320 1024x576 Ameaças de morte. Coação. Medo. Boletim de Ocorrência. O Cruzeiro virou caso de polícia
"Cosme, você tem ideia do que é ser ameaçado de morte? A sério. Ouvir o recado que uma pessoa vai te matar. Nunca pensei que passaria por isso na minha vida. Tenho família. Não quero nunca mais trabalhar com futebol. Não no Brasil. Tenho meios. Se quiser, compro um clube na Europa. Aqui, neste país, nunca mais.

"Fui ajudar o time do meu coração, o Cruzeiro, que passava por dificuldades financeiras e o que recebo é ameaça de morte? Eu demorei para fazer o B.O. porque pensei no quanto seria ruim para o meu clube. Mas decidi denunciar para me precaver. Se algo acontecer comigo, as pessoas sabem quem me ameaçou."

É mais do que surreal. Esta declaração exclusiva é do ex-vice-presidente de futebol do Cruzeiro, Bruno Vicintin. Ele é filho de Ricardo Vicintin, dono do grupo Rima, uma das maiores empresas do Brasil. Bruno fez um boletim de ocorrência citando Itair Machado, o novo executivo de futebol do clube, escolhido pelo presidente eleito Wagner Pire. O ex-presidente do Ipatinga assumirá no início do próximo ano. Herdará o cargo que era de Vicintin.

A cena descrita por Vicintin remete a um filme policial. No dia 13 de novembro, o telefone tocou na sede da diretoria cruzeirense. Estavam na sala o presidente Gilvan de Pinho Tavares; o superintendente da base, Antônio Assunção; o primeiro secretário do Conselho, Dalai Rocha; o segundo secretário do Conselho, José Gustavo Gatti; e o segundo vice-presidente eleito para o triênio 2018/20, Ronaldo Granata.

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Bruno descreveu a cena no B.0. que o blog teve acesso. "Doutor Lemos, eu odeio o Bruno Vicintin e queria que o senhor desse um recado a ele. Diga a ele que se ele não parar de falar de mim na internet, eu vou matar ele."

"Eu não concordo com a maneira como ele toca o futebol. Não acho que é a pessoa ideal para trabalhar no clube. O Tinga também não. Por isso deixou o clube. Nunca escondi isso. Mas não vou falar mais sobre isso. Fiz o B.O. e vou até o final", disse o ex-vice presidente ao blog.

A ESPN/Brasil fez uma devassa na vida de Itair. (...) Ele já foi condenado a três anos e meio de prisão após ser acusado pelo Ministério Público Federal de crimes da ordem tributária que movimentaram mais que R$ 10 milhões no fim dos anos 90, ou quase R$ 4 milhões em tributos que não foram pagos.

A sentença é do fim de 2014 e foi dada pela juíza federal Rogéria Maria Castro Debelli, da 4ª Vara da Justiça de Minas Gerais. E também teve várias outras acusações.

Em outra ação, distinta à dos bingos, o dirigente é acionado pelo Ministério Público de Minas Gerais, ao lado do município de Ipatinga, do Betim Esporte Clube (hoje Ipatinga Futebol Clube, que foi fundado e presidido por Itair) e outras duas pessoas, por convênios com graves irregularidades.

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Em uma decisão de 15 de setembro de 2014 ao qual a reportagem teve acesso, a Justiça deferiu liminar do MP para determinar busca e apreensão dos documentos comprobatórios dos recursos recebidos por meio de contratos firmados entre os anos de 2009 e 2011 entre Ipatinga Futebol Clube (que então chamava-se Betim) e o município de Ipatinga.

Esse processo tem o valor de R$ 5,24 milhões e constava registrado como improbidade administrativa e enriquecimento ilícito.

Já em "dossiê judicial" ao qual a reportagem teve acesso, constam enumerados dezenas de processos contra o dirigente movidos ao longo dos anos por distintas entidades, como o Banco de Crédito Nacional (dois, um de R$ 18.411,65 e outro de R$ 95.066,44), outro por despejo de pagamento e pelo menos mais 17 trabalhistas de diferentes pessoas. Ao todo, podem chegar a 40 o número de ações contra Itair, parte delas dos tempos de Ipatinga.

Em 2008, chegou a ser acusado de corrupção em jogo do Ipatinga contra o Villa Nova, pelo Campeonato Mineiro daquele ano. O goleiro do time rival foi à imprensa dizer que recusou R$ 30 mil para entregar a partida, mas outros jogadores aceitaram. O clube de Itair, contudo, acabou derrotado. (...)

Só que dois jornalistas também foram ameaçados. E por pessoas que não querem que escrevam sobre Itair. A primeira é Rodrigo Genta, ex-funcionário da TV Cruzeiro e ex-editor-chefe de Os Donos da Bola.

"Eu escrevi um post contra o Itair nas redes sociais. Foi o que bastou para receber ameaças contra mim, contra a minha família, minhas crianças. Fiz o Boletim de Ocorrência na hora, foi na semana passada. É como se o tempo do faroeste voltasse. Só que Belo Horizonte não é Ipatinga. Intimidações aqui não funcionam. E repercutem no Brasil todo. Por isso você está me entrevistando, Cosme.

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"Vou passar as mensagens que recebi por whatsapp. Eu as entreguei para a polícia. Pode publicar. Não foi o Itair, mas foi de pessoas ligadas a ele, que querem defendê-lo. Essa pessoa não poderia trabalhar no Cruzeiro", me diz Rodrigo Genta.

O outro ameaçado foi Luiz Fernando Lécio, responsável pelo blog dos torcedores do do Cruzeiro, no portal da ESPN. "As ameaças chegaram depois que fiz um post contra o Itair. Me avisaram para que eu não escrevesse mais nada sobre ele. Me ligaram e também telefonaram no meu trabalho. Falaram que se eu continuasse, iriam me passar no cerol", disse Luiz, ao blog.

Telefonei para Itair e deixei recado. Falei da matéria, das acusações. Mas não houve resposta.

Itair diante do Boletim de Ocorrência de Vicitin protocolou uma queixa-crime no Juizado Especial Criminal de Belo Horizonte. Ele acusa Vicintin de calúnia pelas declarações dadas à imprensa na última quarta-feira.

Nunca um clube brasileiro viveu situação parecia.

Com dirigente acusando outro de ameaça de morte.

Nem jornalistas assumindo coação em nome de dirigente.

Com requintes de crueldade, envolvendo vidas de crianças.

O Cruzeiro Esporte Clube não merece esta humilhação...
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