140 As lágrimas silenciosas de Pelé. O patrimônio de mais de R$ 100 milhões não evitou que seu filho, Edinho, fosse preso. Acusado de associação ao tráfico e lavagem de dinheiro. O maior de todos os tempos se cala e faz o que todo pai faria. Chora...
"Sou um homem de Três Corações será difícil eu morrer."

Essa é uma das frases que Pelé mais gosta de repetir nas entrevistas.

Ele faz uma ironia nada sutil à cidade mineira na qual nasceu.

Mas esses três corações estão feridos.

Depois da morte de seu pai, Dondinho, em 1996, ver Edinho ser levado para a cadeia é a sua maior dor na vida. Os poucos e fiéis amigos próximos sabe. Esse é o assunto que o deixa mais angustiado, constrangido, deprimido.

E o leva às lágrimas.

Aos 76 anos, o maior atleta de todos os tempos não se conforma.

No dia 27 de agosto de 1970, o Brasil saudava em jornais, revistas, televisão, rádio. Nascia o herdeiro, o filho homem de Pelé. O clima era de total euforia pela conquista do tricampeonato mundial. A Ditadura Militar mentia sobre o "Milagre Brasileiro". Anunciava o crescimento absurdo do Produto Interno Bruno entre índices que iam de 9,8% a 14%! De uma maneira artificial. Comprometendo a economia, com subsídios que o país não suportava. E que fazia disparar a inflação. Foi a incompetência administrativa dos militares a principal motivação para entregarem o poder.

A projeção do FMI para o PIB do país em 2017 é de 0,2%.

Mas sob a falta atmosfera de 'o melhor país do mundo', 'ame-o ou deixe-o' e o único país 'abençoado por Deus', chegou Edson Cholbi Nascimento. Era simplesmente o filho do maior jogador de futebol que o mundo já viu. A conclusão lógica e forçada dos veículos de comunicação foi a mesma. Estava chegando ao mundo, o Pelezinho. Apelido rejeitado para tentar proteger a criança. Em vão.

Assim que desceu do berço, Edinho passou a ser pressionado. Sua vida, pública. Era só chegar uma bola aos seus pés e começava a cobrança. Familiares, amigos, vizinhos. Jornalistas. Todos queriam ter o privilégio de acompanhar o nascimento de um gênio do futebol.

Para desconsolo de todos, Edinho não tinha talento com a bola nos pés. Pior. Até preferia segurar aquele objeto esférico com as mãos. Foi assim que optou por ser goleiro. Seguiria no futebol que tanto gostava, mas fugia das comparações óbvias com o pai.

Mesmo debaixo das traves, Edinho não era nem de longe um 'fenômeno'. Goleiro baixo para a constante exigência do futebol. Mas o nome Pelé abre qualquer porta. Ainda mais no Santos Futebol Clube. Edinho teve todas as chances. Mas desde a base, não impressionou ninguém. Foi um goleiro que não deixou saudade por onde passou. Pela Vila Belmiro, em 1990 e 1991. Portuguesa Santista, São Caetano e Ponte Preta, onde encerrou a carreira sem o menor alarde, com 29 anos.

Se dentro de campo Edinho não merecia grandes reportagens nos cadernos esportivos dos jornais, ele passou a ser destaque no jornalismo policial. Para profundo desgosto de Pelé.

Na madrugada de 24 de outubro de 1992, um dia depois de seu pai completar 52 anos, houve um grave acidente na avenida Epitácio Pessoa, em Santos. Testemunhas viram Edinho e o motorista profissional Marcilio José Marinho de Melo disputar um racha. O carro dirigido por Marcílio atingiu a moto do aposentado Pedro Simões Neto. Ela se chocou com um poste. Pedro morreu na hora.

2reproducao5 1024x512 As lágrimas silenciosas de Pelé. O patrimônio de mais de R$ 100 milhões não evitou que seu filho, Edinho, fosse preso. Acusado de associação ao tráfico e lavagem de dinheiro. O maior de todos os tempos se cala e faz o que todo pai faria. Chora...

Foi um escândalo.

Edinho negou sequer que conhecia Marcilio.

Mas foi a julgamento.

Sua primeira sentença: seis anos de prisão.

Uma bancada de advogados recorreu.

E ele foi inocentado.

Mas familiares da vítima entraram na Justiça exigindo indenização. Na primeira instância, os dois motoristas foram condenados a pagarem à família do morto pensão mensal vitalícia equivalente a 2/3 de 12 salários mínimos e danos morais de 200 salários mínimos. Os advogados de Edinho recorreram. E perderam. A briga jurídica levou 12 anos.

Edinho foi várias vezes ao tribunal.

Com advogado, familiares, amigos.

Pelé nunca apareceu.

324 As lágrimas silenciosas de Pelé. O patrimônio de mais de R$ 100 milhões não evitou que seu filho, Edinho, fosse preso. Acusado de associação ao tráfico e lavagem de dinheiro. O maior de todos os tempos se cala e faz o que todo pai faria. Chora...

Ao abandonar a carreira em 1999, disse que estava com dúvidas.

Mas queria continuar no futebol.

Estava dividido entre ser treinador ou empresários de atletas.

Mas não seria por nenhuma dessas escolhas que Edinho voltaria às manchetes.

Em junho de 2005, policiais do Departamento de Investigações sobre Narcóticos anunciou a prisão de 52 pessoas. Todas envolvidas com Ronaldo Barsotti Duarte de Freitas, o Naldinho, acusado de chefiar uma quadrilha de tráfico de drogas e usar uma revenda de automóveis na zona leste da capital para lavagem do dinheiro.

Naldinho também foi o principal suspeito de organizar o sequestro da mãe de Robinho, em 2004. O criminoso era amigo de vários jogadores de futebol. Entre eles, o próprio Robinho.

Foi esse laço de amizade que Edinho tentou usar para fugir da prisão.

Só que a operação batizada de Indra (caçadores de dragões) teve acesso a cerca de 120 telefonemas dados por Naldinho. Nos trocados com Edinho, o Denarc não teve dúvidas que o filho de Pelá falava sobre tráfico de cocaína e lavagem de dinheiro. Sua defesa foi alegar que era usuário de drogas e não traficantes.

Mas ficou seis meses preso até obter um habeas corpus no STF. Passou a trabalhar na Comissão técnica do Santos. Em fevereiro de 2006, porém, o Ministério Público denunciou o ex-goleiro por lavagem de dinheiro. Voltou a ir para a cadeia. Teve novo habeas corpus no dia 28 de dezembro de 2006.

Enquanto o filho entrava e saía da prisão, Pelé seguia calado.

Não tocava no assunto.

4reproducao7 As lágrimas silenciosas de Pelé. O patrimônio de mais de R$ 100 milhões não evitou que seu filho, Edinho, fosse preso. Acusado de associação ao tráfico e lavagem de dinheiro. O maior de todos os tempos se cala e faz o que todo pai faria. Chora...

E veio o julgamento, em maio de 2015, nove anos depois da denúncia. E o resultado foi terrível. Edinho foi condenado a 33 anos e quatro meses, por tráfico e lavagem de dinheiro. Além dele, Clóvis Ribeiro, o "Nai"; Maurício Louzada Ghelardi, o "Soldado"; Nicolau Aun Júnior, o "Véio"; e Ronaldo Duarte Barsotti, o "Naldinho. Naldinho, foragido, foi identificado como um dos comandantes do Comando Vermelho e responsável pela distribuição de cocaína na Baixada Santista.

Advogados entraram com recurso de apelação outra vez. Edinho seguiu libertado. Tentou trabalhar como treinador no Mogi Mirim, no Água Santa e no Tricordiano, este ano. Acabou demitido dos três.

A espera pelo recurso do julgamento de 2015 acabou ontem. Os 33 anos se transformaram em 12 meses e dez meses, em regime fechado. E ele voltou para a cadeia. Antes falou para o batalhão de jornalistas que o esperavam.

"Estou frustrado, pois estou sendo massacrado pela Justiça, mas eu preciso confiar nessa mesma Justiça e tenho certeza que, com o tempo, as coisas vão se acertar. A frustração é grande, porque estou sendo acusado de lavagem de dinheiro, mas eu nunca fiz isso. Não tem nenhuma prova no processo sobre isso.

"O argumento é sobre a minha amizade, de certa forma intimidade com outros acusados. Eu nunca neguei isso, mas nunca lavei dinheiro. O argumento para condenação é simplesmente amizade. E fica difícil aceitar e passar por tudo que estou passando por mais de 15 anos. Eu tenho vergonha, me arrependo da minha imprudência, mas eu não cometi crime. Eu sou forte, vou superar e dar a volta por cima."

Disse e entrou para a cadeia que fica anexa ao 5º Distrito Policial de Santos.

624 As lágrimas silenciosas de Pelé. O patrimônio de mais de R$ 100 milhões não evitou que seu filho, Edinho, fosse preso. Acusado de associação ao tráfico e lavagem de dinheiro. O maior de todos os tempos se cala e faz o que todo pai faria. Chora...

A situação é complicadíssima.

Porque a redução de pena foi o resultado da apelação dos 33 anos e dez meses.

Enquanto os advogados de Edinho estudam o que fazer, Pelé se cala.

E, se acordo com seus amigos, tem a mais primária reação de um pai.

Chora.

Como não chorou na morte de Sandra Regina.

Filha que não quis ver.

Nem à beira da morte, com câncer aos 42 anos.

Apesar de o exame de DNA comprovar a ligação de sangue com ela.

Assim como não derramou uma lágrima com a situação dos netos.

Os filhos de Sandra tinham péssimas condições financeiras.

Não os ajudou de livre e espontânea vontade.

O 'defensor das criancinhas' foi condenado.

Tem de contribuir com a educação de Octávio e Gabriel.

516 As lágrimas silenciosas de Pelé. O patrimônio de mais de R$ 100 milhões não evitou que seu filho, Edinho, fosse preso. Acusado de associação ao tráfico e lavagem de dinheiro. O maior de todos os tempos se cala e faz o que todo pai faria. Chora...

São sete salários mínimos, R$ 6.615,00 a cada um.

É só o dinheiro.

Pelé não quer o menor contato com os filhos de Sandra.

Sempre foi assim, desde que nasceram.

O patrimônio pessoal de Pelé é avaliado em cerca de R$ 100 milhões.

Mas tanto dinheiro não foi suficiente.

Nem para evitar o vexame provocado pelo processo envolvendo os netos.

E, principalmente, livrar seu filho mais velho da cadeia.

Da ligação de Edinho com traficantes.

Só resta ao maior jogador de todos os tempos se calar.

Olhar um quadro que guarda com carinho na sua mansão.

Encarar Dondinho e Edinho.

E chorar.

O homem que mandou o Brasil cuidar de suas crianças...

Não cuidou da sua...
711 As lágrimas silenciosas de Pelé. O patrimônio de mais de R$ 100 milhões não evitou que seu filho, Edinho, fosse preso. Acusado de associação ao tráfico e lavagem de dinheiro. O maior de todos os tempos se cala e faz o que todo pai faria. Chora...

http://r7.com/EFo9