1ae1 Luiz Felipe Scolari não é um bandido. É um treinador de futebol que fracassou na Copa de 2014. Como venceu em 2002. Não merece ser humilhado pela equipe do Pânico. Aliás, ninguém merece...
O Pânico na TV foi lançado em 2003 na Rede TV. Foi um choque para os brasileiros. Bullying nas celebridades e brincadeiras envolvendo muita dor ou humilhação dos próprios participantes. Ninguém tinha visto nada parecido no Brasil.

Mas nos Estados Unidos, já. Big Brother Skateboard Magazine era um programa que mostrava as peripécias dos dublês Johnny Knoxville, Dave England, Chris Pontius e Wee Man. Isso em 1998. Knoxville, dublê, resolveu testar sua resistência a tombos, socos, ser lançado de canhão, rolar ribanceiras em cima de uma bicicleta. Eram verdadeiras sessões de masoquismo. O público adolescente adorou. E a MTV não deixou passar a oportunidade. E em 2000 foi criado o Jack Ass.

Na MTV foram acrescentados os trotes às celebridades. Quanto mais mau gosto, maior a repercussão. Era tudo que a trupe do Jack Ass queria. O programa durou dois anos. Não pela MTV. Mas pelos dublês. Eles resolveram andar com as próprias pernas. Fizeram filmes, programas especiais independentes.

Vovô Sem Vergonha, filme feito pela equipe de Knoxville foi lançado em 2013, custou R$ 15 milhões. Faturou mais de R$ 145 milhões no mundo todo. Fora o dinheiro dos dvds.

Nos seus 11 anos de existência, o Pânico seguiu o mesmo caminho sem o menor constrangimento. Mas acrescentou sátiras, imitações hilárias. Lançou comediantes com muito talento como Carioca, Ceará, Eduardo Sterblitch. Só que não parou por aí. A gosto do fiel público adolescente, esticou seus olhos para o futebol.

E tome bullying em jogadores e treinadores. Em 2010, Dunga chegou a chamar a polícia para tirar a equipe do programa que não saía de frente à sua casa, após a perda da Copa da África do Sul. Em 2012, um dos membros do Pânico, Alfinete, telefonou de madrugada para o então treinador do Emelec, Marcelo Fleitas. Ele fez questão de acordá-lo e xingá-lo muito. O motivo era que os equatorianos jogariam com o Corinthians pela Libertadores. O trote foi ao ar e fez sucesso.

Muitos atores, cantores, jogadores e técnicos não falam com alguns membros do Pânico. Já virou praxe, mesmo assim, as câmeras ficarem ligadas, apontadas para o rosto do 'entrevistado'. É de um constrangimento atroz. O desejo da pessoa não é respeitado. Mas como rende audiência é levado ao ar.

O que aconteceu na última quinta-feira foi absurdo. A equipe do Pânico já cercava a casa de Felipão em São Paulo há três dias. Ele não queria dar entrevistas. Chegou até a discutir com um membro da equipe. Mas há dois dias, Scolari teve de viajar para Porto Alegre. Assumir o cargo no Grêmio.

Foi quando a produção do programa descobriu que viajaria de TAM às 8h28, no vôo 3865 da quinta-feira. Daniel Peixoto conhecido como Alfinete viajou com Daniel Zukerman, o Impostor. Ambos fizeram tudo o que não tinham direito no vôo. Instigaram passageiros a cantar músicas humilhando Felipão. Chegaram até a usar o hino nacional.

Não contentes, tentaram forçar uma entrevista com o técnico. O Impostor acompanhado por um câmera e produtores fez de tudo para que o treinador falasse. Parecia haver um prazer mórbido com o constrangimento do treinador. Passageiros filmavam a cena deplorável.

Acuado, Felipão buscou ajuda das aeromoças. Diante da negativa do técnico em dar entrevistas, voltaram as cantorias tentando ridicularizá-lo. Só foram calados diante da ordem do piloto do avião.

Esse tipo de humor faz bem para quem? Acrescenta o quê na vida das pessoas? Tripudiar alguém, humilhar, apelar para o bullying com que propósito? Incentivar crianças africanas a repetir nos microfones "Dunga burro" faz rir? Comparar Preta Gil a uma baleia encalhada atinge em cheio as crianças obesas. Estimula rejeição, as agressões nas escolas.

Vivemos em um regime que permite a liberdade de expressão. Que o Pânico continue fazendo o que acredita ser o seu melhor. Mas humilhar pessoas é um caminho que escolheu em 2003. E onze anos depois repete a mesma situação. Nos últimos dois anos perdeu 45% de sua audiência. Se no passado, já chegou a liderar a briga pela concorrência, agora está estagnado na quarta colocação. No domingo passado atingiu apenas 4,5 pontos.

Seria bom a direção do Pânico se inspirar novamente nos passos de Knoxville. Nos atuais. Pensar nos R$ 145 milhões E tentar se reinventar. Massacrar pessoas indefesas diante de uma câmera por mais de uma década é algo lamentável.

O que aconteceu no vôo para Porto Alegre não foi constrangedor para Felipão. Mas para o próprio programa humorístico. Ele é um técnico de futebol, não um bandido. Por isso as portas do futebol estão cada vez mais fechadas à trupe de Emílio Surita. Tão criativa, com alguns comediantes do mais puro talento, mas cuja essência perdeu o rumo. Cansaram as agressões gratuitas, desnecessárias, repetitivas. Nem mesmo os mais sádicos adolescentes deste país suportam. A resposta que o Pânico finge não ver está no Ibope de cada domingo...

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