1ae21 Depois do segundo ataque de diverticulite e arritmia cardíaca, a direção do São Paulo decidiu. Muricy terá de se submeter a exames médicos constantemente. Que vire moda no futebol brasileiro...
E se em vez do torneio de Manaus, o São Paulo estivesse disputando ontem a final da Libertadores? Do Mundial de Clubes? Com o auxiliar Milton Cruz à frente do time. Enquanto Muricy Ramalho estivesse internado em um hospital? Quanto dinheiro o clube não estaria arriscado a perder? Fora toda a importância de um grande título?

Não parece, mas no dia 30 de novembro, Muricy completará 60 anos. Está milionário. Soube guardar os seus lautos salários que recebe desde 2004, quando passou pelo Internacional. São 11 anos sempre recebendo centenas de milhares de reais todos os meses. Embora tenha sido um ótimo jogador, não conseguiu ganhar nem um quinto do que recebe hoje.

Até os seus netos que um dia virão já terão a vida tranquila. Graças ao trabalho árduo, competente do futuro avô. Sua esposa e filhos sabem muito bem disso. Não há a necessidade de passar tanto stress todos os dias. Nem de ficar viajando constantemente. E ficar se alimentando nos hotéis e aviões. Nos horários que der. E quando houver a chance.

Fora as noites insones, movidas pela adrenalina do jogo. Ou da ansiedade da decisão. "Quando o São Paulo joga à noite é um tormento. Só costumo relaxar e dormir lá pelas quatro, cinco da manhã", já confessou. Para desespero dos médicos, muitas vezes o treinador janta na madrugada.

Muricy teve problemas sérios nos joelhos na carreira de 11 anos. As contusões apressaram o fim de sua carreira. Nascido como jogador no São Paulo, passou pelo Puebla do México. Poucas pessoas sabem, mas parou no futebol no América do Rio. Era um excelente meia. E foi injustiçado. Se contundiu em 1977. Se recuperou a tempo, mas acabou desprezado por Cláudio Coutinho e não disputou a Copa de 1978, na Argentina.

Foi esquecer a mágoa no México. Foram longos seis anos no Puebla. Até que a volta para pouquíssimas partidas no América do Rio, para encerrar a carreira por causa das contusões. Nove anos depois, resolveu ser treinador. E novamente os mexicanos lhe estenderam as mãos. Trabalhando com técnico desde 1993, ele já fez 18 trocas de clubes.

Mas sua identificação é com o São Paulo. É sua terceira passagem, atingindo sete anos como treinador. E mais seis como jogador. São 13 anos, sem contar a base.

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Em 2013, havia enorme apreensão com a chance real de rebaixamento no Brasileiro. Ele chegou, apesar da resistência do então vice-presidente Carlos Augusto Barros e Silva, e salvou o time. Evitou esse vexame para Juvenal Juvêncio. O presidente, já com câncer de próstata, queria saber como estava a saúde de Muricy.

Em 2011, ele teve um grave problema de hérnia de disco. Em 2013, foi internado com diverticulite, inchaço nos intestinos. O técnico respondeu que tudo estava bem. Mas chegou outubro de 2014 e sofreu uma fortíssima arritmia cardíaca que o obrigou uma nova internação.

Jurou que mudaria seus hábitos. Emagreceria, faria caminhadas e, principalmente, ficaria mais calmo à beira do gramado. Apesar da preocupação da família, Muricy disse que não iria abandonar a carreira. Não ficaria em casa sem fazer nada, de jeito algum.

Três meses depois, novas dores abdominais. Na última quinta-feira, as conhecidas dores indicavam o caminho de volta ao hospital São Luiz no Morumbi. Sim, a diverticulite estava de volta. Ficou quatro dias internado. Enquanto o São Paulo perdia o torneio de preparação para 2015 em Manaus.

O treinador acaba de ser liberado e voltará a trabalhar amanhã. Novamente, ele prometeu que mudará ainda mais os seus hábitos alimentares. Procurará dormir mais cedo. Relaxará mais.

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Só que há uma preocupação real no São Paulo e na própria família do técnico. 2015 é um ano muito importante para a administração Carlos Miguel Aidar. O clube está sem patrocínio master. Tem dívidas altas. Precisa fazer uma grande campanha na Libertadores. Conquistar títulos. O futebol precisa ser a válvula de escape de uma batalha cruel entre Aidar e Juvenal Juvêncio.

Tudo o que o São Paulo não pode é perder seu treinador nas horas decisivas dos torneios que terá pela frente. Não pode depender apenas da boa vontade ou não de Muricy em levar uma vida saudável. Muricy passará a ter um acompanhamento diário dos médicos do clube.

Terá de fazer exames periódicos para que sua saúde esteja sempre bem. É uma medida excelente. Tomada por acaso, mas que deveria se espalhar pelos clubes brasileiros. Os treinadores são submetidos a uma rotina estressante, de muita pressão psicológica pela vitória. A iminente demissão é uma rotina diária.

Ao contrário dos jogadores que são submetidos a exames constantes, o treinadores são esquecidos, deixados de lado. O que chega a ser um erro infantil. O caso que mais chama a atenção foram os dois Acidentes Vasculares Cerebrais de Ricardo Gomes.

No dia 6 de agosto de 2010, o São Paulo perdeu do Palmeiras por 2 a 0. Ricardo era o técnico. Ele sofreu um pequeno AVC naquela partida. Se recuperou prontamente. Os médicos recomendaram cautela. Mas ele voltou a trabalhar normalmente. No dia 24 de agosto de 2011, ele sofreu um AVC gravíssimo, hemorrágico. Estava comandando o Vasco contra o Flamengo. Durante a partida, o seu lado esquerdo ficou paralisado. E perdeu a condição de falar normalmente.

Saiu do banco de reservas direto para o hospital. Correu sério risco de morte. Mesmo assim queria voltar a trabalhar como técnico. Foi proibido pelos médicos. Assumiu o cargo de diretor técnico vascaíno. Até sair em fevereiro do ano passado. Desde então não voltou a trabalhar no futebol.

Muricy acompanhou todo o caso de perto. Falou com Ricardo Gomes. Ficou muito preocupado. Já havia lembrado de Telê Santana. Seu mestre no futebol sofreu uma isquemia cerebral em 1996. Teve de abandonar o futebol. Em 1997, tentou voltar ao cargo, no Palmeiras. Não conseguiu.

Muricy jurou que não iria repetir o erro de Telê. Que, segundo ele, não viveu. Não aproveitou a vida ao lado da família. Só trabalhou até não poder mais. Jurou que teria nova vida já no primeiro ataque da diverticulite, no Santos, em 2013.

A direção do São Paulo tomará uma decisão acertada. Um homem a caminho dos 60 anos, com a responsabilidade de dezenas de milhões nas mãos e a terceira maior torcida do país, com quase 14 milhões de são paulinos, tem de ser cuidado. Queira ou não, Muricy terá de fazer exames preventivos. Que a moda se espalhe. Até que enfim, os dirigentes perceberam a carga sobre-humana que os treinadores suportam neste país. E, infelizmente, não são máquinas...
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