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E se fosse ao contrário? Um boliviano de 17 anos da organizada do San Jose tivesse confessado matado um menino brasileiro, corintiano no Pacaembu? As desculpas, as coincidências seriam aceitas? A punição do San Jose seria anulada pela Conmebol?

Postado por Cosme Rímoli em 25 de fevereiro de 2013 às 11:01 em Sem categoria | 185 Comments

a115 E se fosse ao contrário? Um boliviano de 17 anos da organizada do San Jose tivesse confessado matado um menino brasileiro, corintiano no Pacaembu? As desculpas, as coincidências seriam aceitas? A punição do San Jose seria anulada pela Conmebol? [1]
"E se fosse ao contrário?"

Corinthians e San Jose jogam no Pacaembu.

É a primeira partida da Libertadores.

O adversário andino é campeão do mundo, recheado de estrelas.

Prevê faturar R$ 330 milhões em 2013.

A Bolívia, pentacampeã do mundo, tem força demais na Conmebol.

O Pacaembu está lotado.

Aos cinco minutos do primeiro tempo, o time boliviano faz 1 a 0.

Da pequena torcida, cerca de 200 membros, vários sinalizadores são disparados.

Um deles atinge um menino brasileiro de 14 anos.

O artefato lançado entra no olho direito e esfacela o cérebro do menino.

A 360 quilômetros por hora.

O menino tinha saído escondido dos pais.

Viajado, digamos de Jaú, terra do presidente do Corinthians.

E estivesse realizando o sonho de ver seu time no estádio.

Sua felicidade que durou cinco minutos, até cair morto.

Como a torcida do San Jose levantava uma bandeira enorme, a polícia paulista não viu.

Não sabe quem lançou o sinalizador.

Há sérias dúvidas.

As imagens da tevê são distorcidas.

Mas o menino de Jaú está lá, morto, com a cabeça ensanguentada na arquibancada.

Os outros corintianos ao seu redor clamam desesperados por ajuda.

Torcedores se revoltam com a pavorosa morte.

Muitos choram.

Em poucos minutos, começam a gritar "Assassinos. Assassinos."

Logo repórteres de rádio descobrem o que aconteceu e divulgam.

O Pacaembu inteiro faz o coro de 'Assassinos' para os bolivianos.

A Polícia tem de dar uma resposta e prende 12 membros das organizadas do San Jose.

Entre eles, vários torcedores importantes para a torcida, com cargos inclusive.

Porque nas organizadas existe hierarquia.

Há uma comoção não só na América do Sul.

O mundo todo repele a selvageria dos bolivianos.

A Conmebol acorda da letargia e pune preventivamente o San Jose.

Terá de atuar sem seus torcedores em casa e mesmo jogando fora.

O prejuízo do clube colombiano chegaria a R$ 15 milhões.

Em 2011 foi campeão da Libertadores.

Essa seria a quantia se o clube chegasse até a disputa do título novamente.

Algo que sua diretoria apostava, tanto que gastou cerca de R$ 50 milhões em reforços.

Ninguém na América Latina gastou nem perto dessa quantia.

Além de não ter vendido nenhum titular campeão mundial.

Sim, os bolivianos são campeões mundiais.

Diante dessa pressão, o presidente do San Jose convoca uma coletiva.

Delegado, ele diz que não aceita a punição.

Seu clube não tem ligação alguma com as suas torcidas organizadas.

Esquece que o presidente a quem sucede foi fundador da, digamos, Pavillon Nueve de Oruro.

Ele é seu mentor e ídolo.

Conseguiu um estádio de um bilhão de reais ao centenário clube.

Graças à suas ligações com políticos.

E este estádio vai abrir a Copa do Mundo na Bolívia.

Em relação ao menino morto violentamente, o presidente é direto.

Diz de maneira fria o que pensa.

"Acidente acontece."

Enquanto isso aqui no Brasil, a opinião pública está revoltada.

E exige punição imediata para os vândalos que mataram o garoto.

A Policia apresenta rapidamente os resultados de sua investigação.

Dois membros das organizadas são apresentados como aqueles que dispararam o artefato.

Tinham pólvora nas mãos.

Podem pegar até 30 anos de prisão.

Os dez demais são indiciados como cúmplices.

Estava tudo certo.

Mas uma notícia bombástica vaza em Oruro.

No sábado à tarde o advogado da principal organizada do San Jose avisa.

Chama a Folha de Oruro e a emissora Planeta.

Antecipa ao jornal que apresentará o verdadeiro autor do sinalizador.

Ele é menor, não pode ser extraditado ao Brasil.

Sua punição deverá ser prestar serviços comunitários.

Ao mesmo tempo, os 12 torcedores das organizadas do San Jose devem ser liberados do Brasil.

A entrevista será dada à TV Planeta, no domingo.

A Planeta tem a exclusividade do futebol [2] na Bolívia desde a época da ditadura.

O San Jose é a sua grande aposta, o clube que lhe dá maior audiência.

A quem paga mais para mostrar seus jogos.

Assim garante dinheiro para reforçar a equipe com novas estrelas.

E assegurar mais gente interessada em vê-lo jogar.

No ano passado, foi o clube quem obteve os maiores índices no futebol.

Mais do que a Bolívia pentacampeã do mundo.

Seria péssimo do lado mercadológico o San Jose fora da Libertadores.

Terrível para os patrocinadores que gastam mais de um bilhão de reais com o futebol.

Na entrevista da TV Planeta, ao lado da mãe, o menor confessa.

Está de costas, só é possível enxergar o blusão da organizada.

Ele é de família muito humilde.

Mesmo assim viajou para o Brasil no primeiro jogo da Libertadores.

Tinha seis sinalizadores na bagagem.

Diz que disparou um deles na hora do gol.

E se confundiu.

E foi direto à torcida corintiana.

Matou o menino de 14 anos.

O torcedor do San Jose ouviu os gritos de 'assassinos' no Pacaembu.

E perguntou a um policial o que havia acontecido.

O soldado da Rota disse que estava tudo bem.

Mas ao sair do Pacaembu, soube que havia matado um torcedor corintiano.

reproducaoglobo E se fosse ao contrário? Um boliviano de 17 anos da organizada do San Jose tivesse confessado matado um menino brasileiro, corintiano no Pacaembu? As desculpas, as coincidências seriam aceitas? A punição do San Jose seria anulada pela Conmebol? [3]

Disse a torcedores da organizada boliviana que iria se entregar.

Mas lembraram que estava no Brasil.

Era melhor confessar na Bolívia.

Os torcedores foram muito solidários.

Deixaram o garoto, insignificante na hierarquia da torcida, torcida ir embora.

Entrar no ônibus.

Mesmo sabendo que 12 torcedores inocentes ficavam presos em São Paulo.

Vários com cargos importantes na torcida.

Solidariedade estranha dessas organizadas.

O menor fala com uma desenvoltura de quem pensou muito no que iria declarar.

A entrevista é divulgada nacionalmente na Bolívia no domingo.

Assim como no domingo o presidente do San Jose diz que não abandonará a Libertadores.

Mostra em uma camiseta com a manga arriada, deixando exposta uma fitinha preta.

Está ao lado de um padre.

O efeito dramático é evidente.

A ideia é mostrar o luto em solidariedade ao garoto brasileiro.

Fotógrafos registram, claro, a cena.

Seu clube declarou luto por sete dias pela morte do menino.

Notícia divulgada nacionalmente.

O San Jose jogava uma partida de inexpressivo torneio local.

Suas organizadas esticavam uma faixa para ser vista.

"Menino brasileiro, fica em paz".

 E se fosse ao contrário? Um boliviano de 17 anos da organizada do San Jose tivesse confessado matado um menino brasileiro, corintiano no Pacaembu? As desculpas, as coincidências seriam aceitas? A punição do San Jose seria anulada pela Conmebol? [4]

Tudo no domingo.

Ontem foi um dia muito importante para essas manifestações.

Porque hoje, nesta segunda-feira, a Conmebol divulgará se manterá a punição.

O dia fundamental para o San Jose fazer pressão é o anterior à decisão.

O advogado da organizada do clube diz que entregará o autor do disparo hoje às autoridades.

Tudo se encaixa de uma maneira mágica.

Foi um garoto boliviano que matou o menino brasileiro.

Ele não pode ser extraditado para o Brasil.

E na Bolívia deverá se submeter a serviços comunitários.

Ficar sob a guarda de sua mãe, muito provavelmente.

A 'vida não acabou' como declarou à tevê Planeta.

Longe disso.

Seus problemas com a justiça deverão levar no máximo três anos.

Aos 20 estará livre.

E com muita moral na organizada que ama.

Suas palavras podem ser suficientes para livrar os 12 torcedores presos no Brasil.

Além de poder atenuar a pena imposta pela Conmebol ao San Jose.

Livrar seu time do coração de enorme prejuízo.

Deu a desculpa que pode abalar com a covarde entidade.

Há agora motivo para a punição ser revertida, atenuada.

Indiretamente seria ótimo para a TV Planeta.

Ela teria o clube de maior audiência ao lado de apaixonada torcida.

Com muito mais chance de ser bicampeão da Libertadores.

Disputar o Mundial de novo no final do ano.

E dar outra vez grandes índices de audiência.

Por mera coincidência, lógico...

Os influenciáveis dirigentes da Conmebol podem mudar de opinião.

A confissão foi perfeita para isso.

Proibir a torcida em um, dois ou até três partidas, acredita gente importante do San Jose.

Mas não para o resto da competição, como havia prometido.

Bastaram as palavras de um garoto de 17 anos.

A Folha de Oruro dá hoje manchete interessante no seu caderno de Esportes [5].

"Queria buscar espaço na torcida, diz menor."

Se refere ao menor autor do disparo do sinalizador.

Se ele queria, conseguiu, depois de sua confissão.

A segunda-feira tem tudo para ser um dia feliz para o time boliviano.

E mesmo na cadeia onde estão presos os 12 bolivianos.

Os três advogados que tentam a sua liberação estão animadíssimos.

Sim, são três advogados trabalhando pelos membros da organizada.

A opinião pública brasileira está estarrecida, chocada.

Até revoltada.

Já soube o que aconteceu no último domingo.

Da oportuna confissão do garoto de 17 anos.

Da movimentação do San Jose para se livrar da punição.

Com direito até a envolvimento do presidente da Federação Boliviana de Futebol.

Um grande apreciador de medalhas, ex-governador biônico de Oruro.

Por coincidência, mesmo estado do San Jose.

Animação na Bolívia.

Espanto no Brasil.

Só em um local nada muda.

Na casa do menino de 14 anos morto na quarta-feira.

Onde suas fotos com a camisa do clube amado espalhadas pela casa.

O sentimento é o vazio, a dor profunda dos pais.

E a certeza: de que ele morreu por nada.

Mesmo se tudo for verdade, seria péssimo estar do outro lado.

Ser boliviano e ver o que acontece no Brasil.

Tudo o que o Corinthians está fazendo para se livrar de punições.

Mesmo com o regulamento da Conmebol responsabilizando os clubes por suas torcidas.

Como acontece em todo mundo civilizado.

Quanto à confissão do garoto à TV Globo.

Provoca espanto tanta coincidência.

Com muitos torcedores soltando sinalizadores...

Justo o de um menor, que não pode ser extraditado, matar Kevin Beltrán.

A confissão que pode ter força para libertar 12 membros de torcidas organizadas.

Inclusive àquela que o menor pertence.

Se coloque no lugar dos pais do menino morto.

Para sentir de verdade, traga a realidade para o nosso país.

Se em Jaú estivesse enterrado um garoto de 14 anos?

Cuja cabeça tivesse sido estraçalhada por um sinalizador?

Vindo da torcida organizada do San José.

Só que, em vez dos 12 presos pela polícia brasileira...

Um menor boliviano confesse ter matado o menino.

E que por ter 17 anos não pode ser extraditado?

Vai ficar por Oruro mesmo.

A Polícia agora passasse a ser pressionada a libertar os bolivianos?

Qual seria o sentimento no Brasil?

Se tudo fosse ao contrário?

Como não é, só resta uma coisa a fazer como bom brasileiro.

Colocar a mão no peito e gritar.

Vai, Corinthians!

Sem parar para pensar.

Sem questionar.

Fazendo até melhor: esquecer de Kevin Beltrán.

E só pensar na Libertadores.

Se preparando para pagar até R$ 500,00 pelo ingresso no Pacaembu.

Exatamente como muita gente poderosa quer...
reproducaolapatria E se fosse ao contrário? Um boliviano de 17 anos da organizada do San Jose tivesse confessado matado um menino brasileiro, corintiano no Pacaembu? As desculpas, as coincidências seriam aceitas? A punição do San Jose seria anulada pela Conmebol? [6]

(Vários leitores me alertaram.

O menor que confessou o crime se esqueceu de dizer na TV.

Não falou que saiu correndo após o disparo do sinalizador.

Sinalizador que comprou na 25 de Março.

Lugar marcado pela venda de sinalizadores em todas as esquinas.

Mas as imagens da tevê boliviana são claras.

Mostram a vontade de se esconder da polícia.

De quem fez o disparo que matou Kevin.

Deve ter sido mero esquecimento, claro...)


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