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Final da década de 80.

Estava sonhando com grandes coberturas internacionais pelo Jornal da Tarde. Buscava matérias interessantes, pautas diferentes, relevantes. Mas algo me chamava a atenção. As informações exclusivas, quentes, manchetes do Estadão e que também conseguiam se impor, na capa do JT. Eram matérias de Sebastião Reis. Repórter manauara, que cobria a CBF com enorme talento, eficiência, perspicácia.

Seus textos eram fluentes e recheados de informações importantes. Reis foi muito ligado a Oldemário Touguinhó, lendário repórter carioca, que dominou por décadas os bastidores do comando do futebol brasileiro. Tinha em Zagallo, Eduardo Vianna e Américo Faria, as fontes ideais. Além de ser muito ligado a Pelé e João Havelange.

Oldemário misturava intuição, coragem e abdicação. Ele se impunha diante dos presidentes da CBD, depois CBF e também frente aos dirigentes do futebol carioca. Não era acadêmico, nasceu repórter esportivo. Ganhou dois prêmios Esso entre outras premiações. Era do tempo em que o acesso era total aos jogadores, técnicos, dirigentes. Foi ele quem orientou e encaminhou Reis no jornalismo.

Conheci Oldemário quando ele estava no final da carreira. Nunca esqueci do seu principal conselho. "Menino, você tem de ir para cima deles." Ou seja, não desistir diante de um não, de uma cara fechada ou de nojo, especialidade de Ricardo Teixeira, assim que assumiu a CBF. Oldemário não tinha piedade de suas fontes. Ele as prensava na parede, quase as obrigava a falar o que precisava. Foi assim que conseguiu inúmeros furos e prêmios.

Ele usava um truque simples na cobertura da Seleção. Ele se credenciava como fotógrafo e acompanhava as partidas atrás do gol. E conseguia declarações exclusivas. Ele tinha a proteção da cúpula da CBD e da CBF. Sua máquina era ridiculamente pequena, uma provocação óbvia. Mas o privilégio acabou quando as credenciais passaram a ser controladas de verdade, no início dos anos 90.

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Sebastião Reis 'ia para cima', mas tinha outra maneira de se aproximar das fontes. Conseguia se tornar amigo delas e, principalmente, do entorno. Também conseguia ótimas matérias e furos.

Quando Oldemário se afastou do Estadão, Reis seguiu como o repórter especial do futebol no Rio de Janeiro. E comecei a perceber que seus grandes furos na CBF eram cíclicos. Ou seja, de vez em quando. E sempre quando havia matéria da Folha de São Paulo contra Ricardo Teixeira.

Até que percebi como as coisas funcionavam. Diante de um denúncia ou crítica da Folha, Teixeira se vingava e abafava, passando um furo para o Estadão, que acabava na manchete do JT também. Fiz várias coberturas com o Reis. Era excelente companheiro. Para todas as horas. Impossível não se tornar amigo dele. Esperto, inteligente, com ótimas fontes. Era ótimo juntar força e fontes com ele.

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Mas entendi: tinha de seguir, entrar nesse nicho. Já que era repórter de Seleção Brasileira do JT. E havia como, mesmo vivendo em São Paulo. Jota Hawilla. O ex-repórter de rádio e televisão que enriqueceu com o marketing esportivo. Dono da Traffic. E amigo/irmão de Ricardo Teixeira. Por sorte, ele foi muito próximo do meu chefe de reportagem, Castilho de Andrade. Usando a amizade dos dois, me aproximei de Hawilla e fiz seu perfil. Vaidoso, estava vivendo o auge de sua carreira, no final da década de 90.

Se transformou, por anos, em uma das melhores fontes. Tinha trânsito aberto na Globo, na CBF, na Conmebol, na Fifa. E tinha o maior prazer em antecipar grandes decisões. E elas eram antecipadas no JT.

Hawilla tinha nas mãos as transmissões de todos os torneios importantes para o Brasil. E também da Seleção Brasileira. Muito ligado à Globo. Como eu era do Jornal da Tarde, seguia 'neutro'. Não estava nesta guerra. Estava em outra. Queria notícias importantes da CBF. Tendo em mente o que havia visto com Oldemário e com Reis, usei o mesmo expediente. E Hawilla, além de me passar notícias, intermediou duas entrevistas importantes com Ricardo Teixeira, na luxuosa sede da Traffic, no Itaim, bairro nobre de São Paulo.

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Era surreal. No JT vivíamos escrevendo matéria cobrando, criticando a CBF e seu presidente. Até por ser a nossa obrigação. Foram várias ligações de Hawilla reclamando de matérias minhas. Não venderia minha alma pelas informações. Ele sabia disso. E parecia até se orgulhar da minha postura. Apesar de todo o poder e dinheiro, não o sentia um homem feliz.

E Hawilla insistia com Teixeira, que, no nosso jornal, o espaço seria muito maior do que no Estado, para os furos que iriam humilhar a Folha. O acordo era ótimo. Se Teixeira e Hawilla queriam nos passar informações, tudo bem. Mas que não esperassem retribuição. Eles que se contentassem em fazer a Folha comer poeira.

A maior prova que não haveria retribuição foi durante a CPI da Nike, em 2000. Ricardo Teixeira foi trucidado com inúmeras denúncias. Ele parecia que iria renunciar a qualquer momento. Um dia eu estava na redação do JT e o telefone tocou. "Oi, Cosme. É o Ricardo. Eu preciso dar a minha versão sobre esse massacre que estou sofrendo. Há muitas inverdades. Não vai dar em nada. Mas por uma questão de honra, quero dar a minha versão." Acreditei ser um grande furo. Preparei minhas perguntas mais fortes. Procurei a chefia do jornal.

"O Ricardo Teixeira quer dar sua versão. Se defender. Vamos fazer essa matéria?" Ouço do meu editor. "Você está louco, Cosme. O Ricardo Teixeira não é mais nada no futebol. É uma questão de dias para ele ficar sem poder algum. Ele morreu. Não vamos dar espaço a ele, não. Viraremos galhofa por dar espaço ao vilão."

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Considerei uma tremenda injustiça. Porque o Teixeira nos passou vários furos. E também um erro. Vilão ou não, seria um excelente entrevistado. Liguei para ele. Estava ávido do outro lado do telefone. "E aí, Cosme? Quando a gente faz?" Expliquei a situação. Ele se calou, me agradeceu.

No dia seguinte, sua entrevista foi capa do Estadão. E repercutiu em todos os outros veículos. Dentro de um mês, ele havia se livrado da CPI. E voltava a reinar no futebol brasileiro. E o Estadão passou a dar notícias importantes da Seleção e do futebol brasileiro na frente dos rivais, principalmente a Folha.

Mas continuei a atormentar Hawilla com ligações e mais ligações atrás de notícias relevantes. Até que um dia recebi o recado para ligar para o Ricardo. Liguei. "Olha aí, Cosme. Vou te passar quem é o coordenador da Seleção para a Copa de 2002. É o Antônio Lopes." "Mas, presidente, preciso saber do técnico. O mundo quer saber quem será o treinador." "Já passei até o que não deveria para o seu jornal, que não quis me ouvir na CPI. Agradeça o coordenador técnico. E um abraço."

O JT deu na primeira página que Antônio Lopes seria o coordenador. E Felipão acabou vazando por Belo Horizonte, já que comandava o Cruzeiro.

Desde então, Ricardo Teixeira nem olhava na minha cara nas coberturas. Nunca mais nem me cumprimentou. Eu também não iria me curvar, como vi vários jornalistas se curvando.

Há uma situação que resume de maneira excepcional Ricardo Teixeira para mim. O JT nos colocou no voo que levou e trouxe o Brasil para a Copa de 2002. Era caríssimo, mais do que o dobro. Mas foi ótimo, rendeu várias matérias nas viagens até Barcelona, Seul, Yokohama e Rio de Janeiro.

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Do meio para trás do avião, ficavam os jornalistas. Do meio para a frente, os jogadores. No meio, truculentos seguranças. Os repórteres entravam antes. Depois a delegação, inclusive Teixeira. Para variar, me atrasei. Fui o último a embarcar.

Qual não foi a minha surpresa quando vi Ricardo Teixeira. Ele estava na primeira poltrona do lado esquerdo, da primeira classe. Ele estava refastelado, deitado. Na mão, uma taça de champanhe. Bochechas vermelhas de quem havia bebido bastante, antes. Mas os meus olhos se fixaram nos seus pés.

Eles estavam ainda dentro dos sapatos. Mas repousavam sobre uma caixa metálica. Na frente dela, o símbolo da Fifa. Sim, dentro dela estava o troféu, a taça, a Copa do Mundo. Ele estava curtindo a sua vitória pessoal. Tinha o maior símbolo do futebol do mundo sob seus pés.

Era o suprassumo da arrogância.

Aqueles segundos jamais sairão da minha retina. Quando ele me viu, não ficou constrangido. Só fez um gesto com o pescoço para os seguranças e eles me apressaram para ir até o fundo do avião. Não falei para ninguém o que havia visto. Só tentei de toda forma passar pelos seguranças e tentar fazer uma foto que ficaria para a história. Não consegui.

De 2002 até sua desesperada saída da CBF, em 2012, só o encontrei em poucas coletivas e um dia após a eliminação da Copa de 2006, quando não quis falar comigo e com o David Coimbra, do Zero Hora, na Alemanha.

Sei agora que, aos 70 anos, sem poder algum, segue investigado pelo FBI e Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Assim como Marco Polo Del Nero, não viaja para fora do país. Seus advogados recomendaram que fique por aqui, para evitar uma possível extradição.

E hoje, 18 de novembro de 2017, vaza a notícia de seu péssimo estado de saúde. A luta contra a rejeição do corpo ao único rim, doado pelo irmão Guilherme, e o crônico problema do diabetes o deixaram um homem abatido, enfraquecido.

Mas que ainda teria muito a dizer.

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Só que não posso mais ligar para Jota Hawilla.

Acabou a ingenuidade.

Aliás, após a Copa de 2006, Hawilla passou a não atender mais as minhas ligações. Tinha assessor de imprensa pessoal. Havia crescido muito.

Eu não imaginava todo esquema sujo que estava metido. Um erro das redações sempre foi não dar tempo aos jornalistas esportivos para realmente investigar quem precisa ser investigado. E não buscar fontes na Polícia Federal. É através da PF que muitas revistas conseguiram furos históricos em escândalos ligados ao futebol. Mas o repórter necessita de semanas, meses de investigação. Algo que ninguém oferece há muito tempo.

Hawilla virou o principal delator que implodiu a cúpula da Fifa. Falou tudo o que sabia para o FBI. Revelou o esquema de propinas. As mesadas de propina que pagava para conseguir as transmissões dos principais campeonatos de futebol na América do Sul. Foi o grande responsável pela prisão do ex-presidente da CBF e ex-governador biônico de São Paulo, José Maria Marin. Há delação de Hawilla contra Del Nero e contra Teixeira.

Ele teve de devolver R$ 473 milhões para não ir preso.

Acredito que deva ter sobrado um pouco.

Seu patrimônio era de R$ 1,8 bilhão em 2015.

Teve câncer na garganta e tem hipertensão pulmonar.

Está sumido, vivendo longe de todos, em Miami, nos Estados Unidos.

Sem poder algum no futebol, depois da delação.

Em maio de 2018 sairá um livro sobre sua vida.

O título não é nada singelo: "O Delator".

Acredito que não seria boa ideia ligar agora para Jota Hawilla.

Ele não conseguiria intermediar nova conversa com Ricardo Teixeira.

Disso, eu tenho certeza...
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