2reproducao1 Fui injustiçado. É preciso respeitar um técnico campeão mundial. Valdir Espinosa
No dia 10 de agosto, o mundo do futebol brasileiro acompanhou, consternado, as lágrimas de Valdir Espinosa. Ele lamentava publicamente a sua demissão do Grêmio. Clube que, sob seu comando, ganhou a primeira Libertadores da América e o seu único Mundial.

"Foi o pior dia da minha vida", diz, diante da ingratidão.

Depois do baque, Espinosa aceitou falar com o blog. Tranquilo, de maneira exclusiva, como gosta. Não em coletiva, cercado de microfones, dando respostas superficiais. Ele detalhou seu trabalho com Renato Gaúcho, na formação do excelente Grêmio que briga pela Libertadores e pelo Brasileiro. Explicou sua ligação de pai para filho com Renato.

"O Renato é um dos melhores treinadores do Brasil. Está no lugar certo, no time certo. Fazendo um trabalho excelente. Não queria e não teria cabimento ele pedir demissão porque fui demitido. A questão foi toda minha. Sofri uma grande injustiça, não do Grêmio, que continuo amando muito. Vaidade talvez seja a palavra que resume a minha saída do clube. Disse e repito. Não se trata um campeão mundial como fui tratado."

Valdir, por que você foi demitido pelo Grêmio?

Vou deixar claro. Eu fui contratado pela diretoria anterior no ano passado. Meu cargo era de coordenador técnico do time profissional. Era para ajudar o Renato onde fosse necessário. Trocávamos ideias sobre tudo. Mas quem decidia era o Renato que é um grande treinador e que muita gente não sabe. Ele cresceu muito, estudou, pesquisou. Se aprimorou. Eu ajudava com a minha vivência, minha experiência. Não só graças ao passado, mas pelo presente.

Faço questão de estar atualizado sobre os esquemas táticos, a maneira dos principais times e seleções atuar. Quando o Renato queria, eu dava o meu ponto de vista. Eu sempre fiz questão de deixar claro. Ele era o treinador. Os méritos da grande equipe que o Grêmio tem é dele.

Estava tudo certo. Até que decidi também ajudar nas categorias de base, que não era minha função. Fiz porque acredito que a base precisa ser tratada com todo cuidado, preocupação. Só que chegou a nova direção e trataram de me afastar do time principal. Queriam que eu ficasse o tempo todo analisando os garotos na base. Ver quem servia e quem não servia. Não foi para isso que fui contratado. Não aceitei e acabei demitido, sem o menor respeito. Isso que doeu.

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Você esperava que o Renato se demitisse, em solidariedade?

De jeito nenhum. Não estávamos amarrados um no outro. Ele fez bem em seguir sua carreira. A minha relação com ele é de 'pai para filho'. Nós temos plena confiança e consideração um pelo outro. O problema foi absolutamente meu. Quero que ele siga fazendo o seu ótimo trabalho. Desde que sai deixei para nos encontrar depois. Com calma, nas férias, nos encontraremos no Rio de Janeiro. Nada vai abalar nossa relação.

Muita gente acredita que você é o responsável taticamente pelo Grêmio...

Não. O mérito é todo do Renato. Eu ajudei quando fui consultado. Vou te contar uma coisa, Cosme. O Renato tem um lado que só quem trabalha com ele, sabe. Além de gerir muito bem o vestiário, expressão da moda, ele é muito tático. Estuda o adversário. E sabe tirar o melhor dos jogadores com quem trabalha. É moderno, tem muita visão de jogo. Mas para a imprensa, prefere ir para o outro lado. Fica falando que merece estátua, brinca, provoca. Desvia o foco da profundidade do seu trabalho. O Grêmio não está jogando o que joga por acaso. O Renato é um dos grandes treinadores do Brasil.

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A dupla que formava com ele era vitoriosa, Valdir. Todo técnico que tiver a orientação de um treinador vitorioso, vivido, pode render muito mais. O Rogério Ceni, no São Paulo, por exemplo. Se houvesse alguém para orientá-lo, como o Muricy, por exemplo, pode ser que tivesse dado certo.

Mas não são todos os dirigentes do país que estão preparados para ter alguém nesta função. É uma situação nova, que ainda pode ser que seja comum no futuro. Não deu certo também com o Autuori e o Eduardo Baptista. Envolve muitas coisas. Principalmente incompreensão dos dirigentes. A dupla que formei com o Renato era diferente. Pelo profundo laço de confiança que temos um no outro. O vi nascer como jogador e vencemos juntos a Libertadores e o Mundial. Fui campeão da Libertadores com 35 anos e Mundial com 36 anos.

Você vai completar 70 anos no próximo mês. Acredita que exista preconceito no futebol do Brasil com os velhos?

Cosme, eu não vou levantar bandeira alguma. Eu sei de mim. Tenho todas as condições e vou seguir trabalhando como técnico. Desde que surja a proposta de um clube disposto a ter uma filosofia de futebol. Saiba o que quer. Eu também amo comentar futebol. Foi ótima minha experiência na Rádio Globo, no Sportv. Além disso, uso a internet para divulgar o que penso sobre futebol. Explico esquemas táticos. Só é velho quem quer! Estou me atualizando constantemente. Tenho prazer no que faço. Aposentadoria não é para mim. Vou seguir a minha vida no futebol.

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Como você encara a Máfia dos empresários. Treinadores sem empresário não costumam ter espaço no futebol mundial. E também no Brasil.

Tive um empresário na minha carreira, o João Francisco, que morreu. Ele me colocou no Palmeiras, no Grêmio, no Botafogo. Não sou ingênuo. Sei que com empresário fica muito mais fácil para o técnico trabalhar. Não tenho. O grande problema é quando o empresário do técnico também tem jogadores. E ele quer que seus atletas sejam contratados pelo time do 'seu' treinador. O João Francisco trazia jogadores do nível do Arce,Paulo Nunes. Aí não tinha problemas. Mas ele morreu. E é difícil encontrar alguém com quem você tenha proximidade, confiança. Hoje não tenho empresário e vou seguir assim.

Ficou alguma mágoa com o Grêmio?

Jamais. Eu amo muito o Grêmio. O que vivi neste clube foi algo marcante para a minha vida. Fui injustiçado. É preciso respeitar um técnico campeão mundial. A instituição estará sempre no meu coração. Houve problema com dirigentes vaidosos que não me respeitaram. E eles vão passar. O Grêmio jamais.

E do Renato Gaúcho?

Muito menos. Você sabe o que é relação de pai e filho? Não se rompe. Aconteça o que acontecer...
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