As oito mortes na chacina na Pavilhão Nove. As torcidas organizadas são reflexo do que acontece em todo o país. Anos de descaso e impunidade das autoridades estimularam mais essa barbárie...
A situação é muito mais séria do que as próprias autoridades supunham. O Departamento Estadual de Investigações Criminais e o Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico garantem: a chacina de oito torcedores no sábado à noite, na sede da torcida organizada Pavilhão Nove tem um motivo. Disputa por pontos de tráfico de drogas. Alguns dos mortos estariam envolvidos neste confronto.

A execução sumária teria sido ordenada pela maior facção criminosa do País. O PCC. De acordo com testemunhas, três homens esperaram o final de um torneio de futebol de salão. Com paciência, viram centenas de torcedores irem embora. Os oito que ficaram estavam pintando uma bandeira nova que seria levada ao Itaquerão no domingo.

Com requinte de crueldade, esses três homens renderam sete corintianos. Os deixaram fizeram ficar de joelhos e dispararam vários tiros, principalmente na nuca dos torcedores, o que evidencia execução. As armas foram pistolas 9 milímetros,de uso restrito da Polícia Federal e Forças Armadas. A cena remete aos assassinatos em massa cometidos pelo Estado Islâmico. Um oitavo ainda tentou correr, mas foi alvejado e morreu em um posto de gasolina.

Os mortos: Ricardo Junior Leonel do Prado, de 34 anos, André Luiz Santos de Oliveira, de 29 anos, Mateus Fonseca de Oliveira, de 19 anos, Fabio Neves Domingos, de 34 anos, Jhonatan Fernando Garzillo, de 21 anos, Marco Antônio Corassa Junior, de 19 anos, Mydras Schmidt, de 38 anos, e Jonathan Rodrigues do Nascimento, de 21 anos. Fábio Neves foi um dos 12 torcedores que ficaram presos em Oruro, na Bolívia, após a morte do garoto Kevin Spada, em 2013.

O delegado responsável pelo caso, José Mário Lara, fez questão de avisar ainda na madrugada do domingo. Não havia o envolvimento de outra torcida nas mortes. Ele sabia que já havia a disposição de revanche. A desconfiança dos corintianos que palmeirenses poderiam estar envolvidos na chacina. Os dois times se enfrentariam no dia seguinte.

 As oito mortes na chacina na Pavilhão Nove. As torcidas organizadas são reflexo do que acontece em todo o país. Anos de descaso e impunidade das autoridades estimularam mais essa barbárie...

Mas a Polícia Militar teve a certeza que tudo se resumia ao tráfico de drogas. A certeza veio em apenas horas de investigação. A mais recente notícia nesta manhã de segunda-feira é que já até há suspeitos dos crimes. As imagens de câmeras que cercam a Pavilhão Nove estão sendo analisadas.

Aí acaba a notícia em si. E começa a reflexão. Por que as autoridades sempre fecharam os olhos com o que acontece nas torcidas organizadas? Por que não há trabalho de investigação, policiais não se infiltram e separam os criminosos da grande maioria dos torcedores, que é gente 'do bem'?

Aqui um importante depoimento. O do coronel da reserva Gerson dos Santos Resende. Ele participou do policiamento dos estádios de São Paulo de 1982 a 1993. Foram onze anos. Chegando até a chefiar o Batalhão de Choque. Foi envolvido no Massacre do Carandiru em 1992. Acabou processado e inocentado. Hoje está na reserva.

Resende acompanhou todo a mudança do perfil das organizadas paulistas. Quando elas deixaram ser ingênuas e passaram a ter os primeiros traficantes, criminosos de toda espécie infiltrados nas facções. Prendeu muitos deles. Mas foram recolocados nas ruas nos dias, nas semanas seguintes. A impunidade só serviu de estímulos. Atraiu os mais perigosos.

Coronel, como a situação chegou a este ponto? Será que as autoridades não sabem que há criminosos infiltrados em todas as maiores organizadas deste país?

O que acontece é algo muito grave. Mas que é reflexo de toda a sociedade. O tráfico, a guerra por pontos, as chacinas acontecem todos os dias neste país. Não é privilégio das torcidas organizadas. Não se pode pegar as torcidas e esquecer o resto. Temos leis duríssimas que não são levadas a sério. Pelas autoridades, por todos. Somos todos cúmplices do que acontece. Essa omissão é coletiva. Aceitamos tudo neste país. Estamos chocados com essas oito mortes. Só que quantas não acontecem todos os dias e ninguém faz nada?

Antes como era o comportamento dos torcedores organizados?

Era agressivo, mas até ingênuo comparado com o que acontece hoje. O objetivo dessas torcidas era definir seu território no estádio. Mostrar sua força. Quando havia brigas, era 'na mão'. Ninguém queria matar ninguém. O erro foi das autoridades. Os membros violentos das organizadas sempre foram tratados como coitadinhos. Se uma pessoa normal agride outra em qualquer lugar deste país pode ir presa. Mas no estádio, não. Ainda mais com a camisa de uma organizada. Nada acontecia na prática. Cansei de prender arruaceiros, brigões, que batiam em soldados, machucavam pessoas, cuspiam na polícia. E na semana seguinte estavam soltos, participando de outras brigas nos estádios. Quando nos encontravam, riam da nossa cara. Essa impunidade que já é uma coisa disseminada no nosso país chegou mais forte nas organizadas. Os torcedores perceberam que nada acontecia com eles. O escudo das organizadas sempre os protegeu.

 As oito mortes na chacina na Pavilhão Nove. As torcidas organizadas são reflexo do que acontece em todo o país. Anos de descaso e impunidade das autoridades estimularam mais essa barbárie...

O senhor tem razão, político que age contra uma organizada perde popularidade. Os voto de torcedores de um time. Mas quanto as drogas nas organizadas, coronel?

O grande erro é que a sociedade continuou acreditando é que só havia coitadinhos. A esmagador maioria dos torcedores organizados são gente do bem. Há famílias, mulheres. Mas gente ruim foi se infiltrando. No começo a gente apreendia pequena quantidade de maconha dentro dos bambus das bandeiras, quando elas eram permitidas nos estádios. Nós fazíamos nossa obrigação. Prendíamos as pessoas, levávamos às delegacias. Essa droga era vista apenas como consumo ocasional, diversão dos torcedores e nada acontecia. Só que ninguém se deu ao trabalho de correr atrás de onde essa droga vinha. E, infelizmente, se abriu a possibilidade da chegada dos traficantes. Veja bem, eu sai em 1992. Desde então, só acompanho tudo de longe. Por isso posso afirmar que tudo começou com a impunidade. Sem hipocrisia, os culpados somos todos nós pelo que estado das coisas. Se as torcidas organizadas não tivessem sido tratadas como se fossem uma parte diferenciada da sociedade, não estávamos assim tão preocupados.

Você vê alguma solução? Adianta acabar com as organizadas?

Continuo repetindo que a grande maioria dos membros das organizadas é gente do bem. O que é preciso é separar quem não é. E não adianta gente querer aparecer, ganhar destaque em jornal, na televisão avisando que a solução é acabar com as organizadas. Porque não há como. Se você acaba com o CNPJ e impede que as pessoas usem camisas de torcidas nos estádios, não adianta. Se milhares de brasileiros decidem ir para o futebol vestidos com camiseta amarela, ninguém pode impedir. É o que acontecerá se as organizadas acabarem. Os torcedores seguirão juntos. E sentando no mesmo lugar. Tentar separá-los pelos ingressos numerados. Eles vão desrespeitar porque os seus lugares nos estádios ninguém tira. Como já tentaram e voltaram atrás. Chegaram muito cedo e colocaram bandeiras e só quem fosse da organizada poderia sentar lá. E ponto final. As organizadas não vão acabar no Brasil.

Por que não há um trabalho de investigação a fundo para separar os criminosos, os traficantes das organizadas?

Não sei dizer. Estamos todos chocados com o que aconteceu na Pavilhão Nove. A imprensa vai divulgar, algumas autoridades vão falar, querer aparecer. Mas o que se passa com a nossa sociedade? As drogas, o tráfico não estão em todos os lugares? O que acontece no futebol não está desvinculado com o resto do Brasil. O problema é social. A impunidade é muito mais profunda. Sou militar e sei que a legislação deste país é duríssima. Porque não é aplicada para todas as camadas da sociedade? Não sei dizer. Em todo o Brasil há jovens sem rumo, sem estudo, sem trabalho, que vivem à margem da sociedade. Nas organizadas, muitas dessas pessoas que a sociedade rejeita se encontram. E se unem. Como hoje são milhares, nem os líderes da organizadas têm controle sobre eles. Fica impossível até saber quem são. A verdade é essa.

Quem deveria dar um jeito nisso, coronel?

Quem precisaria dar um jeito no Brasil, na nossa sociedade como um todo: os nossos governantes. A torcida é reflexo do que acontece no país. Se há droga, crime no Brasil, há droga e crime nas escolas, nas empresas, nas ruas, nas organizadas. Ou não é assim no país? Eu só repito uma coisa. Na teoria até as autoridades podem fazer festa e garantir que organizadas vão acabar. Baixar decreto, lei. Dizer que o problema está resolvido. Mas, na prática, elas não acabarão nunca mais. Nunca mais...

(As primeiras investigações mostram que os assassinos estariam atrás apenas de Fabio Neves Domingos. Ele seria traficante e teria sido detido mas subornado policiais para não ser preso há 20 dias. Mas acabou perdendo um carregamento de drogas. Teria sido morto por vingança. Os outros sete corintianos acabaram sendo mortos por causa dele. Esta pelo menos é a versão da Polícia Militar...)
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