138 Montillo não apenas encerrou a carreira no Botafogo. Deu lição de dignidade a este país, comandado por corruptos. Um argentino que mostrou a qualidade que muitos brasileiros esqueceram o significado: honestidade...

Walter Damián Montillo deu uma lição de dignidade.

Em meio a tantas denúncias de corrupção que varrem este país, desde o lixeiro até o presidente da República, um argentino demonstra que honra não é apenas uma palavra. Mas uma característica da personalidade que deveria ser comum. Mas está cada vez mais rara.

Pesquisa da DataFolha mostrou há cinco dias.

47% da população tem vergonha de ser brasileiro.

Não por acaso.

Uma presidente deposta, Dilma.

Políticos que fundaram seu partido, o PT, presos.

Com provas de enriquecimento ilícito, favorecimento.

Outro presidente, Temer, vice de Dilma, com uma chuva de acusações.

Corre o risco de perder o mandato.

Se sustenta no poder com alianças vergonhosas.

Não se importa em conviver com 7% de aprovação.

Ou seja, 93% não o querem como presidente.

Desconfiam de sua idoneidade.

A Lava Jato quer prender outro ex-presidente.

Lula.

Aliás, o Instituto Paraná divulgou uma pesquisa este mês.

49% da população acredita que ele irá para trás das grades.

Só que este mesmo Lula lidera as pesquisas para a presidência.

O Datafolha aponta que, hoje, é o favorito, com 30%.

O ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, tem inúmeras acusações de corrupção. De ter vendido seu voto para que o Catar promovesse a Copa de 2022. Teve de abandonar o comando do futebol brasileiro por conta de seu envolvimento com a empresa de marketing ISL. O Tribunal Federal da Suíça não só o acusou, como condenou por haver recebido 12,7 milhões de francos suíços, cerca de R$ 43,8 milhões. Ele teve de pagar uma multa milionária.

Teixeira segue sendo investigado pelo FBI, Departamento de Justiça dos Estados Unidos e pela justiça da Espanha.

Não viaja para fora do país para não correr o risco de ser extraditado. E fazer companhia ao ex-presidente da CBF e ex-governador biônico de São Paulo, apoiado pelos militares, na Ditadura, José Maria Marin. Em Nova Iorque ele espera seu julgamento com uma tornozeleira eletrônica, reservada para os criminosos.

4reproducao 1024x576 Montillo não apenas encerrou a carreira no Botafogo. Deu lição de dignidade a este país, comandado por corruptos. Um argentino que mostrou a qualidade que muitos brasileiros esqueceram o significado: honestidade...

Teixeira cunhou ontem à Folha uma frase que resume bem o que sente por este país.

"O Brasil é o país mais seguro do mundo."

Seguro para quem?

Talvez para Teixeira e para o atual presidente da CBF.

Marco Polo Del Nero, também investigado, não vai para o Exterior.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública demonstra que, neste país, morrem mais pessoas assassinadas do que em países mergulhados em guerra. Como a Síria, por exemplo. Nos últimos quatro anos, foram mortos 256 mil cidadãos. No Brasil varonil, neste mesmo período, 279 mil perderam a vida assassinados.

A proporção de solução de assassinatos neste país uma das piores do mundo. De cada 10 pessoas assassinadas, apenas dois assassinos são presos. Ou seja, oito cometem o 'crime perfeito'. Por incompetência, desinteresse das autoridades e a frouxidão das leis.

Neste clima de desesperança, surge Montillo.

Jogador que Botafogo contratou a peso de ouro.

Seria o presente de Natal para 2017.

618 Montillo não apenas encerrou a carreira no Botafogo. Deu lição de dignidade a este país, comandado por corruptos. Um argentino que mostrou a qualidade que muitos brasileiros esqueceram o significado: honestidade...

Acertou um contrato de 12 meses.

Com direito a R$ 400 mil mensais.

Uma fortuna para o Brasil.

Aqui, 27% da população vive com meio salário mínimo por mês.

Pesquisa feita pelo IBGE.

Famílias se sustentam com R$ 468,50.

Metade dos R$ 937,00 comemorados por Temer.

Jornalistas esportivos antigos, quando era muito mais difícil e restrito o acesso de estrangeiros ao futebol brasileiro, costumavam repetir nas redações de jornais chavões preconceituosos contra argentinos. "Milongueiros", aproveitadores. E que só vinham para cá para 'enganar', ganhar dinheiro. Não tinham a menor consideração pelos clubes e pelas camisas que vestiam.

Muitos formadores de opinião ainda pensam assim.

Na surdina, não nos microfones.

São xenófobos.

Rejeitam os estrangeiros.

As lágrimas de Montillo lavaram esses conceitos retrógrados.

E demonstraram que a honestidade, a decência ainda cabe.

Tanto no futebol como neste país.

Aos 33 anos, Montillo tem uma lesão crônica na panturilha direita. E dores espalhadas pelo corpo. Foram cinco lesões musculares em seis meses no Botafogo. Como não havia feito pré-temporada na China, os fisiologistas e preparadores físicos resolveram que faria a sua, em plena temporada. Passou dois meses e meio se preparando.

Neste período já demonstrou ser uma pessoa diferenciada. Ele se sentiu mal com a situação e procurou a diretoria do clube carioca. E avisou que não queria receber seu salário enquanto estava se preparando fisicamente. Apesar do contrato em vigência. "Não quero roubar o clube", disse claramente. Os dirigentes não aceitaram deixar de pagá-lo, afinal, ele estava trabalhando e muito para tentar voltar a jogar. E estranharam tanta honestidade. Ele estava abrindo mão de quase R$ 1 milhão.

Depois de tanto treinamento, veio a partida contra o Avaí.

327 1024x752 Montillo não apenas encerrou a carreira no Botafogo. Deu lição de dignidade a este país, comandado por corruptos. Um argentino que mostrou a qualidade que muitos brasileiros esqueceram o significado: honestidade...

E ele ficou três minutos em campo. As dores voltaram. E ele poderia usufruir do seu contrato e ficar mais dois, três, quatro meses em tratamento. E recebendo. Mas teve hombridade e decidiu encerrar a carreira.

Jogador importante de Shangong Luneng (China), Universidad de Chile (Chile), Morelia (México) e San Lorenzo (Argentina) no Exterior. Por aqui, defendeu o Cruzeiro, Santos e queria muito fazer sucesso no Botafogo.

Como não conseguiu, 17 partidas e nenhum gol, deu um fim à frustração.

Acabou uma carreira de 15 anos, 503 jogos, 88 gols, 116 assistências, campeão da Copa Sul-Americana (San Lorenzo, 2002), Torneio Apertura (Universidad de Chile, 2009), Campeonato Mineiro (Cruzeiro, 2011), Copa da China e Supercopa da China (Shandong Luneng, 2014 e 2015).

Sua entrevista de despedida do futebol foi tocante.

Ele chorou e fez chorar.

Montillo disse ter sentido vergonha, mas fez os brasileiros passarem vergonha e se perguntarem: porque os nossos governantes não têm um pingo de dignidade deste argentino?

"Fiquei com vergonha. Mas não quero ter vergonha. Consegui muita coisa na minha carreira, além do futebol. Mas senti vergonha que nunca tinha sentido. Posso jogar mal ou bem, mas não assim. Ninguém quer machucar. Sei que criei uma expectativa muito grande. Foi o último soco que tomei. Não vou alimentar uma morte lenta. Pronto, acabou. O jogador de futebol morreu. Que apareçam muitos mais Montillo.

"Me falaram no Botafogo que eu podia ficar à vontade tratando, mas expliquei que fiquei treinando. Eu não podia mudar nada do que fiz. São 15 como jogador profissional. Entendo como se trabalha. Eu fiz a pré-temporada certinha. Prefiro sair. Até agora estava com cabeça para ajudar o time. Depois do último jogo, não. Não preciso disso. Tem jogadores que são muito fortes e conseguem ir além. Eu não consigo.

 Montillo não apenas encerrou a carreira no Botafogo. Deu lição de dignidade a este país, comandado por corruptos. Um argentino que mostrou a qualidade que muitos brasileiros esqueceram o significado: honestidade...

"No momento que não sou útil, não dá mais. Esse momento foi agora. Feliz pela decisão que tomo e triste por não jogar no Botafogo o que não joguei na carreira. O clube acreditou em mim. E eu achei que fosse conseguir coisas importantes no clube. Não consegui dentro de campo. Mas fora consegui passar para os meninos um profissionalismo que vou levar para a vida toda.

"Eu como homem da casa preciso estar com a cabeça boa. Ou a família começa a cair aos poucos. Senti que chegava em casa em todos estavam sofrendo muito. O primeiro que sofria era eu. Outro dia cheguei e os 4 começaram a chorar. Eu disse "deu".

"Não foi vaidade ou sacanagem. Eu tentei. Mas não deu. Peço desculpas pode não ter correspondido à expectativa dos torcedores. Fiz de tudo para voltar, mas com 3 minutos senti de novo. Nunca fiquei numa maca esperando algo acontecer. Sempre foi trabalhando e jogando bola. Dessa vez, cinco lesões em seis meses. Não é meu perfil. Meu perfil é estar em campo. Tenho que me reinventar e fazer outa coisa. Isso me fez dizer chega! Mais do que isso eu não posso fazer."

Quantas pessoas neste país virariam as costas a R$ 2,4 milhões?

Era o dinheiro que Montillo ainda teria a receber pelo Botafogo.

Ele tinha contrato assinado, poderia 'enrolar' por meses, entrar em uma ou outra partida, e voltar ao departamento médico. Seis meses no futebol passam muito rápido.

Mas o argentino resolveu ser honesto.

Deu uma lição de transparência.

Tapa na cara.

Da população que se acostumou com os corruptos.

Walter Damián Montillo é um homem digno.

Por isso sua entrevista provoca tanta repercussão.

O país se esqueceu que existem homens dignos.

E as lágrimas de quem viu a despedida não foram só por Montillo.

Mas pelo país que um dia sonhamos.

E que não existe mais...
4sspressbotafogo Montillo não apenas encerrou a carreira no Botafogo. Deu lição de dignidade a este país, comandado por corruptos. Um argentino que mostrou a qualidade que muitos brasileiros esqueceram o significado: honestidade...

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