126 Acabou o improviso e a história de coitadinhas.  A Seleção não será mais dependente da Marta. O Brasil é um país preconceituoso. Isso trava o futebol feminino. Exclusiva com Emily Lima, a primeira mulher técnica da Seleção Feminina...
"Acabou a história de coitadinhas. O futebol feminino do Brasil não precisa de dó. Não quero ver mais nenhuma jogadora chorando por falta de apoio. Precisamos valorizar o que temos, viver a realidade. Chega de sonhos vazios.

"Sei que a grande maioria dos clubes populares do Brasil não quer formar times de futebol feminino. Vários estão se articulando para enfrentar a obrigatoriedade da Conmebol, do Profut. É uma mistura de preconceito, ignorância, falta de visão e acreditar que é um esporte caro. Se a Crefisa gastasse 1% do colocará no Palmeiras este ano, seria suficiente para montar uma equipe fortíssima. 1%!"

"O Brasil é um país preconceituoso. Isso trava o futebol feminino. Vale lembrar que ele foi proibido por décadas. Proibido! As jogadores eram consideradas criminosas. Isso durou mais de 30 anos. Só foi liberado no final da década de 70. Uma loucura. Era uma atividade que deixaria a mulher masculinizada. Esta marca ficou até hoje. Como se o esporte fosse definir a sexualidade de alguém. Isso tem de acabar. Sei de histórias de pais que não querem deixar suas filhas jogarem futebol por medo que fiquem masculinizadas. Isso é uma bobagem. O futebol feminino tem de acabar com esse estigma. Meninas do vôlei e do basquete têm suas namoradas e ninguém fala nada. A Mari tira foto beijando uma garota no Lollapalooza, coloca nas redes sociais. E tudo bem. O problema é o futebol feminino? Não é..."

"A Seleção Brasileira não será mais dependente da Marta. Não é justo com ela e nem com a Seleção. Será algo parecido com o que acontece com o Neymar na Masculina. O potencial da Marta é excelente e servirá ao time. O importante daqui para a frente será o conjunto. A estratégia, a cumplicidade do grupo. E a preparação física. Na Seleção sob meu comando só quero jogadoras com até 13% de índice de gordura. Preciso de atletas e no auge de sua forma. Seja quem for. Todas estão avisadas. Vale desde a mais jovem reserva até a Marta.

"Não me iludo. Sei que se o Brasil for campeão da Olimpíada ou da Copa do Mundo, não haverá uma revolução. Muito menos tudo mudará. As pessoas que pensam assim não conhecem a realidade do futebol feminino. O Brasil foi medalha de prata em Atenas e em Pequim. Chegar à final de duas Olimpíadas é uma façanha. E não mudou absolutamente nada. A não ser que pessoas covardes colocaram o rótulo de amarelonas nas meninas. Um tremendo desrespeito de gente ignorante."

Essas são apenas algumas declarações da técnica da Seleção Brasileira de Futebol Feminino. Em uma conversa franca e exclusiva, Emily Lima mostrou sem meias palavras a revolução que está promovendo. Quase na clandestinidade, porque o esporte não tem qualquer visibilidade no país. Há uma rejeição natural.

Emily revela a falta de estrutura dos clubes, o afastamento da CBF. Só o Santos e o América Mineiro são profissionais, o que é estarrecedor. Preconceito dos clubes populares masculinos. Falta de interesse dos veículos de comunicação. Êxodo dos grandes talentos para a Europa.

E dentro desse cenário, há a cobrança insana pelo ouro olímpico.

Pela conquista da Copa do Mundo.

A entrevista foi surpreendente.

O Brasil está sob o comando de uma mulher digna.

E com uma visão privilegiada dos inúmeros problemas do futebol feminino.

215 Acabou o improviso e a história de coitadinhas.  A Seleção não será mais dependente da Marta. O Brasil é um país preconceituoso. Isso trava o futebol feminino. Exclusiva com Emily Lima, a primeira mulher técnica da Seleção Feminina...

Emily, vou começar pela pergunta óbvia. Por que finalmente uma mulher no comando do Seleção Brasileira? A minha impressão era que o cargo era reservado a treinadores envelhecidos, sem espaço na elite do futebol masculino. Como o falecido Zé Duarte, Vadão, Renê Simões...

A decisão foi do presidente Marco Polo del Nero. Ele quebrou uma tradição. Eu fiz um grande trabalho no São José, clube tradicional do interior de São Paulo. Fui técnica da Seleção Brasileira Feminina sub 15 e sub 17. Abandonei a Seleção porque ganhava por competições. E elas eram muito poucas durante o ano. Não tive dúvidas, pedi demissão. Voltei agora como técnica da Seleção principal em outras condições de trabalho, que me permitem me dedicar sem a preocupação com as contas no final do mês. Eu também tenho uma grande experiência como jogadora. Atuei em Portugal, na Espanha e na Itália. Apesar de ter apenas 36 anos, essa vivência me permite ter uma visão profunda do futebol feminino no Brasil. Real. Não cheguei na Seleção por acaso.

O que acrescenta ter uma mulher no comando da Seleção?

Não é só por ser mulher. Mas por ter sido uma jogadora de carreira importante e ser técnica. As jogadoras estavam desejando uma mulher. Eu conheço profundamente o futebol feminino. Vivi os principais problemas. Tive, por exemplo, de me naturalizar portuguesa, atuar na seleção de lá porque havia protecionismo dentro da Seleção Brasileira. Fora outros vários erros que posso ajudar a corrigir. Sinto que as meninas gostaram muito da ideia. E estão empenhadas. Compraram a minha ideia de formar um grupo forte. De muita cobrança interna para fazer o Brasil melhorar seu patamar. Hoje, a nossa situação está refletida no ranking da Fifa. Somos apenas o nono. Precisamos crescer. E nosso planejamento é muito sério. Firme. Temos o direito à melhor preparação. Não ficamos nada mais a dever em relação aos homens. As condições na Granja Comary são as mesmas do time de Tite. Temos relatórios das melhores jogadores que atuam na Europa. Vou viajar para observá-las pessoalmente, como faço em todo o Brasil.

Uma das suas primeiras atitudes foi acabar com a Seleção permanente. Por quê?

Porque não tem cabimento. As principais jogadoras estão na Europa, Ásia, Estados Unidos. E só são liberadas na data-Fifa. Ficávamos treinando com dez, quinze jogadores. Todas daqui, do Brasil. E quando chegavam as competições, não eram convocadas porque as de fora eram muito melhores. A nossa preparação mudou de verdade. Conseguimos relatórios semanais das atletas mais importantes que estão no Exterior. Dados físicos, como estão jogando, tudo muito detalhado. Detesto improviso. Estamos deixando registrados esses relatórios. Quando eu sair da Seleção, o próximo treinador encontrará dados importantíssimos de centenas de jogadoras. Quando assumi não havia relatório algum. Além disso, o Brasil fará amistosos com as principais seleções do mundo, antes da Copa do Mundo em 2019 e Olimpíada em 2020. E devo observar valores importantes que estão atuando em times do Exterior.

37 Acabou o improviso e a história de coitadinhas.  A Seleção não será mais dependente da Marta. O Brasil é um país preconceituoso. Isso trava o futebol feminino. Exclusiva com Emily Lima, a primeira mulher técnica da Seleção Feminina...

A Seleção Feminina será dependente de Marta até quando?

O Brasil já não mais depende de Marta. Ele é uma jogadora fabulosa. Não ganhou cinco vezes como melhor jogadora do mundo à toa. É um privilégio ter alguém de tanta técnica no time. Mas não tem essa história de dependência. Não é justo com ela e nem com a Seleção. Será algo parecido com o que acontece com o Neymar na Masculina. O potencial da Marta é excelente e servirá ao time. O importante daqui para a frente será o conjunto. A estratégia, a cumplicidade do grupo. E a preparação física. Na Seleção sob meu comando só quero jogadoras com até 13% de índice de gordura. Preciso de atletas e no auge de sua forma. Seja quem for. Todas estão avisadas. Vale desde a mais jovem reserva até a Marta. Eu conversei muito com ela. E ela não só comprou a minha ideia como está muito empolgada com o momento que a Seleção Feminina vive.

Qual é o real patamar da Seleção Brasileira Feminina?

Somos o nono do mundo no ranking da Fifa. Não por acaso. Caímos nas quartas das Olimpíadas e da Copa do Mundo. Este é o nosso lugar real. Precisamos reconhecer e melhorar. A minha meta é superar os nossos adversários e dar um salto de qualidade. Vamos fazer o máximo para tentar ganhar as competições que vamos disputar. Mas o combinado com Marco Polo del Nero é ir além das quartas-de-final. Chegar às semis, às decisões. Melhorar com consistência, base. Não adianta prometer título sem estrutura.

Teve algum contato com o Tite?

Eu quero muito ter mais proximidade. Mas sei que ele está trabalhando muito, reformulando de verdade o futebol masculino. A cobrança é imensa. Seu trabalho é uma inspiração para mim. Respeito a sua dedicação e estou esperando o momento propício para ter várias conversas com ele. Eu tenho trocado muitas ideias com o Edu Gaspar. Seu conhecimento é enorme. O período que passou na Inglaterra e coordenando o Corinthians o deixou preparado para grandes desafios com a Seleção. Ele está me passando tudo que pode. Me ajudando a planejar os passos da Seleção Feminina. A observação das jogadoras no Exterior. Mesmo as que estão surgindo. E a marcação de amistosos. Vamos enfrentar as melhores do mundo até a Olimpíada e a Copa. O trabalho é árduo e profundo, Cosme. Quero deixar raízes para quem vier no meu lugar no futuro. Não podemos ser amadores em um país onde o futebol é tão importante. Sei que a imprensa questiona e cobra muito a CBF. Mas faço questão de dizer. Não está me faltando nada para reformular o trabalho na Seleção Feminina. Nada. Usamos a Granja Comary, ficamos nos melhores hotéis, temos a melhor alimentação, o melhor plano de voo. Premiação, diárias. Tudo como tem de ser.

Você sabe que os clubes não querem formar times femininos, apesar da obrigatoriedade do Profut e da Conmebol? Eles se organizam para fugir dessa obrigação...

Sei que a grande maioria dos clubes populares do Brasil não quer formar times de futebol feminino. Vários estão se articulando para enfrentar a obrigatoriedade da Conmebol, do Profut. É uma mistura de preconceito, ignorância, falta de visão e acreditar que é um esporte caro. Se a Crefisa gastasse 1% do colocará no Palmeiras este ano, seria suficiente para montar uma equipe fortíssima. 1%! É algo lastimável. Já que existe o vôlei masculino e feminino. O basquete masculino e feminino. Não vejo porque não futebol masculino e feminino.

410 Acabou o improviso e a história de coitadinhas.  A Seleção não será mais dependente da Marta. O Brasil é um país preconceituoso. Isso trava o futebol feminino. Exclusiva com Emily Lima, a primeira mulher técnica da Seleção Feminina...

Emily, você ficaria contrariada quando dizem que o futebol feminino é desinteressante? As traves são grandes. O campo parece imenso para as jogadoras. O lado tático é muito fraco. O potencial físico é muito diferente dos homens. E tira a graça dos jogos.

Essa sua colocação se relaciona com o passado. Hoje não é mais assim. O futebol da elite na Europa e das grandes seleções é muito competitivo. Temos ótimos times por aqui, também. Fora a Seleção Brasileira. É uma pena que o futebol da elite não chegue até o Brasil. A televisão aberta faz muita falta. Eu cheguei a jogar no São Paulo Futebol Clube quando o presidente da Federação Paulista, o Farah, tinha acordo com a Band. Ele incentivava porque a sua mulher gostava muito. Isso precisaria voltar. Incentivaria o nosso esporte.

Como diminuir a rejeição dos clubes ao futebol feminino?

Fazer os dirigentes entender que ele é barato, como eu já disse. E pode ser muito lucrativo. Com o profissionalismo implantado de verdade, por exemplo no Santos e no América Mineiro, acabou aquela história de formar jogadoras e ela ir de graça para a Europa, para a Ásia. Há os direitos registrados na CBF. Uma grande jogadora pode valer milhões de reais. Antes ela saia de graça. Há muita desinformação. Os clubes podem fazer das meninas uma grande fonte de renda, como são os meninos. Há muito o que esclarecer. Por isso aceitei dar essa entrevista. As pessoas precisam saber o real potencial do futebol feminino. É dinheiro que está sendo desperdiçado.

O futebol feminino é estigmatizado. O quanto o sexismo atrapalha?

O Brasil é um país preconceituoso. Isso trava o futebol feminino. O esporte foi proibido por décadas. Proibido! As jogadores eram criminosas. Isso durou mais de 30 anos. Só foi liberado no final da década de 70. Uma loucura. Era uma atividade que deixaria a mulher masculinizada. Esta marca ficou até hoje. Como se o esporte fosse definir a sexualidade de alguém. Isso tem de acabar. Sei de histórias de pais que não querem deixar suas filhas jogarem futebol por medo que fiquem masculinizadas. Isso é uma bobagem. O futebol feminino tem de acabar com esse estigma. Meninas do vôlei e do basquete têm suas namoradas e ninguém fala nada. A Mari, da Seleção Brasileira de Vôlei, tira foto beijando uma garota no Lollapalooza, coloca nas redes sociais. E tudo bem. O futebol feminino não pode ficar marcado.

514 Acabou o improviso e a história de coitadinhas.  A Seleção não será mais dependente da Marta. O Brasil é um país preconceituoso. Isso trava o futebol feminino. Exclusiva com Emily Lima, a primeira mulher técnica da Seleção Feminina...

Você acredita que, se conseguir um título importante, o futebol feminino mudará no Brasil?

Não me iludo. Sei que se o Brasil for campeão da Olimpíada ou da Copa do Mundo, não haverá uma revolução. Tudo mudará. As pessoas que pensam assim não conhecem a realidade do futebol feminino. O Brasil foi medalha de prata em Atenas e em Pequim. Chegar à final de duas Olimpíadas é uma façanha. E não mudou absolutamente nada. A não ser que pessoas covardes colocaram o rótulo de amarelonas nas meninas. Um tremendo desrespeito de gente ignorante. Eu vou fazer de tudo para a Seleção ir o mais longe possível, disputar para ganhar qualquer competição. Mas não me iludo em relação ao reflexo na população. Pode ser que mude para os clubes. Há um afastamento da CBF, que é preciso acabar. Por muito tempo os dois lados estiveram afastados. Não tem cabimento. Os dois lados estão perdendo.

O que você não tolera na Seleção?

Acabou a história de coitadinhas. Toda competição que a Seleção perdia era a mesma coisa. O futebol feminino do Brasil não precisa de dó. Não quero ver mais nenhuma jogadora chorando por falta de apoio. Precisamos valorizar o que temos, viver a realidade. Chega de sonhos vazios.

Muito se comenta que o Brasil fracassou nas competições que disputou por causa da falta de força psicológica. Você concorda?

Concordo. Tanto que fiz questão de trazer uma coach esportiva para a minha Comissão Técnica. Ela se chama Sandra Santos. Seu trabalho é excelente. As jogadoras estão gostando muito. Tenho certeza que a Seleção estará forte fisicamente, taticamente e psicologicamente para o que vier pela frente.

E o seu futuro?

Sei muito bem o que quero da minha carreira. Acredito em um ciclo de quatro anos na Seleção Brasileira. E depois quero trabalhar em um time grande da Europa. Já joguei por lá. Eu quero evoluir como técnica ir para a elite do futebol feminino no mundo. Só que antes vou fazer o máximo para aproveitar o excelente potencial técnico das jogadoras brasileiras. Chega de improviso e coitadinhas...
1tiaomartinspmsjc Acabou o improviso e a história de coitadinhas.  A Seleção não será mais dependente da Marta. O Brasil é um país preconceituoso. Isso trava o futebol feminino. Exclusiva com Emily Lima, a primeira mulher técnica da Seleção Feminina...

http://r7.com/wyRK