133 Delações forçam a Fifa a agir. Del Nero suspenso da CBF e a caminho do banimento do futebol
Acabou para Marco Polo del Nero?

Essa é a pergunta que domina o milionário prédio na avenida Luis Carlos Preste, na Barra da Tijuca.

Na sede da CBF, a notícia caiu como uma bomba.

O Comitê de Ética da Fifa finalmente acordou. Foram tantas denúncias e acusações indefensáveis no julgamento do ex-presidente José Maria Marin, que não houve como o suíco/italiano Gianni Infantino seguir se fingindo de morto. Seguindo sua determinação, o Comitê de Ética da Fifa suspendeu o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, por 90 dias. Essa suspensão pode ser aumentada por mais 45 dias.

Nesse período, o Comitê de Ética poderá banir Marco Polo del Nero do futebol. E ele não poderá exercer qualquer cargo envolvendo o futebol profissional. Com a atual suspensão, ele já está oficialmente afastado do cargo de presidente da CBF. O vice mais velho e presidente da Federação do Pará, o coronel Antônio Carlos Nunes, assume a partir de hoje o lugar que era de Del Nero.

O que levou à suspensão foram os depoimentos de Marin e de várias testemunhas no julgamento do ex-presidente da CBF nos Estados Unidos. O ex-dono da Traffic, Jota Hawilla e do ex CEO da empresa Torneos y Competências, o argentino Alejandro Burzaco, que tinham direitos de competições, acusaram Del Nero não só de receber subornos por contratos. Mas de ser muito mais culpado que o próprio Marin, que agiria como um subalterno seu, de acordo com os testemunhos.

Os promotores norte-americanos garantem que o dirigente ganhou US$ 6,5 milhões (R$ 21 milhões na cotação atual) em propinas.

"Marin sempre foi visto como um interino. Todos esperavam que Marco Polo Del Nero fosse o presidente após a saída de Ricardo Teixeira, mas ele ainda não pôde assumir em 2012. Então, embora Marin tivesse o papel de presidente, ele não estava no Comitê Executivo da Fifa. Essa posição era ocupada por Del Nero.

"Marin sempre estava com Del Nero. Era sempre Del Nero quem tomava as decisões. Marin estava fora, estava à margem. Por isso peço que vocês voltem até a analogia que fiz: Marin era alguém que só completava o time. Peço que vocês realmente tenham isso em mente: Marin era só um interino."

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Estas foram declarações de Charles Stillman, advogado principal de Marin no julgamento.

"Era como uma monarquia. A voz por trás das decisões centrais era do Marco Polo Del Nero, mas os discursos eram feitos por José Maria Marin. Ele era o rei, e Marco Polo Del Nero era o presidente que conduzia as coisas.

No contexto do Conmebol, os dois eram como irmão siameses, pois sempre apareciam juntos. Mas o Del Nero era quem tomava as decisões", reiterou, diversas vezes, Alejandro Burzaco.

Vale a pena ler detalhes das conversas envolvendo Marco Polo e as propinas. As gravações acabaram sendo divulgadas nos julgamento dos Estados Unidos. Eram pesadas demais. A Fifa não poderia seguir com os braços cruzados.

Como publicou a Folha.

"Nas conversas mais explícitas sobre negociação de pagamentos de propina reveladas no julgamento do escândalo de corrupção da Fifa, J. Hawilla, o dono da Traffic, e Kleber Leite, ex-presidente do Flamengo e dono da Klefer, discutem em tom carinhoso supostos pagamentos a uma série de cartolas. Eles se chamam de Jotinha e Klebinho quando iniciam o diálogo.

"Era R$ 500 mil pro Ricardo [Teixeira], R$ 500 mil pro Marco Polo [Del Nero] e R$ 500 mil pro [José Maria] Marin", diz J. Hawilla, o Jotinha, a Leite, o Klebinho, lembrando um acordo que eles fizeram de pagar R$ 1,5 milhão relativos à compra de direitos comerciais da Copa do Brasil.

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"Leite, em tom preocupado, discorda dos valores, dizendo que eram R$ 2 milhões, alegando ter feito "uma equação para incluir mais gente" e manter seu "compromisso moral" de continuar fazendo as remessas para Ricardo Teixeira mesmo depois que o cartola havia renunciado à presidência da CBF, em 2012.

"O contrato firmado pela Traffic e pela Klefer com a CBF foi negociado quando Teixeira ainda estava no comando da organização que regula o futebol brasileiro. Ele acertava a contrato de cessão dos direitos de transmissão das Copas do Brasil de 2013 a 2022 para as empresas.

"Quando Teixeira foi substituído no cargo por José Maria Marin, ex-presidente da CBF que está sendo julgado agora em Nova York, e Marco Polo Del Nero assumiu as funções de Teixeira na Fifa e na Conmebol, a propina das empresas de J. Hawilla e Leite passou a ser compartilhada pelos três."

Quando houve a devassa da cúpula da Fifa, com a prisão de oito dirigentes, em um congresso, em Zurique, em maio de 2015, Marco Polo Del Nero não quis nem saber, se entre os presos estava José Maria Marin. Ele embarcou o mais rápido possível para o Brasil.

E desde então, nunca mais saiu do país. Marco Polo Del Nero é acusado nos EUA de conspiração, lavagem de dinheiro e fraude eletrônica por propinas em contratos da CBF relacionados à Copa do Brasil, Copa América e Libertadores. Só será preso se for aos EUA ou a um país com o qual os americanos tenham acordo de extradição.

No país, apesar de todas as denúncias, o Ministério Público e a Polícia Federal nunca fizeram uma investigação mais profunda sobre as ações de Marco Polo del Nero. A suspeita maior é que a bancada da bola, políticos de Brasília, parceiros de Del Nero, sempre impediu o andamento das investigações.

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Del Nero, no entanto, não poderia fazer nada se o Comitê de Ética da Fifa resolvesse agir. Desde 2015, ele vinha sendo investigado. A desculpa para a lentidão na tomada de decisão era que a Fifa não tinha acesso às provas que o FBI e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos conseguiram.

Dois anos presos fizeram que Marin resolvesse delatar o amigo. Há relatos que ele esperava auxílio financeiro de Del Nero. E eles nunca chegaram. O que obrigou o ex-governador biônico de São Paulo a vender parte de seus bens. Só para manter sua prisão domiciliar.

Com raiva de Marco Polo, resolveu revelar todo seu envolvimento no esquema de propinas.

Diante da desmoralização pública do presidente da CBF, no julgamento de Marin, não houve saída diplomática para a Fifa.

Infantino decidiu agir.

E a suspensão é o primeiro passo do banimento.

As delações são de todos os lados.

É quase impossível Del Nero seguir no comando da CBF.

Ele mesmo sabe que é o caminho do fim.

Sua única saída digna seria a renúncia.

O que tinha de aproveitar, já aproveitou...
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