com o clube mergulhado na crise e correndo sério risco de rebaixamento. Não houve qualquer protesto mais veemente contra Leco e o então executivo de futebol, Vinicius Pinotti. Se houve contribuições para o Carnaval, para ônibus e até mesmo doação de ingressos, não há crime. O que o MP e a Polícia Civil buscam saber é se houve venda de ingressos que não poderiam ser negociados.

No ano passado, a própria assessoria de imprensa do São Paulo assumiu, oficialmente. O clube dá 1.500 ingressos às organizadas para cada jogo no Morumbi e 500 quando a partida é fora, além de R$ 150 mil, que são divididos pelas torcidas para financiar seus desfiles de Carnaval. Esse dinheiro deverá ser aumentado no próximo Carnaval.

"Não chega a ser chantagem. Não nos submetemos a nada. Mas tem de fazer algumas concessões. Não tem como cortar", confirmou Leco.

As diretorias de Corinthians e Santos mantêm também uma relação profunda com as organizadas. O Ministério Público e a Polícia Civil querem saber até onde vai essa intimidade. Principalmente envolvendo ingressos. Se eles acabam ou não repassados a cambistas.

O promotor paulista Paulo Castilho garante que não há comparação entre o que acontece com os clubes e torcidas organizadas, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Que a situação estaria controlada no seu estado. Mas há controvérsias. E as investigações prosseguem.

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Nas demais cidades importantes do país, a mesma situação. As organizadas cada vez mais influentes nos clubes. Em todas as áreas. O 'apoio' dos dirigentes, por chantagem ou não, segue firme. Não há ânimo para rompimentos públicos.

Casos como o do Cruzeiro, que cede duas salas do Mineirão para seus torcedores organizados guardarem instrumentos, não são raros. A situação é complicada.

Os dirigentes temem seus torcedores.

O MP e a Polícia Civil também seguem investigando a infiltração de membros do PCC nas principais organizadas do país. O resultado da investigação segue em sigilo. Mas, por coincidência, em São Paulo há algo concreto.

Desde dezembro do ano passado, quando vazaram áudios em que o comando da facção criminosa ameaçava matar os chefes das organizadas, caso as brigas entre as torcidas continuassem, a paz entre os torcedores adversários domina o cenário.

Deve ser coincidência.

Como o fato relatado no livro Prisioneiras, que fecha a trilogia sobre o sistema carcerário brasileiro, escrita por Drauzio Varella. Ele detalha o motivo de não haver crack nas penitenciárias brasileiras. Por proibição do PCC. Para que não morram seus possíveis 'soldados'.

Deve ser coincidência, também...
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