Publicado em 12/03/2013 às 10h20
Corinthians busca aliados poderosos para guerra nos bastidores. Os alvos: a liberação de R$ 820 milhões para o Itaquerão. E o confronto na Justiça, que travou de vez o patrocínio de R$ 31 milhões da Caixa Econômica à camisa do time…

O prestígio de campeão do mundo não tem valido.
Pelo menos para a Justiça brasileira e ao BNDES.
O Corinthians sofreu uma derrota sem precedentes ontem.
A diretoria tinha certeza que a Justiça acataria recurso da Caixa.
E a estatal voltaria a pagar os R$ 31 milhões anuais de patrocínio da camisa.
Sim, são 31 milhões e não R$ 30 milhões como eram divulgados no Parque São Jorge.
O recurso foi travado desde que o advogado Antônio Beiriz entrou com uma ação popular.
Ele pediu o fim do pagamento, já que a Caixa é uma estatal.
E estaria indo até contra a Constituição para ajudar o Corinthians.
O advogado foi além.
A Caixa é uma empresa pública vinculada ao Ministério da Fazenda.
E estaria gastando com publicidade inócua e destituída de caráter informativo.
A decisão estaria em desacordo com o art. 37 da Constituição Federal.
O artigo determina princípios e regras norteadoras das escolhas do gestor público.
Ou seja, a Caixa Econômica Federal não precisa fazer publicidade.
Muito menos privilegiar um clube.
A tese foi acatada pelo juiz Altair Antonio Gregório.
Ele é da 6ª Vara do Tribunal Regional Federal do Rio Grande do Sul.
Gregório determinou a suspensão do pagamento do patrocínio.
A liminar travou o dinheiro no dia 28 de fevereiro.
Foi um golpe no departamento jurídico da Caixa.
E na diretoria corintiana.
A decisão foi, mesmo sem dinheiro, manter o time jogando com o logotipo da Caixa.
O departamento jurídico da estatal resolveu agir.
E de maneira fulminante entrou com um recurso para liberar o pagamento ao clube.
Ele foi julgado ontem.
Nova derrota da Caixa e do Corinthians.
O desembargador federal Cândido Alfredo Silva Leal Júnior foi firme.
E até irônico na decisão.
Ele entendeu que outros clubes que não têm "tão generoso” patrocínio acabarão prejudicados.
Pelo desequilíbrio que provoca a intervenção da empresa pública federal no mercado de publicidade futebolística.
"Já que os R$ 31 milhões irrigarão apenas os cofres do Corinthians, e não alcançarão os demais times."
Sua análise foi mais profunda.
"Existiam outros meios menos arriscados de patrocínio esportivo pela Caixa que não afrontassem tanto o princípio da impessoalidade, como prometer R$ 31 milhões apenas para o clube de futebol profissional mais rico do Brasil."
Ou seja, ele entendeu que ou a Caixa paga a todos os clubes ou a nenhum.
Principalmente o Corinthians, que no seu entender é o mais rico do Brasil.
A decisão do desembargador confirma a proibição do dinheiro continuar a ser pago ao Corinthians.
Ainda haverá o julgamento do mérito pela 4ª Turma da Corte.
Mas sem previsão quando acontecerá.
É possível que levem semanas ou até meses.
Tanto a Caixa como o Corinthians esperavam derrubar a ação popular ontem.
A decisão do presidente Mario Gobbi é esperar.
E manter o time jogando com o mesmo uniforme.
Como se nada estivesse acontecendo.
Quanto ao problema com o BNDES, também é grave.
A pressão é da Odebrecht.
Ela aceitou construir o Itaquerão para o Corinthians.
Sabia que a Prefeitura de São Paulo ofereceria R$ 420 milhões em incentivos fiscais.
Mais o BNDES emprestaria R$ 400 milhões ao Corinthians.
O custo do estádio chegaria a R$ 820 milhões.
Não contabilizados gastos de acabamento.
Somados, fazem do Itaquerão um estádio de um bilhão de reais.
Mas para a Odebrecht interessam os R$ 820 milhões.
Com a certeza que o dinheiro viria, a construtora fez empréstimos para começar a obra.
Pegou R$ 150 milhões do Banco do Brasil.
E mais R$ 100 milhões do Santander.
As obras foram iniciadas a todo vapor.
Com três turnos de trabalho.
A Fifa foi avisada que não poderia contar com São Paulo para a Copa das Confederações.
O Itaquerão ficaria só para a Copa do Mundo, em 2014.
O estádio já está cerca de 60% concluído.
Só que o dinheiro do BNDES e da prefeitura não chegou.
O Corinthians com problemas fiscais e dívidas não conseguiu os R$ 400 milhões do BNDES.
O banco não aceitou as garantias de pagamento oferecidas pelo clube.
Há um impasse que dura cerca de um ano.
A situação está mesmo complicada.
A Odebrecht não quer tomar mais esses R$ 400 milhões emprestados em seu nome.
Não foi o combinado.
O ex-presidente Andrés Sanches foi à TV Gazeta avisar que as obras podem parar.
Deu um prazo de um mês para o BNDES liberar o dinheiro ao Corinthians.
Foi uma maneira de pressionar, jogar a opinião pública contra o banco.
Se as obras realmente pararem, podem comprometer a entrega do estádio no prazo.
Seria um vexame gigantesco a sede da abertura da Copa ser transferida para o Rio.
Um desgaste para o governo estadual e a prefeitura.
É esta a aposta de Andrés.
Que Geraldo Alckmin e Fernando Haddad se juntem.
PSDB e PT pressionando o BNDES em nome do Itaquerão.
O Corinthians já está perdendo.
Os juros dos empréstimos da Odebrecht para o Itaquerão serão pagos pelo clube.
Esse é o acordo.
Os R$ 420 milhões de CIDs (Comprovante de Incentivo ao Desenvolvimento) da Prefeitura também estão travados.
A nova administração da prefeitura de São Paulo vai parcelá-los.
Não irá liberá-los de uma vez, como queria a Odebrecht.
Primeiro chegarão R$ 100 milhões, provavelmente, neste mês.
Mas não há certeza.
O restante será dado em parcelas, mas sem prazo determinado.
A cúpula corintiana está tensa.
Logo após divulgar com orgulho a receita de R$ 330 milhões no balanço de 2012...
Não esperava esses golpes.
A Justiça travar o patrocínio da Caixa Econômica Federal.
E a exigência de garantias do BNDES persistir até agora, março de 2013.
Por isso começou a reagir.
Vai usar tudo o que tiver nas mãos.
Principalmente seus aliados mais poderosos.
E a pressão da opinião pública.
Ou seja, toda a sua força política nos bastidores.
Que não é pouca.
A guerra por dinheiro já começou...
Por falar em dinheiro, um leitor foi solícito.
Acaba de me passar trecho de entrevista de Andrés Sanchez.
Em agosto de 2010.
Falava animado sobre o Itaquerão.
Não vou nem comentar.
"No plano que eu tenho, não vai ter dinheiro público.
Apesar da hipocrisia neste País.
Tem muita gente em Itaquera que não frequenta o Parque do Ibirapuera ou da Aclimação.
E quem coloca dinheiro (nesses parques) é o poder público.
Tem de acabar com essa história.
De que estádio não pode ser feito assim, se a maioria da população pode usá-lo.
Se puder evitar o uso de dinheiro público, melhor.
E o do Corinthians não vai ter."
Garantiu ao Estado de S. Paulo.
Três anos depois...)
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