3333 Exclusivo.O Brasil foi injusto com Dunga. Vicente del Bosque...

São Paulo...

De volta ao Brasil...

Depois de longas férias de dois dias.

E com uma surreal entrevista com o campeão do Mundo, Vicente del Bosque.

Feita logo após a final da Copa, na madrugada do domingo, no estádio Soccer City.

Na longa zona mista espanhola que terminou às duas da manhã.

Tudo começou bizarro.

O lateral esquerdo Capdevila apareceu com um balde na cabeça, uma cerveja na mão esquerda.

E na direita, a taça Fifa, de campeão do mundo.

E já bem animado por causa da euforia do título e da cerveja, pedia aos jornalistas para tocarem a taça.

Jogadores beijavam e eram beijados por jornalistas espanhóis.

Enquanto isso, sereno, com uma calma inacreditável, Vicente del Bosque surgia.

Impassível, ficou por uma hora e quinze minutos falando a vários jornalistas.

Decidi acompanhá-lo no longo trajeto de cerca de duzentos metros.

E, quando havia oportunidade, ia fazendo as minhas perguntas.

Ele respondeu com maior atenção a todas.

Vicente: o que muda no futebol espanhol com o primeiro título mundial?

A certeza que de os nossos jogadores precisam ser valorizados.

O futebol espanhol é um grande comprador.

Temos estrangeiros demais no país.

E acabamos não dando o valor necessário aos nossos atletas.

A geração que comandei nesta Copa é maravilhosa.

E fruto de um trabalho sério nas categorias de base.

Eles não se juntaram por acaso.

Foram escolhidos com muito critério.

A Espanha percebeu a sua necessidade de investir nos garotos para ter grande jogadores.

Houve muito critério e muita justiça na nossa conquista.

O título não veio do nada.

Não ganhamos hoje a Copa, ganhamos anos atrás quando demos estrutura aos meninos.

Os estrangeiros atrapalharam nestes anos sem títulos da Espanha?

Não falei isso.

Muito pelo contrário.

Eles ajudaram demais no desenvolvimento do nosso futebol.

E ainda ajudam.

Quem não quer ter os melhores do mundo jogando na sua casa?

Estou falando que muito se pensou nos clubes e a seleção espanhola acabou abandonada, sem planos.

Não adianta chamar os melhores jogadores e não ter uma base, um plano de trabalho.

A Espanha aprendeu a conviver com os estrangeiros e com sua seleção.

Por isso ganhamos o mundial.

Muita gente critica o nível técnico do Mundial. Você acha justo falar que a Copa foi ruim?

O que acontece é que poucas pessoas percebem que o futebol mudou.

Grandes jogadores não brilharam nesta Copa porque times inferiores não os deixaram jogar.

É preciso analisar com cuidado, perceber o quanto a estratégia e a parte física se tornaram importantes.

Um atleta talentoso sem espaço, entre duas linhas de quatro marcadores, pouco pode fazer.

Principalmente se ele não tiver companheiros à altura.

Por isso muitos jogadores não brilharam.

Não concordo que o nível tenha sido ruim.

Houve uma grande evolução do futebol competitivo, como conjunto.

Só os talentos individuais não foram suficientes para vencer.

Isso pode ser que não tenha agradado aos olhos de quem vê futebol.

Principalmente vocês, brasileiros.

Mas essa maneira de competir já acontece há anos.

Nós fomos campeões assim da Eurocopa.

A Espanha coloca os seus jogadores de talento em benefício do time.

Não o contrário.

O time não joga para os seus atletas de talento.

Você tocou em um assunto delicado para nós, brasileiros.

A seleção de Dunga foi uma decepção para você, por priorizar a marcação?

Não. E acho que vocês, jornalistas brasileiros, foram injustos com Dunga.

Ele conseguiu ganhar a Copa América e a Copa das Confederações.

O Brasil mudou a sua maneira de atuar e sei que não agradou à imprensa e à torcida brasileira.

Dunga modernizou a sua seleção.

Era muito difícil jogar com o Brasil marcando forte e tendo tanto talento.

A seleção brasileira teve tudo para eliminar a Holanda que decidiu o título conosco.

Só que desperdiçou a chance no primeiro tempo.

O futebol de hoje entre as principais seleções está muito equilibrado.

O Brasil perdeu a chance e no segundo tempo acabou eliminado.

Os brasileiros precisavam analisar com mais calma tudo o que passou.

Mas sei que vocês são como espanhóis: muitas vezes a emoção é mais forte do que a razão.

Há que se respeitar o trabalho do Dunga.

Qual a maior virtude da Espanha campeã do mundo?

Respeitar as características do time.

Nós temos uma filosofia de dominar a posse de bola.

Nossos jogadores são talentosos: Iniesta, Xavi, Xabi Alonso, David Villa, Sérgio Ramos...

Ficar com a bola, tocando com objetividade.

Respeitando a ofensividade do time.

Ter jogadores inteligentes e velozes.

E que se conhecem.

Temos uma defesa dura, forte.

Um grande goleiro.

Analisamos todos os adversários e sabíamos que tínhamos condições de vencê-los.

Sem euforia ou autoconfiança demasiadas.

A Espanha conseguiu formar mesmo o melhor grupo desta Copa.

A derrota diante da Suíça foi "boa" para, de alguma forma, a Espanha ser até mais séria?

Essa tese é absurda.

Eu ouvi muito isso de jornalistas espanhóis.

Não existe derrota boa durante a Copa do Mundo.

A competição é curtíssima.

A vitória suíça foi injusta. Perdemos muitos e muitos gols, mas poderia ter nos custado a eliminação.

O resultado me irrita até hoje.

Não poderíamos ter perdido aquela partida.

O efeito foi que depois dessa derrota tivemos de jogar ainda mais pressionados.

Por falar em pressão e gols, a Espanha foi uma seleção que marcou pouquíssimos gols.

Oito em sete partidas. (É um recorde negativo na história de todas as Copas. Média de 1,14 por jogo)

Foi mesmo um problema.

Nós criamos inúmeras chances para marcar.

Isso não pode nos abalar nem manchar nossa conquista porque tivemos sempre o controle do jogo.

Sempre, em todas as partidas.

Até na final, a Holanda mudou sua postura, ficou mais defensiva e agressiva por conta do nosso jogo.

Os gols foram poucos mesmo.

Mas o que me conforta como técnico é que foram decisivos.

E nunca a Espanha esteve subjulgada por nenhum adversário.

O que o senhor pode falar sobre o fracasso do artilheiro Fernando Torres.

E da violência da Holanda?

O Fernando se esforçou, fez o máximo pelo grupo.

Quando senti que o Pedro seria melhor para a Espanha, o troquei.

Uma situação normal no futebol.

Mas agradeço a postura leal com o grupo de Fernando.

Em relação  à Holanda, não quero falar de coisas desagradáveis.

Acabamos de ser campeões do mundo.

E o futuro da seleção espanhola e o seu?

A seleção espanhola conta com jogadores jovens.

Tenho a certeza de que essa geração ainda vai continuar junta por alguns anos.

Isso é ótimo para brigar por novas conquistas.

E quanto a mim, o meu compromisso acabou com a seleção espanhola.

Vamos ver se eles querem continuar comigo.

Eu quero ficar e tentar classificar a Espanha para a Europa.

Não será fácil... (responde rindo, e se afastando)

Chamo o treinador pela última vez.

E aí acontece a cena surreal, acompanhada por vários jornalistas brasileiros no Soccer City...

Homem, chega de perguntas...

Me deixa comemorar o título...

Fala em tom de brincadeira e me estica a mão, me cumprimentando.

Vicente, só quero agradecer o seu respeito.

E dizer que a vitória da Espanha fará bem para a seleção brasileira.

Tenho certeza que vamos nos preocupar de novo com o ataque e não com a defesa...

Bastou. Foi o suficiente para Vicente del Bosque se alegrar de vez.

E me deu um forte e surpreendente abraço.

Muito obrigado pelas suas palavras, amigo brasileiro.

Muito obrigado...

A Copa do Mundo da África havia acabado da forma mais inesperada e amistosa para este blogueiro...

Mas o clima de harmonia,união, fraternidade durou 30 segundos.

Foi o tempo de ouvir de um repórter brasileiro me confidenciar no ouvido.

"Te vi abraçado ao Vicente del Bosque, corri para ver o que era.

Quando alguém do futebol te abraça, só pode ser briga, Cosme..."

Desta vez, não era.

Desta vez...

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