125 Juninho, chá de coca, Ronaldo, Maluf. O privilégio de ser parceiro de Prósperi
Parceria é fundamental nesta vida.

Sem uma palavra de incentivo, de apoio e até de cobrança, não saímos do lugar.

Nos quase 23 anos que trabalhei no Jornal da Tarde, tive a minha.

Luiz Antônio Prósperi.

Mineiro, descendente de italiano, inteligente, sagaz, lúcido, intuitivo e com uma capacidade imensa de antever páginas, cadernos. Levou milhões e mais milhões de reais ao JT e, depois ao Estado, em projetos que empresas compraram satisfeitas. Para Copas do Mundo e Olimpíadas. E em plena crise.

Em uma relação simplista, deu muito mais dinheiro à família Mesquita do que recebeu.

Fizemos dezenas de coberturas importantíssimas juntos. Nos completávamos. Ele era explosivo como eu. Já escrevi aqui que ele deu um soco na cara do então secretário-geral da CBF, em plena comemoração da conquista do tetra, nos Estados Unidos. Ia, mas não gostava do sufoco que passávamos nas zonas mistas. Mas muitas vezes estava por trás da minha truculência,que me fazia empurrar seguranças, colegas, quem fosse para chegar no ouvido de um personagem fundamental na nossa cobertura. Fazer a pergunta que os outros não poderiam ouvir. E que havia sido formulada, depois de profunda observação, por Prósperi.

Filho da mãe, sabia me manipular. "Se você conseguir perguntar tal coisa e tiver a resposta sozinho, a gente arrebenta." Muitas vezes me surpreendia como ele conseguiu fazer as cognições. Que pareciam simples. Mas, na correria das coberturas, ninguém percebia. Eu sabia que ele tinha muita influência com os editores. E pedia o troco. "Eu vou, mas você tem de garantir a manchete da página e a capa do jornal. E ele conseguia.

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Houve uma história marcante. E que tem a apresentadora e repórter Patricia Maldonado como uma engraçada testemunha. Estávamos na Coréia do Sul. Com 12 horas à frente em relação ao Brasil. A Internet, na época, era incipiente, dava os primeiros passos há 15 anos. O forte da cobertura esportiva estava nos jornais. E tínhamos essa grande dificuldade. Precisávamos escrever até as dez horas da manhã em Seul. O que correspondia às dez da noite no Brasil. E depois passar o dia e a noite inteira do outro lado do mundo buscando novas notícias.

Estava no mesmo quarto do Prósperi. Tínhamos uma estratégia quase suicida. Passávamos a madrugada toda escrevendo. Enquanto um ficava duas horas diante do computador, o outro dormia. Acabadas as duas horas, o outro assumia. Naquelas madrugadas insanas e insones, redescobri a fórmula que tanto usei para estudar no vestibular. O poder do café misturado com Coca Cola. Era desesperador. Mas o jornal tinha de sair. Até hoje, café gelado me atrai.

Com 12 horas contra, a chance de um furo era quase nula. Felipão sempre gostou de um segredo, de valorizar sua estratégia, de surpreender. Isso nasceu em times pequenos, imagine em um Mundial. A nossa relação sempre foi uma montanha russa. De aproximação, ódio, admiração, raiva, respeito, desrespeito. Sabotada constantemente por seu assessor de imprensa, Acaz Fellegger. Ele sempre soube que se eu conseguisse a notícia, publicaria.

Na véspera da estreia do Brasil na Copa, contra a Turquia, Scolari tinha uma séria dúvida. Ele já havia optado pelo 3-5-2. Marcos, Roque Júnior, Lúcio e Edmílson; Cafu, Gilberto Silva, ?, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos; Ronaldo e Rivaldo. Este ponto de interrogação era mantido a ferro e fogo por Felipão. A aposta generalizada era em Vampeta. Alguns veículos mais ousados, deliravam, acreditavam em Denílson. Uns poucos pensavam em Ricardinho, que chegou às pressas, na vaga do cortado Emerson.

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Os treinos eram abertos naquela época. E Felipão não fez os tradicionais coletivos. Aí ficaria fácil. Ele misturou os jogadores e forçou na aproximação, na compactação. De sacanagem, passou muito tempo conversando com Vampeta e depois Ricardinho. Induziu ao erro. Vingativo como sempre foi, Felipão estava ferido pelos ataques que recebeu durante as Eliminatórias. E por não ter convocado Romário. Queria induzir ao erro.

Para não errar, a esmagadora maioria das manchetes ia pelo mesmo caminho neste país. "Felipão em dúvida. Ainda não sabe que time colocar em campo contra a Turquia." Scolari lia e amassava as xerox das matérias publicadas no Brasil, com as partes contra ele, marcadas em vermelho, como sempre fez Acaz. E que o deixava possesso.

Eu e o Prósperi passamos horas da nossas vidas pensando como ele armaria o time.

Até que no final do último treinamento, meu parceiro me chamou. "Eu já sei quem este louco vai colocar no time. E quem ninguém imagina." Lógico que perguntei, quase apertando o seu pescoço. "Quem?" "O Juninho Paulista. Discretamente, o Felipão passou os últimos dez minutos com Juninho Paulista e o Gilberto Silva. Brincaram, disfarçaram. Mas falaram a sério sobre posicionamento. Agora, precisamos checar." Entendi, no ato. Truculência, mais cara de pau.

E veio a última coletiva de Felipão antes da estreia na Copa. Ele se recusou de forma absurda a dar detalhes do time. Foi apertado, ficou irritado quando cobrado, principalmente pela mídia carioca, por Romário. Acabou a entrevista e ele quis passar rápido, ir embora. Jornalistas e produtores da Globo tentariam uma última palavra. Mas seguranças coreanos o barraram de um lado. O outro estava livre. E, louco pela manchete, tomei a liberdade que nunca tive com Luiz Felipe.

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O segurei pelo ombro. E falei no seu ouvido.

"Vai jogar o Juninho Paulista."

Era tudo ou nada. Ou viria uma porrada na cara.

Ou algo muito bom aconteceria.

Felipão olhou, assustado. Nós já tínhamos brigado e feito as pazes pelo menos oito vezes na sua primeira passagem pelo Palmeiras. Acredito que ainda com raiva dos cariocas, ele me olhou e sacaneou os jornalistas do Rio que estavam próximos. "Taí, ele observou muito bem o treino. Estava aberto para todos enxergarem. Parabéns, guri", e virou as costas, cercado pelos seguranças.

Era a confirmação que eu queria. Conhecia Felipão. Tive a certeza, ele não mentiu. Fomos eu e o Prósperi para o quarto escrever. Foi quando tive a ideia.

"Vamos colocar para foder. Fazer algo marcante, que ninguém espera."

Ele já me conhecia muito bem e sabia que viria bomba. Tínhamos quatro páginas de apresentação do jogo. "Vamos fazer todas sobre o Juninho Paulista. Uma sobre a grande surpresa da Copa. Outra sobre sua importância tática. A terceira descrevendo psicologicamente como ele era. E a última sobre o que ele poderia fazer pela Seleção."

"Você está louco. Se ele colocar outro, vão nos matar", respondeu Prósperi.

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"O Felipão sempre teve admiração pelo Juninho Paulista. Eu o conheço. Sei que não mentiu para mim. Pense, a gente vai arrebentar. Você confia ou não confia no que viu?" Depois de dez minutos de reflexão, vem a resposta. "Vamos nessa." Escrevemos como loucos. Deixamos para avisar ao JT quando os editores não podiam fazer mais nada. A não ser acreditar nas quatro páginas. E, principalmente, o Estado não ter acesso à nossa notícia. Era exclusiva. E ponto final.

Foi capa do jornal.

Haveria um derradeiro treino no dia seguinte na Coréia, quando todos os jornais já estavam nas bancas. E só o o JT com essa overdose de Juninho Paulista. Patricia me conhecia há anos. E eu estava muito feliz, brincando, tinha certeza que o furo era nosso. Ele me perguntou porque eu estava tão animado. "Porque sei quem vai jogar", respondi. "Duvido", retrucou.

"Vou escrever o nome do jogador que vai entrar. Você só vai abrir esse papel depois do treino. Combinado?" Ela topou. E ficou com o papel dobrado.

Felipão começou o treino. E com Ricardinho no time. Prósperi estava desesperado. "Caralho, estamos fodidos. Vamos para a rua. Como é que você me convenceu a faze essa loucura?" Confesso que comecei a suar frio. O estômago doeu. Colegas, afoitos, de rádio e televisão começavam a divulgar. Ricardinho será o titular contra a Turquia.

Mas, passados dez minutos, Felipão coloca Juninho Paulista. E ele fica até o final do treino estava confirmado como titular. Falei para a Patricia desdobrar o papel. Seu olhos ficaram esbugalhados.

Enquanto isso, eu e o Prósperi comemoramos. Da maneira que aprendemos. "Fodemos a concorrência." Víamos que outros jornais tinham equipes enormes na Copa.

O mais gostoso ficou reservado para depois do Mundial.

O rígido ombudsman da Folha de São Paulo afirmou que só houve um furo durante toda a Copa. E foi o do Jornal da Tarde, do Juninho Paulista.

Foram inúmeras passagens com Prósperi. Como na primeira derrota da história do Brasil nas Eliminatórias, 2 a 0 para a Bolívia, em julho de 1993. Ao chegar a La Paz, a minha cabeça parecia que iria explodir. Enquanto o nariz do meu parceiro desatou a sangrar. Chegamos no hotel para escrever sobre o desastre e ele tomba na cama.

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Não poderia trabalhar.

Comecei a descrever ensandecido sobre o desastre. Percebo que não daria tempo. Era muito espaço para um jornalista só. E desci para a cozinha do hotel. Voltei com dois bules cheios de chá de coca. O efeito foi instantâneo. Parou de escorrer o sangue no nariz do Prósperi. E a minha dor de cabeça sumiu. O chá me deixou três dias sem conseguir dormir, mas cumpriu sua função.

Vi o respeito com que Ronaldo Fenômeno, no auge, tratava Prósperi. Não negava uma exclusiva. Parava de falar com jornalistas para conversar só com ele. O saudoso Paulo Júlio Clement era assessor de Ronaldo, e fazia questão de revelar que o meu parceiro era um dos poucos jornalistas que o Fenômeno confiava.

Parreira também é apaixonado por ele. O treinador perdoou até o JT ter colocado um retrato seu com orelhas de burro, ideia do dono do jornal, em 1994, já durante a Copa. Os jornalistas ficaram revoltados, mas nada puderam fazer diante da ordem do patrão maior. O mais ridículo é que, poucos dias depois, Parreira foi tetracampeão mundial. E só perdoou o JT pelo Prósperi.

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Adorava jornais europeus.

Prestava atenção em tudo, na diagramação, nas fotos, manchetes.

Virou editor de Esportes do JT e depois do Estadão.

Sempre odiou Paulo Maluf. Há mais de 20 anos, quando éramos solteiros, fomos jantar, com Carlos Lima, outro jornalista importante do JT. Depois de mais um fechamento pesado.

Fomos jantar e paquerar, na verdade. E não é que em uma mesa do Royal havia três garotas lindas? Eram bailarinas do Teatro Municipal. Elas nos convidaram para as acompanhar. Era um sonho. Bom demais para ser verdade. Vinho, boa comida, ótima companhia, perfume francês.

Mas aí, o assunto virou política.

"Eu aposto que você vai votar no Maluf", decretou meu parceiro, para a beldade que estava do seu lado. Ela ficou surpresa e constrangida com a pergunta. Mas teve personalidade. "Eu estava em dúvida, mas acho que vou votar nele, sim."

Lembro da cena.

E em câmera lenta, como se fosse um filme.

Prósperi ficou vermelho, as veias saltaram na sua testa. Sabia que viria o terremoto. "Você vai votar no Maluf? Então vá tomar no ..." Eu quase chorei. Ela olhou firme para as outras duas amigas. Nós desaparecemos da mesa. "Esse sujeito que eu nunca vi na vida está me mandando tomar no.? Vamos embora, já." Tentei salvar a bola que já havia passado pela linha de gol.

"Imagine, o Prósperi está só brincando", balbuciei.

Eis que ele se levanta da mesa. "Brincando é o caralho. Quem votar no Paulo Maluf tem mais é de tomar..." Ele não falou, berrou. As três bailarinas foram embora para sempre da nossa retina. Terminamos a noite bebendo. Eu e o Carlão mais tristes do que o Barbosa ao final da Copa de 1950. E o Prósperi vociferando contra o Maluf para os garçons.

Ele nunca se arrependeu da noite que estragou. Sempre foi fiel aos seus princípios. Até nas horas mais impróprias.

Comemoramos, rimos, viajamos o mundo, ganhamos prêmios juntos. Sacrificamos a convivência com a família pelo trabalho. Casamos tarde, até pela paixão que nos consumia pelo jornal. Choramos a decadência, os erros administrativos, os enganos amadores, a falência do Jornal da Tarde.

Mas a amizade, o querer bem, a torcida um pelo outro, segue sempre forte.

Sorte de quem tem parceiros de verdade nesta vida.

Eu tenho no Prósperi, o irmão que nunca tive...
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