1reproducao22 1024x682 Com Tite, a Europa voltou a respeitar o Brasil. Mas ser penta pode uma maldição. Andrew Downie
"A Europa voltou a respeitar o futebol brasileiro, com Tite. O país finalmente descobriu a importância da tática. O Brasil tinha parado no tempo com o pentacampeonato mundial. Mas é preciso cuidado. Porque as coisas por aqui contrariam a lógica. O país estava em depressão depois do fracasso da Copa de 2014. E não pode cair na euforia, acreditando que já ganhou a Copa da Rússia. Ser pentacampeão do mundo é um privilégio. Mas pode ser uma maldição."

A análise é do jornalista escocês Andrew Downie. Colaborador do New York Times, revista Time, The Financial Times, correspondente da agência Reuters e autor do livro Dr. Socrates - Footballer, Philosopher, Legend, lançado na Inglaterra. Foram dois anos e meio de pesquisa. E mais de cem entrevistas. A publicação teve o prefácio de outra lenda, o holandês Johan Cruyff.

Há 22 anos no Brasil, ele tem uma visão profunda sobre as conquistas, os problemas e os jogadores brasileiros. É um misto da admiração, indignação e alerta.

Qual o legado que você acredita que a Copa deixou para o Brasil?

Primeiro eu quero deixar claro que tenho o maior respeito pelo Brasil. Por sua população. Sou um jornalista escocês que faz seu trabalho por aqui e fui muito acolhido. Muitas vezes não me sinto bem em criticar o que vejo de errado. Mas acredito que nossa missão como jornalistas é apontar o que precisa e pode ser melhorado para a sociedade.

O Brasil desperdiçou não só a Copa como a Olimpíada. As obras foram atrasadas de uma maneira incompreensível. O país sabia que tinha as competições há anos. E deixou para fazer tudo de última hora. Era a grande chance de fazer novas estradas, rasgar o país com linhas de trens, metrôs nas grandes cidades, investir na infraestrutura. Pensar no conforto as pessoas que podem frequentar estádios, como ter uma estação de metrô nas arenas, como acontece no mundo todo, mas aproveitar os bilhões de dólares para melhorar as vidas das pessoas carentes, dando saneamento, modernizando as periferias das cidades.

Mas o que aconteceu foi ao contrário. O país foi sacrificado. Mentiram. Quem organizou tanto a Copa como a Olimpíada garantiu que o dinheiro seria privado. E o dinheiro gasto foi público, desviado das prioridades do Brasil, como saúde, educação, segurança, saneamento. Foi um grande desperdício que pouca gente se dá conta. O país poderia ter dado um salto na qualidade de vida de milhões de pessoas. Não deu. E ainda gastou muito.

Como você vê os estádios superfaturados?

Lamento. Há casos absurdos como o de Cuiabá, onde já foram gastos centenas de milhões de reais e não ficou pronto. Vão gastar mais centenas de milhões para terminá-lo. Em um local que não há futebol. Esse é só um entre os vários exemplos. Os estádios foram caríssimos. O desperdício foi assustador. Como no de Itaquera, quando gastaram milhões com um elevador para levar as autoridades aos camarotes. Só para o dia da abertura da Copa. Havia escadas. Isso é luxo de país riquíssimo. Na Olimpíada foi a mesma coisa. O desperdício foi algo alarmante. A sociedade brasileira infelizmente foi prejudicada e já sabia que seria. Caberia aos governantes tomarem alguma atitude. Mas foram coniventes. Não houve benefício para o país. E a conta ainda chegou para a parte mais desprotegida da população.

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Você entende por que o Brasil é dessa maneira?

O Brasil é um país isolado do mundo. Fechado nele mesmo. A começar pelo idioma. Quase ninguém no mundo fala português. A começar pela própria América do Sul. Além disso, apesar de ser uma enorme potência, está longe demais das demais. Tanto na Europa, na América do Norte e da Ásia. Então não tem um modelo para seguir. Não é influenciado por país algum. A não ser pelo próprio Brasil. Então é como se crescesse sozinho, se descobrindo a cada dia. E como o país é tão grande quanto um continente, não há unidade. O Sul é completamente diferente do Norte, de Brasília. Cada região tem vida própria. Isso também é algo próprio. Dificulta a mobilização nacional para qualquer situação. O que deixa os governantes à vontade para fazer o que quiserem. O certo e o errado. Na política, na economia, no futebol. Agora, Cosme, vamos falar um pouco de futebol, que eu como escocês, acho que já falei demais do seu país. Não me sinto à vontade para criticar um local onde sou tão bem tratado.

Andrew, você está ajudando a muitas pessoas enxergar o que há de errado por aqui. Mas tudo bem, vamos deixar a Sociologia de lado. E falar de futebol. Como você vê a CBF controlando a Seleção e todos os campeonatos por aqui? Inclusive com o lucrativo direito de transmissão dos jogos da Seleção todo para a entidade. Isso não mantém o atraso?

A Premier League da Inglaterra faz o melhor campeonato nacional de clubes do mundo. Os clubes são sociedade anônimas, mas com transparência total sobre seus gastos e lucros. Por que isso não acontece no Brasil?

Cosme, você quer que eu seja expulso do Brasil, não é? Está bom, vou responder. O melhor para o Brasil seria a CBF cuidar apenas da Seleção. E os clubes tratarem de organizar seus campeonatos. Isso vai obrigar a modernização, o fortalecimento de seu poder econômico para manter grandes jogadores por aqui. Não os melhores dos melhores, que seguiriam desejando atuar pelas equipes mais tradicionais do mundo. E elas são europeias. Mas com os clubes brasileiros fortes economicamente, o nível técnico dos torneios daqui seriam muito melhores do que é atualmente. Isso obrigaria uma mudança radical, na transformação dos clubes em sociedades anônimas, com mais transparência em tudo.

O que vejo é muita conivência. A situação está confortável para muita gente. Não há vontade legítima de buscar a modernidade. Sei que você vai me perguntar o motivo. Mas a palavra que resume esta situação é conivência. E ela é muito ampla. Há muitas pessoas que estão bem da maneira que está e não querem mudar. Não têm motivo em querer modernizar, fortalecer de verdade os clubes daqui.

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Você que escreveu um livro sobre o Sócrates, com seus posicionamentos firmes, que até ajudaram na redemocratização do país, como vê os ídolos atuais brasileiros. Como Neymar?

Quantas perguntas tranquilas, Cosme. Você quer acabar comigo? Mas vou responder. Comparar Sócrates com Neymar chega a ser covardia. O Sócrates é filho de classe média alta, um homem revolucionário, culto, médico. E preocupado em jogar futebol e também transformar o seu país. Já o Neymar vem da classe baixa da população brasileira, que tem cada vez menos acesso ao estudo de qualidade. Foi criado para ser um grande jogador de futebol e nada mais. Hoje, com assessores de imprensa, agentes e a proteção do próprio pai, Neymar vive dentro de uma bolha. No seu mundo particular.

Ele não vai aproveitar todos os microfones dos principais veículos de comunicação do mundo para falar sobre a desigualdade, sobre a corrupção, sobre o racismo no Brasil. Não. Sua preocupação é jogar futebol e aproveitar a vida. Ele é o representante maior desta geração de atletas que se preocupa apenas consigo. Isso é uma característica cada vez maior não só da sociedade brasileira, mas mundial. É o ego falando mais alto.

Sei que o Neymar está engajado em alguns projetos sociais. Mas a colaboração que poderia dar para a sociedade, com seu posicionamento sobre assuntos relevantes ao país, não virá. Como não veio do Pelé e de tantos craques que passaram por aqui. O Sócrates foi uma digna exceção. O Bom Senso também não acabou tão rápido quanto começou? O jogador de futebol do Brasil está voltado apenas para sua carreira. Não quer se expor com brigas que acha não serem suas. O que é uma pena.

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Como escocês, como vê a chance do Brasil na Copa da Rússia?

Que maneira de começar a pergunta, só provocação. O meu país é pequeno, tem cinco milhões de habitantes. E tem uma Federação de futebol que serve a dois clubes (Celtic e o Glasgow Rangers). E eles são divididos pela religião. (O Celtic representa os católicos e o Rangers, os protestantes) Isso afeta o futebol do meu país como um todo. Além disso, a UEFA é muito diferente da Conmebol. Você têm dez países para cinco vagas. Nós somos 54 países para 13 vagas. É muito difícil para nós escoceses participarmos de uma Copa.

Tudo bem, Andrew. A Escócia está perdoada. E o Brasil?

A Europa voltou a respeitar o futebol brasileiro, com Tite. O país finalmente descobriu a importância da tática. O Brasil tinha parado no tempo com o pentacampeonato mundial. Mas é preciso cuidado. Porque as coisas por aqui contrariam a lógica. O país estava em depressão depois do fracasso da Copa de 2014. E não pode cair na euforia, acreditando que já ganhou a Copa da Rússia. Ser pentacampeão do mundo é um privilégio. Mas pode ser uma maldição.

O brasileiro usava como desculpa para não evoluir taticamente o fato de ser pentacampeão do mundo. Era um escudo. Já que nenhum país tem cinco títulos mundiais. Mas uma país com uma população de 220 milhões de habitantes e que joga futebol há mais de cem anos, poderia ter vencido até mais copas caso se preparasse adequadamente.

E o tempo passou. O Brasil foi penta em 2002. Já faz 15 anos. O mundo mudou.

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O maior exemplo da falta de lógica por aqui foi Dunga. O Brasil fracassa com Felipão em casa, perdendo por 7 a 1 para a Alemanha. E quem é o escolhido para suceder o Felipão? O Dunga, que fracassou na Copa da África. E depois fracassou no Internacional. Foi um absurdo a sua volta ao comando da Seleção. E o Brasil perdeu dois anos de preparação.

A escolha de Tite foi a mais perfeita dentro dos parâmetros brasileiros. Ainda usando os cinco títulos mundiais, a CBF não buscou um treinador melhor, como Guardiola. Porque é espanhol. Isso não acontece mais por exemplo na Inglaterra, que foi comandada pelo italiano Capello, por exemplo. Mas o Tite é um treinador que conseguiu modernizar a maneira de o Brasil atuar. Priorizou o jogo coletivo, dando espaço para o talento brasileiro.

Mas algo precisa estar muito claro. Se o Brasil ganhar a Copa não significa que tudo está correto por aqui. E se perder, que tudo precisa começar do zero. É preciso ter mais realidade na análise do futebol deste país tão importante. Não se deixar levar só pelo resultado de uma Copa do Mundo. O futebol vai muito além disso. Espero que 2014 tenha servido de lição. Dentro e fora de campo.
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