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Eu tinha 10, 12 anos. E decidido o jogador que queria ser. Chutar com a perna direita como o Nelinho. De esquerda, como o Rivellino. Driblar como o Pelé. Cabecear como o Leivinha. Comandar o time como Pedro Rocha. Bater falta como o Zico. Defender como Domingos da Guia, zagueiro que havia lido, ser incapaz de dar chutões, isso na década de 50. E, se preciso for para o gol, defender como Leão.

Mas a bola insistia em me trazer para a realidade.

E entendi que precisava estudar.

Meninos corintianos, são paulinos, santistas e palmeirenses do início da década de 70 eram fascinados por Emerson Leão. Ele encarnava o que jovens imberbes e magrelos sonhavam, em segredo, ser quando crescessem. Musculoso, arrogante, bonitão, mullets, costeleta, cultuado por mulheres. Símbolo sexual com direito a outdoor de cuecas. Deveria ter garotas aos seus pés, pensava, enquanto ia para os bailes esperando as músicas lentas para tentar minhas primeiras investidas.

Confesso que cheguei a comprar uma das tais cuecas do Leão para 'ver se dava sorte'. Deu. Era o tal efeito placebo.

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Mas era no gol que Leão se destacava. Filho de alfaiate, irmão de dois médicos, ele precisava se impor como goleiro para ser respeitado na família. A dedicação muito acima do normal nos treinamentos fez com que seu talento natural o transformasse em um dos maiores goleiros brasileiros de todos os tempos. E com a confiança de quem foi profissionalizado com 14 anos, no São José, ele não só enfrentava os jornalistas, mas aprendeu a intimidá-los.

Sempre manteve um tom acima do normal nas entrevistas. E que ficava quase um chamado para a briga, quando não gostava da pergunta. Depois de uma carreira vitoriosa, decidiu ser treinador de futebol.

E foi quando a imagem do ídolo que eu tinha quando garoto, se desfez. Em 1990, ele dava seus primeiros passos como técnico. Ou melhor, já tinha de recomeçar. Porque teve rápidas passagens no Sport, Coritiba e Palmeiras. Como era costume na época.

Leão não se preparou para ser treinador. Era instintivo, apostava na sua personalidade, no seu carisma. Era um adepto do 4-4-2, ortodoxo. Com o time marcando meia pressão quando os rivais era fortes. E pressão inteira, quando eram fracos. Insistia nas bolas aéreas. E meio de campo com volante marcador. Suas equipes tinham velocidade na frente. Firmeza atrás e muitas faltas no meio de campo.

Totalmente previsíveis.

Quando, lá pela segunda metade da década passada, chegaram princípios táticos europeus. Intensidade, defender e atacar em bloco, triangulações pelas laterais, volantes atuando como meias e vice-versa, jogadores realizando duas, três funções em uma mesma partida, Leão ficou ultrapassado. Seu último título é de 2005, campeão paulista pelo São Paulo.

Leão dirigiu grandes equipes como Palmeiras, Corinthians, Santos, Atlético Mineiro, Grêmio, Internacional, São Paulo. Foi para o Japão. E até teve passagem relâmpago como técnico da Seleção Brasileira. Sempre respaldado por seu carisma, sua personalidade forte. E não pelos conhecimentos táticos.

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Por esse motivo, seus trabalhos sempre foram curtos. E chegou a inacreditáveis 32 trocas de equipes, nos seus 24 anos de carreira como técnico.

"O pior treinador com quem trabalhei? O cara é um leão, é fogo", ironiza Edmundo.

Nosso primeiro contato como jornalista e técnico foi no São José. O garoto dentro de mim, estava a flor da pele. Iria falar com um ídolo. Logo veio a decepção. Extremamente arrogante, logo nas perguntas iniciais. Fui vacinado, jornalistas veteranos como Roberto Avallone, Vital Bataglia, Sérgio Baklanos conversavam sempre sobre Leão. E maneira de enfrentá-lo era não tremer. Se ele falasse alto, falasse mais ainda. E a entrevista sairia. Foi o que aconteceu.

"O que você quer dizer com começo ruim? Eu sou campeão brasileiro com o Sport. Passei pelo Coritiba, pelo Palmeiras. Como assim, começo ruim?", me questionava Leão, em voz alta, me fuzilando com os olhos. "Quem dirigiu o Sport no quadrangular decisivo do Brasileiro de 87 foi o Jair Picerni. Você não ganhou nada no Coritiba e no Palmeiras. Tanto que teve de dar vários passos atrás, aqui no São José." Surpreso pelo meu tom de voz e argumentos, Leão recuou. E a entrevista foi normal, a partir daí. Mesmo quando lembrei que ele fora o responsável pela troca de Neto e Denis por Ribamar e Dida, quando treinava o Palmeiras. Esse é considerado um dos piores negócios da história palmeirense.

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Mas lembro da sua promessa. "Vou dirigir a Seleção Brasileira, pode ter certeza", me disse, antes de apertar a minha mão com toda força.

O ídolo de garoto havia morrido para mim. Ainda bem que, com Leivinha, Nelinho, Pedro Rocha, Zico, Rivellino a impressão boa continuou. Com Pelé também perdeu pontos importantes, por sua ganância desenfreada.

Rancor sempre foi um traço forte em relação a Leão. Vários jogadores que treinou, me confidenciaram que este é um grande defeito. Assim como a exigência da hierarquia. Ele nunca se misturava com jogadores no almoço ou jantar. Além da óbvia xenofobia, detestava atletas estrangeiros.

Em 2000 foi técnico da Seleção. E teve a capacidade de levar o Brasil para treinar na sua fazenda em Jarinu. Fiz duas exclusivas com ele naquela época. A primeira foi no começo da preparação. E uma das primeiras perguntas era óbvia. Mas não era feita. "Você não se sente constrangido em trazer a Seleção para uma propriedade sua? Não é de graça, que eu sei." Ele ficou vermelho de raiva.

"Olha, eu trouxe a Seleção para o melhor lugar que conheço para treinamento. Isolado de tudo e todos. Com campo maravilhoso, infraestrutura ótima. A CBF leva o Brasil só para o melhor do melhor. Não está aqui de graça."

Leão foi logo demitido. E voltamos a outra exclusiva. Em um hotel. Marcou oito horas da manhã. O motorista do jornal perdeu a hora. Cheguei cinco minutos atrasado. "Eu só não fui embora por respeito ao Jornal da Tarde. Não tem cabimento um entrevistado ficar esperando. Bom dia." "Se você quiser ir, Leão. Pode ir", respondi. Ele preferiu ficar e a entrevista foi pesada, difícil, truncada. Ele mostrou toda sua má vontade. Mas como queria criticar Ricardo Teixeira, que o havia mandado embora por telefone, as frases fortes saíram de sua boca.

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Voltaríamos a nos encontrar na sua grande conquista, o Brasileiro de 2002. "Um aborto da natureza", brincava um repórter que cobria o Santos há décadas. Ele me garantiu que Leão não acreditava em Robinho e Diego. Considerava o primeiro franzino demais e recomendou seu empréstimo ao São Caetano. E Diego prendia a bola demais, poderia ser negociado. Só que os dirigentes o peitaram. E a dupla foi responsável pela conquista nacional, com vitória diante do Corinthians de Parreira.

"Para quem duvidava da minha qualidade como técnico, aí está a resposta", me disse, mandando indireta a Ricardo Teixeira, nome que detesta pronunciar até hoje.

Até que veio o período de nossa maior convivência. Ele havia saído do São Paulo, apesar de conquistar o Paulista de 2005. Acumulou problemas com Rogério Ceni e Juvenal Juvêncio. Mesmo com a conquista, foi embora, para o Japão. "Ajudar um amigo", alegou. Ficou pouquíssimo tempo no Vissel Kobe.

E muito amigo de Renato Duprat, o homem que trouxe a MSI para o Corinthians, acabou assumindo no Parque São Jorge. Seu trabalho foi pífio. E, lógico, teve problemas com os estrangeiros do time. Tevez e Mascherano abandonaram o clube sem o menor constrangimento. Carlitos ainda avisou que nunca mais queria ter Leão como técnico.

O time ia mal no Brasileiro. E, em outubro de 2006, com o time concentrado na fazenda de Leão, em Jarinu, surge um comunicado para a imprensa. Os jogadores estariam em greve de silêncio por tempo indeterminado, não dariam entrevistas. Algo muito semelhante com o que havia acontecido em 1973, quando a Seleção Brasileira, em uma excursão na Europa, acumulava fracassos. E era duramente cobrada pelos jornalistas.

Jogadores decidiram não dar mais entrevistas. Em retaliação, jornais como o Estadão decidiram não falar mais o nome dos jogadores do time de Zagallo. O chamavam, como o goleiro do Palmeiras, lateral do Corinthians e por aí foi. Tempos depois, houve unanimidade em relação ao líder da greve do silêncio: Leão.

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33 anos depois, a mesma situação. E Leão garantiu que a iniciativa partiu dos atletas. A greve durou 45 dias. Capengando, o time terminou em nono no Brasileiro. Eu marquei uma exclusiva com o zagueiro André Leone, que fazia parte do elenco. E ele revelou os fatos.

"Não teve nada de jogador. Estávamos concentrados e o Leão passou de quarto em quarto avisando que o time faria uma greve de silêncio. Veio até com o texto pronto que seria divulgado para a imprensa. E falou que ele controlaria os jornalistas."

Confirmei a história com outros três jogadores.

Eles me pediram sigilo, por medo de represália.

Leone, não.

"Pode publicar", disse, sem medo.

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A divulgação foi enorme desmoralização para Leão.

Terminou o ano e ganhei, pela quinta vez, o prêmio de melhor repórter esportivo de São Paulo.

Saí de férias.

Mas fiz questão de ouvir a primeira coletiva do técnico corintiano em 2007. Antes de começar a entrevista, ele resolve fazer uma gracinha. "Soube que o jornalista do JT ganhou prêmio como melhor de São Paulo. Você estão mal, hein?", falou para os meus companheiros. Foi surreal. Ouvi na praia.

Passei a noite em claro, revoltado, e assim que amanheceu, fui para São Paulo.

No dia seguinte, cheguei no Corinthians. Acompanhei o treino. E assim que terminou, esperei. Leão iria falar de novo. Me levantei e fui na sua direção. "Fala na minha cara que eu sou fraco. Dizer nas costas é fácil, é covardia. Fala, mentiroso. Vamos conversar sobre a greve de silêncio."

Leão se constrangeu, a coletiva foi cancelada. Alguns jornalistas me seguraram. Queria que ele repetisse o que havia dito. Não repetiu. Apenas foi embora.

A partir daí, fui proibido de participar das coletivas. Mas meu editor teve personalidade e me manteve no Corinthians. "Não preciso ouvir esse técnico para ter notícias." Dobrei a minha dedicação e antecipei várias notícias, mesmo não vendo a cara de Leão. As coisas estavam de mal a pior. Até que três meses depois, ele foi demitido, em abril. Passou perto de mim e eu perguntei. "E aí, Leão? Onde vai ser a nova greve de silêncio?" Ele fingiu que não ouviu e foi embora.

Desde então, sua carreira fracassou de vez. Só decepções e demissões em seguida. Até que acabaram os convites.

Mas o mundo é pequeno e mal frequentado, repetia uma socialite que trabalhou no JT. Em 2012, recebi uma ligação de um delegado no final de noite. A casa de Leão havia sido assaltada. Ele me detalha os detalhes do roubo. O medo que ele e sua esposa passaram. Agradeci, não quis publicar. Quis preservar o ser humano. Era o seu incompetente desempenho como treinador que era meu dever escrever.

Agora, aos 68 anos, o vejo como comentarista de futebol. No Esporte Interativo. Quando o vi pela primeira vez, ele dizia que o jogador ter responsabilidade e a imprensa tem todo o direito de cobrá-lo.

Justo ele, o organizador de duas greves de silêncio.

Na Seleção e no Corinthians.

Muito cuidado ao conhecer um ídolo da infância.

O que recomendo é ficar longe, se puder.

Há muita chance de a admiração se esvair.

Desaparecer.

Para mim, a decepção tem nome e sobrenome.

Emerson Leão...
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