1reproducao22 Como Vicente Matheus deu impulso a um jovem repórter arrogante do Jornal da Tarde. O presidente do Corinthians não sabia o que estava fazendo. Seu impensado gesto reflete há 30 anos...
O Jornal da Tarde revolucionou a maneira de cobrir futebol no Brasil. Nasceu da 'Edição de Esportes' do Estado de São Paulo, criada na década de 60. Era publicado aos domingos à noite, para compensar o Estadão não ir sair às segundas-feiras. Situação inacreditável nos dias de hoje.

Trabalhar no JT era um sonho dourado de quem desejava virar repórter esportivo, nas décadas de 70, 80 e 90. Com linguagem direta, coloquial, diagramação revolucionária, uso de fotos 'gigantescas' e ilustrações feitas por artistas, colecionou prêmios.

Era a antítese do formalismo, das amarras do Estadão.

Saber o que quer fazer da vida é um prêmio. Soube desde os 12 anos, quando uma edição do Jornal da Tarde de uma segunda-feira caiu nas minhas mãos. Fiquei fascinado. E decidi estudar jornalismo, direcionar a minha vida para trabalhar no jornal. Entrei na Cásper Líbero. Naquela longínqua época, onde se estudava taquigrafia para fazer entrevistas, com professores desprezando os 'modernos' gravadores.

Sem conhecidos ou parentes jornalistas, só havia uma maneira de entrar no JT. Pela revisão. Eram vários turnos. Fiquei dois anos trabalhando das 21 horas às 2 da manhã, lendo textos que seriam publicados no dia seguinte. E sonhando com uma chance na redação.

O JT e o Estadão tinham um método inteligente, econômico e 'esperto' para lançar novos jornalistas. Chamavam revisores para cobrirem férias. Se fossem aprovados, ficavam por meses e até anos, trabalhando com repórteres ou copy desk, editores de textos. Mas pelo salário de revisores, muito mais baixos dos contratados pela redação. Era o jogo. Aceitava quem queria.

E eu sonhava com uma chance.

Até que ela veio, no começo de 1987.

Hélio, um revisor com quem conversa muito sobre futebol, foi chamado para cobrir férias no Esportes do JT. Na última hora, ele não aceitou. Não se sentiu preparado. Quando eu soube, fiquei revoltado. E esperançoso. Cansado de esperar pela minha chance, fui até a editoria de Esportes, sem ninguém me convidar. Sem conhecer ninguém. Procurei o chefe de reportagem. Era Castilho de Andrade.

Castilho era especialista em automobilismo e uma das pessoas de maior sagacidade que conheci. Raciocínio rápido, inteligente, antevia o que seria notícia. Manchete ou nota de pé de página. Me apresentei, com o entusiasmo irresponsável dos 24 anos. "Você é o Castilho? Eu sou o Cosme. Trabalho na revisão. Você chamou o Hélio para cobrir férias e ele não aceitou. Eu também fico na revisão. E sou 'bom para caralho'. Me dê uma chance e não vai se arrepender."

Lembrando agora das palavras, não entendo como o Castilho me deu atenção. Ou até entendo. Ele viu a chance de testar um novo revisor e ainda se divertir. "Cosme, 'bom para caralho', a vaga que o Hélio não quis já foi preenchida. Mas vou lembrar de você e assim que tiver alguma, te chamo."

Depois de ficar três meses, roendo canetas e lápis vermelhos da revisão de tanta ansiedade, chegou o telefonema. Fui para conversar com o Castilho em uma sexta-feira. E a surpresa. "Você não é bom para caralho, Cosme? Já vai cobrir o Corinthians na próxima segunda-feira." Fiquei entusiasmado. Ingênuo, acreditei que ele havia percebido o 'talento que eu era' e me deu logo de cara o clube mais popular de São Paulo, o que garantia manchetes.

Só depois fui entender que Castilho havia sido irônico, feito uma piada interna. O Corinthians jogaria no domingo. E o material de segunda-feira já estava escrito pelo repórter que trabalhou no jogo. E até diagramado. Era o famoso 'rescaldo'. Eu iria até ao clube só por ir. O previsto era que não escrevesse uma linha.

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Cheguei ao Parque São Jorge com meu mullet domado com gel Bozzano, calça semibag, camisa de manga comprida, com as mangas dobradas, sapato de bico fino. Era o estereótipo de vendedor de Barsa ou de carnê do Baú da Felicidade. Uma figura que hoje provocaria risos. Ou dó.

Não havia viva alma no clube. Era folga geral. Todas as entrevistas que havia preparado mentalmente caíram por terra. Fiquei desesperado. Comecei a apertar a tampa da minha caneta bic. Quando reparei, minha mão já estava sangrando, de tanto nervosismo.

A tal 'vingança' do Castilho estava dando certo.

O motorista do jornal já queria ir embora. Eu falei que não.

O que iria fazer? Já imaginei minha carreira acabada. Foi ao ver o gramado vazio do Parque São Jorge, me veio a frase que me acompanha no jornalismo desde sempre. "Vou lá e foda-se."

Havia decidido ir até a sala do presidente do Corinthians. Era Vicente Matheus. Só o conhecia da televisão. A Cásper Líbero era uma faculdade marcada por movimentos sociais. Sabia que ele era um ditador do esporte, tratava o clube como seu. A secretária me olhou e perguntou o que eu queria. Falei, sem titubear. "Uma entrevista com o Vicente Matheus para o Jornal da Tarde." Tomei um chá de cadeira de uma hora e meia. Com o motorista me aporrinhando, falando em ir embora, que iria transar com uma telefonista.

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Quando estávamos quase nos estapeando, a secretária anunciou. "Pode entrar, o presidente Matheus vai recebê-lo." Ao entrar, ele me olhou de baixo para cima. Sentiu que estava diante de um foca, um iniciante. Contei o que havia acontecido, que não havia treino, que era o meu primeiro dia. Que eu não poderia voltar para a redação sem notícia.

Matheus não tinha instrução. Mas era uma pessoa instintiva, esperta, se fez milionário. Estava sendo massacrado pelo Estado e pela Folha por conduzir o Corinthians com mão de ferro. Ele aproveitou a 'oportunidade'. O que falou, nunca esquecerei.

"Gostei de você. Gosto de gente que trabalha. Cadê seus colegas que trabalham nos outros jornais? Ninguém está aqui. Então, vou te premiar, meu filho. Acabei de contratar o Jorginho, aquele que jogava no Palmeiras. Como só você está aqui, a notícia é sua." E me deu detalhes da transação.

O motorista perdeu a noite de prazer com a telefonista. Mas eu sabia que minha vida mudaria no trajeto entre o Parque São Jorge e a redação do jornal. Mal cheguei, chamei o editor de Esportes. Ele chamou o editor do jornal. E logo o Estadão foi avisado.

Sentei na máquina de escrever e usei toda a minha truculência. Cada vez que um dedo meu batia em uma tecla, meu sorriso de satisfação ficava maior. Por ser leitor diário do JT desde os 12 anos, o texto saiu rápido, fluído, provocativo. Sabia alguns dos segredos de Sérgio Baklanos, Vital Battaglia, Alberto Helena Júnior, Roberto Avallone, Denise Mirás, Luiz Antônio Prósperi, José Eduardo de Carvalho, José Eduardo Savoia.

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Lembrei agora, cheguei a ter a sensação de ter voltado três décadas no tempo. Não comi nada e nem fui ao banheiro. Não enquanto as primeiras edições fossem impressas e chegassem à redação. O orgulho com que tomei o ônibus para casa, levando 15 jornais, foi indescritível. Pareciam 15 primogênitos filhos.

E eram...

Distribui os 15 para familiares e amigos.

Ninguém era mais feliz do que eu naquela noite.

No dia seguinte, cheguei mais cedo do que o Castilho na redação. O vi pegar a pilha de jornais que estava sobre sua mesa. Ele separou o JT e o Estadão. Nas duas capas, a contratação de Jorginho com destaque. Foi furo meu. Dei a volta, fiquei atrás dele, enquanto lia. Assim que acabou, fiz questão de bater nas suas costas. Ele olhou para mim, assustado. Sabia que a sua vingança pela minha arrogância havia saído pela culatra.

"Não falei que era bom para caralho, Castilho?"

Ele riu, sem graça.

Depois nos tornamos próximos e ele foi um dos grandes incentivadores da minha carreira. Trabalhei dois anos na redação recebendo como revisor. E antes de me firmar no futebol, o crème de la crème do JT, Castilho me fez aprender a ser repórter. Cobri hipismo, basquete, tênis, Fórmula 1, pesca, ciclismo, halterofilismo, vôlei, boxe.

Mas sempre sonhando com futebol. Desejando a chance de brigar pela manchete diária do jornal, com meus competentes colegas de trabalho, que alguns viraram 'meus irmãos'. Fiz curso de árbitro, de técnico. Estudei cinema, sociologia. Me preparei para, quando tivesse a chance de me tornar repórter de futebol do Jornal da Tarde, nunca mais largar. Foi o que aconteceu. Agradeço muito a escola que tive.

Fiquei no JT por 22 anos e meio. Foram três Copas do Mundo, coberturas de futebol em 25 países diferentes, prêmio. Até que a derrocada financeira, motivada em grande parte, pelo grupo Estado não acreditar na Internet, fez o jornal definhar e fechar.

O luto, não só meu, dura até hoje.

Se não fosse o JT, se não fosse o Corinthians, se não fosse Vicente Matheus.

Se não fosse Jorginho...

Não estaria atormentando desprevenidos leitores há mais de 30 anos...
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