1reproducao Drone, filmando treinos dos rivais, leva o Grêmio à final da Libertadores. E só esperteza? É imoral
"O mundo é dos espertos."

Renato Gaúcho quis ironizar uma situação, que ele sabe, tirou o brilho da excelente campanha do Grêmio na Libertadores. A chegada à final, deixar para trás Guarani do Paraguai, Zamora, Deportes Iquique, Godoy Cruz, Botafogo, Barcelona de Guayaquil, não pode ser encarada da mesma forma de dois dias atrás. Até mesmo o primeiro jogo da decisão, hoje, em Porto Alegre, contra o surpreendente Lanús.

Em um país que sofre com a desmoralização diária dos seus políticos, da desonestidade de pessoas que deveriam organizar um país tão cheio de desigualdades, a atitude da direção do Grêmio, que Renato Gaúcho tomou para si, é, no mínimo, decepcionante.

A ESPN/Brasil apurou que, há pelo menos cinco meses, o Grêmio vem desvendando segredos dos adversários com o uso de drones. Treinos fechados são burlados com câmeras que do alto filmam, registram, gravam a movimentação dos times, a dinâmica do jogo, os atletas que entrarão em campo, as jogadas ensaiadas, os cantos onde são cobrados os pênaltis. Segredos que pesam e que podem definir partidas, decisões, campeonatos.

"Eu pergunto como faz para ganhar uma guerra? Como se neutralizam as jogadas do adversário? Usando suas formas, com drone, helicóptero, avião, jato, a cavalo, de bicicleta. O mundo é dos espertos.

"Semana passada, eu vi que a Austrália usou drones para espionar a seleção de Honduras. O nosso presidente me mostrou que o Palmeiras ou o São Paulo, em 2015, fez a mesma coisa. Queria falar da ESPN, do Juca Kfouri, que é um jornalista que eu admiro. Ele disse e eu concordo com ele: espionagem no futebol já existe há muito tempo, desde que eu comecei no futebol. Todo time brasileiro tem um espião. Todo. A seleção brasileira tem um espião.

"Se o Lanús tivesse usado drones para acompanhar os meus treinos fechados, eu ia bater palmas para a inteligência deles. Muitas [palmas] se o Lanús soubesse usar de informações obtidas através de espionagem. Será que um drone, não estou assumindo que usamos, mas será que isso vai fazer um jogador jogar mais ou menos por causa de um drone? Quando perdemos, foi culpa do drone? Este tal de drone, meu Deus do céu.

"Acho que deviam usar o drone para seguir a mulher, o marido, aí iam ver como esse cara é esperto. Não precisa de um drone para um time jogar mais ou menos."

A fria análise do que Renato Gaúcho fez é necessária. Primeiro ele mostrou coragem de assumir o que a diretoria gremista jurou não ter acontecido.

"O Grêmio não usou esse expediente. Não passou por mim ou pelo jurídico nenhuma contratação de drones ou pessoas que utilizam. O Grêmio não é departamento de drones ou pandorgas. É uma bobagem. A jornalista (Gabriela Moreira) diz que está há quatro meses atrás do espião. Vê um fato grave como esse e espera 48 horas antes da final para divulgar. Ela tem o direito de divulgar. Mas, por favor, sempre antes de um jogo importante, uma merda como essa?", desabafava o diretor jurídico Nestor Hein.

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Já chamou a atenção nas inúmeras negativas do dirigente, ele não sequer citar a possibilidade de processar a ESPN/Brasil ou, no mínimo, a repórter. Porque se alguém inventa mentiras para abalar o elenco, motivar o adversário, às vésperas de uma final de Libertadores, tem de responder na justiça por seu ato.

Renato Gaúcho foi muito astuto e corajoso. Tomou para si a contratação do 'piloto do drone' e poupou a 'instituição', como gosta tanto de falar. Ele é o maior ídolo da história gremista. Ele colocou seu peito à frente de uma decisão que qualquer pessoa, com neurônios, sabe. A filmagem só poderia acontecer com o conhecimento e liberação dos dirigentes. Especialista em lidar com jornalistas há décadas, ele usou todo seu carisma na coletiva, encarou quem teve a coragem de perguntar sobre o drone. E ninguém ousou, na sua frente, questionar suas respostas.

Em 2008, Renato Gaúcho teve a mais amarga das suas várias derrotas como treinador. Franco favorito, seu Fluminense decidiu o título da Libertadores no Maracanã, contra os equatorianos da LDU. A conquista escapou pelos dedos, nas cobranças de pênaltis.

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É lógico que aquela sensação o acompanha como um fantasma. A melhor maneira de exorcizá-la é conquistando a Libertadores. E, de preferência, o Mundial. A partir daí, ele se liberou. Aceitando o ditado vergonhoso que explica muito a situação dos políticos deste país.

Se "o mundo é dos espertos", vale tudo para a conquista do que se pretende. Renato Gaúcho teria pedido o 'melhor espião' no mercado. Com capacidade para filmar treinos fechados dos adversários. Não importava como. Seu auxiliar, Alexandre Mendes, soube que Andre Banchi seria seu homem ideal. Ele não é apenas 'piloto de drones'. Mas especialista em câmeras e câmeras que captam imagens de longa distância. Ele nasceu em Campinas, tentou trabalhar no departamento de análises da Ponte Preta. Recusado, partiu para a espionagem.

Ficou próximo de Ramon Diaz, quando comandava o River Plate, depois trabalhou com ele na Seleção Paraguaia. Desde então, passou a fazer serviços esporádicos. Jornalistas esportivos já haviam ouvido falar de seus serviços. O que é realmente comum. A novidade foi o drone, para burlar treinamentos secretos dos adversários. O argentino naturalizado paraguaio Lucas Barrios o indicou para Alexandre Mendes.

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"Eu tenho meus espiões também, não vou dizer mas também tenho meus espiões (risos). Não acho que seja determinante isso, muito menos numa final. Se eu posso ter a possibilidade de ver o meu rival trabalhando antes de uma partida, se tem alguma jogada ensaiada, algo preparado, se tem imagens do dia anterior, sim, me serve", admitiu o treinador do Lanús, Jorge Almirón, mostrando naturalidade.

Ou seja, a existência dos espiões é algo que existe no futebol há décadas. Mas estão quebradas todas as barreiras da ética. Os times não têm o direito de fazer um treino fechado. Ensaiar suas jogadas, seus pênaltis, suas escalações. É aceito um clube adversário pagar um 'piloto de drone' para registrar toda sua preparação.

Constrangedor, antiético, mas real.

O mundo é mesmo "dos espertos", Renato Gaúcho.

Uma pena, que para exorcizar 2008, você tenha apelado.

Filmar treinos secretos dos rivais não é só esperteza.

É imoral...
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