16 1024x526 Chapecoense na Libertadores de 2018. Humilhação para São Paulo, Botafogo, Fluminense, Atlético...
As diretorias do São Paulo, do Fluminense, do Botafogo, do Atlético Paranaense, do Coritiba, do Sport, do Vitória, do Bahia e do Atlético Mineiro, entre outras, deveriam estar envergonhadas. E se tivessem mais dignidade, alguns dirigentes deveriam renunciar.

Diante do que os gestores da Chapecoense fizeram, a incompetência da gestão no futebol desses clubes, em 2017, ficar gritante.

A classificação time do Oeste Catarinense à Libertadores de 2018 é um tapa na cara.

O terrível acidente no inesquecível dia 29 de novembro teve consequências trágicas. O forte elenco, comandado por Caio Júnior, dominou o cenário catarinense. Se tornou adversário terrível jogando em Chapecó nas competições nacionais. E ainda chegou à final da Copa Sul-Americana. Dava mostras que iria ainda crescer.

Mas a queda irresponsável do avião da LaMia a 30 quilômetros de Medellin, colocou fim a esta equipe, com seus reservas, em toda a Comissão Técnica e no alto comando da Chapecoense. Em dezembro de 2016, o clube só tinha reservas dos reservas, garotos. E teve de se reconstruir.

Partiu do zero, ao contrário do São Paulo, Fluminense, Botafogo, Atlético Mineiro.

É importante desmistificar dados fundamentais. Primeiro, a CBF nunca ofereceu imunidade de três anos à Chapecoense. Primeiro por um motivo muito simples. Ao contrário do que foi dito na hora do choque, não foram todos os clubes do país que ofereceram esse perdão. Não, de jeito algum. Por questão de justiça é fundamental destacar. Foram pouquíssimos as equipes que tiveram esse desprendimento.

Botafogo, Fluminense, Internacional, Palmeiras, Portuguesa, Santos e São Paulo precisam ser elogiadas. Porque só elas transformaram as palavras em atos. E enviaram ofícios oficiais à CBF propondo a imunidade. As demais, não.

O presidente da CBF, Marco Polo del Nero, não está ocupando o cargo por acaso. Ainda mais agora, sendo investigado e acusado publicamente no julgamento de ex-parceiro/irmão José Maria Marin. Del Nero é esperto demais. E em meio ao choque de todos com as 71 mortes na queda do avião, o dirigente percebeu. Se caísse na tentação de perdoar a Chapecoense, não teria dúvidas. Os clubes rebaixados neste Brasileiro entrariam na justiça.

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"Eles defenderiam o direito da isonomia", me garante um velho advogado que frequenta a CBF. Ou seja, não há na legislação nada que assegure o privilégio no tratamento de um clube. Todos precisam ter os mesmo direitos e deveres em qualquer competição. Del Nero sabia que seria um caos. E a entidade que preside não teria como manter o rebaixamento de ninguém.

Por isso, a imunidade não foi oferecida à Chapecoense.

E nem precisava. O clube do Oeste catarinense é mantido e organizado por indústrias importantes locais. Foi essa organização que garantiu que, em seis anos, a equipe saltasse da Série D para a A do Brasileiro. O balanço de 2016 já mostrava cerca de R$ 70 milhões circularam no clube, entre patrocínios, arrecadações, vendas e compras de jogadores. Além da competência, há dinheiro forte por trás do sucesso da Chapecoense. A grande diferença é que ele vem sendo usado com competência.

Com muita transparência, o clube divulgou em março, o total de doações que recebeu depois do acidente. Foram exatos R$ 9.984,64. Insuficientes, é claro para montar uma nova equipe. O clube usou recursos próprios para primeiro escolher uma nova Comissão Técnica. E seus novos dirigentes mostraram competência na organização do elenco.

Caiu por terra também a promessa que cada equipe da Série A havia feito. Cada uma das 19 concorrentes cederia de graça dois atletas. Não foi o que aconteceu. Os dirigentes catarinenses receberam só algumas listas de atletas dispensáveis, que não serviam aos seus times. Muitos deles, afastados por deficiência técnica. Ou seja, presentes de grego.

O Palmeiras foi o clube que realmente ajudou. Primeiro com os R$ 600 mil de arrecadação por um amistoso. E depois cedeu uma lista com dez atletas com potencial. E o então treinador Vagner Mancini escolheu João Pedro, Nathan e Amaral. Cruzeiro, Atlético Mineiro, Atlético Paranaense São Paulo e Fluminense também colaboraram, mas menos.

Nem Riquelme e muito menos Ronaldinho Gaúcho se ofereceram a jogar de graça no clube. Isso sequer foi cogitado. Não passou de lenda urbana.

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Além dos empréstimos de atletas, doações, a Chapecoense teve de vender dois atletas. O atacante Rossi para o Shenzhen, da segunda divisão da China, e o volante Andrei Girotto com o Nantes. Levantou R$ 14 milhões.

Além disso, fechou patrocínio com a Aurora, terceiro maior grupo da indústria de carnes do país. E recebeu R$ 8 milhões pelo patrocínio master e pelas mangas. Encerrando o patrocínio que mantinha com a Caixa Econômica Federal.

Os dirigentes fixaram um teto de R$ 100 mil mensais. E montaram novo elenco. Com esses jogadores, conquistou o bicampeonato catarinense. Trocou de treinador duas vezes. Demitiu Vagner Mancini e Vinicius Eutrópio. Contratou Gilson Kleina. E, vitória das vitórias, a oitava colocação no Brasileiro e uma vaga na Libertadores de 2018.

O trabalho de reconstrução foi invejável.

"Do ponto de vista profissional, de metas, atendemos tudo que foi colocado e mais. Conseguimos reconstruir a Chapecoense como departamento de futebol e trazê-la para um rito de normalidade: crise, troca de treinador, descrédito, pressão externa, como todo clube tem.

"Voltamos a ser um clube como todos do mundo. Ser encarado dessa forma era algo que buscávamos. Conquistar um título quatro meses depois, foi algo incrível. Fizemos bonito na Recopa, na Libertadores e encarramos o Brasileiro garantidos na Série A, na Sul-Americana..

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"Retomamos um caminho que a Chape já tinha.

"Se tem uma coisa que me deixa feliz, é que conseguimos manter a dignidade que a Chape sempre teve e já começa quando diz: "Não quero imunidade na Série A". E eu nem estava aqui. Sempre nos posicionamos, mesmo quando ficamos antipáticos.

"Não fizemos o papel de bom moço. Fizemos o que achamos devia ser feito.

"Pecamos por ação, não por omissão.

"Conquistamos o respeito desportivo.

"Não há coitadismo aqui", repetiu o executivo de futebol Rui Costa, em várias entrevistas.

Exatamente isso.

Não houve coitadismo mesmo.

Só trabalho sério e competente.

Por isso, as lágrimas de tristeza viraram de alegria.

Um ano depois da pior tragédia do esporte mundial, a Chapecoense renasceu e está na Libertadores.

Como os dirigentes do São Paulo, do Fluminense, do Botafogo, do Atlético Paranaense, do Coritiba, do Sport, do Vitória, do Bahia e do Atlético Mineiro se sentem ao encarar o espelho?

Diante do que aconteceu em Chapecó, tanta incompetência é inaceitável...
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