Agencia Estado12 Acaba logo, São Silvestre, nós queremos o nosso triste Minhocão de volta...
São Paulo.

Último dia do ano.

São Silvestre.

Prova mais tradicional de rua do Brasil.

Era também a mais charmosa.

Era.

Disputada à noite, parecia encantada.

Mas o dinheiro seduziu os organizadores.

E para não atrapalhar a grade de programação da Globo, passou para a tarde.

Deram a esfarrapada desculpa de que os corredores preferiam assim, uma mentira.

E vamos que vamos...

É rara a presença dos melhores corredores do mundo na prova.

Por dois motivos.

O primeiro é o mais óbvio.

Para dar chance aos brasileiros, a premiação é baixa.

Sim, para dar chance a nossos atletas.

Pagar pouco espanta a nata dos atletas do exterior.

Um ou outro que resolve passar o Réveillon no Brasil decide passar pela avenida Paulista.

A prova não tem a menor relevância internacional.

O segundo motivo que espanta a elite dos corredores está na distância do percurso.

Cerca de 15 quilômetros.

Menos que a metade de uma maratona, 42 quilômetros.

Treinar especificamente para a São Silvestre seria uma enorme bobagem para um atleta de alto nível.

O trajeto é curto até em função da transmissão da TV.

Há a certeza de que poucos acompanhariam a prova inteira se fosse uma maratona.

Eu cobri uma São Silvestre em que a segunda colocada deixou o troféu para a sua tradutora brasileira.

Não quis levar para o seu país, muito transtorno por nada no avião.

Coloquei a matéria na capa do jornal.

Acreditava haver descoberto a pólvora, mas a atitude não era assim tão incomum.

Chips descartáveis dão um ar de modernidade.

E são para inglês ver.

A cena mais triste da São Silvestre assisti ontem e ela se repete todos os anos.

Parte da prova acontece no Minhocão - ou elevado Costa e Silva, nome pomposo que ninguém usa.

É uma via elevada que foi construída para diminuir o congestionamento no centro de São Paulo.

Foi feito às pressas em 1969 pelo prefeito Paulo Maluf, preocupado em passar a imagem de empreendedor.

O Minhocão assassinou o centro de São Paulo.

Desvalorizou uma área que chegou a ser nobre.

A pista onde milhares de carros passam fica a apenas cinco metros dos apartamentos.

Isso no quarto, quinto andar!!!!

Um crime impune.

Valia tudo na loucura para tentar a presidência da República.

Maluf deveria ser obrigado a morar em um desses apartamentos e ficar ouvindo as buzinas e respirando fumaça enquanto almoça.

É um viaduto horroso, feito às pressas, sem o menor cuidado.

Não foi por acaso que Fernando Meirelles o escolheu como cenário do filme Ensaio sobre a Cegueira.

Locação perfeita de tão feia, tenebrosa, asquerosa.

O Minhocão virou teto de vários mendigos, desvalidos.

Embaixo deles, eles passam o ano dormindo, cozinhando, com tijolos fazendo o papel de fogão.

Colchões rasgados espalhados e muito jornal e papelão fazendo o papel de cobertores.

Só que como a TV Globo transmite a São Silvestre para o Brasil todo, chegou a hora de limpar o Minhocão.

E embaixo também, lógico.

Imagine a cena: os quenianos lutando pela primeira colocação, e em um take mostra os corredores em cima e, abaixo, uma mãe magérrima dando de mamar a seu flho.

Ao lado um cachorro ainda mais esquelético esperando, amarrado com uma corda.

Ou vários garotos dormindo depois de cheirar cola, enrolados em panos furados de tão velhos.

E os tijolos esquentando algo parecido com uma sopa em uma late enorme de óleo.

Isso ninguém vai ver.

Porque a PM espantou a todos com jatos fortíssimos de água.

E limparam tudo.

Os mendigos e desvalidos não tiveram nem força para reclamar.

Procurar quem para os acudir?

O que importa é a São Silvestre.

Eles sabem.

Depois que a corrida acabar, basta voltar.

Todo ano é a mesma coisa.

A mesma mentira.

Não importa o prefeito, os policiais.

Quando termina a São Silvestre, os carros voltam a circular ao lado dos apartamentos, jogando fumaça tóxica na sala de jantar, nos quartos.

Os meninos sem pais poderão deitar e delirar com o efeito da cola, apertando seus panos miseráveis.

E o os tijolos voltarão a ser fogões.

O menino quer mamar em paz...

E nós paulistanos vamos continuar virando o rosto, fingindo que nada enxergamos.

Já estou com saudade...

Acaba logo, São Silvestre...

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