divulgacao936  A Polícia vai investigar a morte de Wendel. Quer saber por que não havia médico, ambulância, desfibrilador para os meninos. O seu Antônio e a dona Rita também...
A dor de perder um filho deve ser descomunal.

Vai contra a Natureza.

Os pais deveriam ir embora primeiro.

Mas a dor deve ser muito pior, terrível, quando há a sensação que a morte poderia ser evitada.

No velório de Wendel Junior Venâncio da Silva, de 14 anos, a tristeza se misturava com a revolta contida.

A grande esperança da família pobre estava deitada em um caixão.

As cem pessoas no velório atestavam que ele havia virado celebridade da pior maneira.

A celebridade do dia de São João Nepomuceno em Minas Gerais.

Do Vasco, seu time do coração, tudo o que ele conseguiu trazer foi uma bandeira.

Ela cobria o seu leito de morte.

O jovem garoto era atacante e havia prometido: seus testes no Vasco mudariam a vida da família.

Mudaram.

Ele era o destaque na sua cidade.

Artilheiro de todos os campeonatos que participava.

Sonhava em ser jogador profissional.

Quem o viu, disse que misturava vontade com oportunismo.

Ganhou o direito de participar de três testes com os garotos do Vasco.

Era a grande chance de sua curta vida.

Foi acompanhado com os amigos Saulo e Cássio.

Eles também seriam testados.

Um na lateral e outro também no ataque.

O ex-lateral vascaíno, Ayupe, treinava Wendel há seis anos.

E foi ele quem convidou os olheiros do clube para observar seus garotos.

Escolheram os três.

Mal chegou no Rio, Wendel ficou encantado.

Tirou com os jogadores profissionais.

E foi no Zoológico.

Iria colocar as fotos na Internet.

Não deu tempo.

Para fazer os testes no Vasco e em qualquer clube do Brasil, o garoto só precisa de um atestado médico.

Entregou o papel, ele fica registrado na secretaria.

Ninguém vai sequer verificar ao menos se é verdadeiro ou não.

E mais: não é possível submeter os meninos que chegam a avaliações médicas.

São muitos garotos, se defendem os clubes.

Os adolescentes de origem pobre sabem que estão diante da grande chance da vida.

E costumam dar tudo o que o seu jovem organismo permite.

Vão no limite extremo.

Sabem que não podem falhar.

O Rio de Janeiro vive um verão senegalesco.

A Comissão Técnica vascaína confirma que Wendel se alimentou antes do treinamento.

Revela que não foi um café da manhã dos deuses.

Mas leite e bolacha, os responsáveis pelos meninos garantem.

Leite e bolacha.

O garoto já havia feito um teste.

O de ontem era o segundo.

Começou às 9h30.

Sabia que teria de ir muito melhor.

Havia o calor insuportável, a fraca alimentação e a enorme pressão psicológica.

E a possibilidade de ter uma doença congênita, quem poderia saber...

Wendel estava no começo do treino, testemunhas dizem em pouco mais de dez minutos...

Quando caiu e começaram as convulsões.

Aí é que entra a irresponsabilidade vascaína e da maioria dos clubes brasileiros.

Não havia sequer um médico no Centro de Treinamento de Itaguaí.

Nenhum.

Wendel e os demais meninos estavam expostos à própria sorte.

A única providência que a Comissão Técnica pôde fazer foi tirar o garoto do CT.

O treinador Cássio, também ex-lateral vascaino, o levou no próprio carro.

Lógico que, se não havia médico, ambulância também não havia.

E o levou para o Pronto Socorro.

Lá ele morreu.

Ou chegou morto, não há definição clara sobre a situação.

Depois só desespero, tristeza e dor.

Dos integrantes da Comissão Técnica vascaína.

E da família do garoto.

O humilde pai do menino, Antônio Carlos da Silva, ainda agradeceu ao Vasco por ter dado a chance a Wendel.

E que o clube não devia nada a ele e nem a sua família.

Falou a jornalistas no velório e se sentou.

Logo desmaiou de tristeza.

O choro da mãe, Rita de Cássia da Silva, não parou desde que seu filho voltou morto.

A polícia promete investigar as condições da morte.

Se houve negligência do Vasco.

E o porquê de não haver sequer um médico durante o treinamento.

Uma ambulância equipada.

Ou ao menos aparelhos como um desfibrilador que pudessem ser usados para tentar salvar Wendel.

Ainda no CT, como seria o certo, e não levá-lo até um Pronto Socorro.

Caro delegado Julio Cesar Vasconcellos da Costa...

O senhor deveria investigar os grandes clubes do Brasil todo.

E fazer as mesmas perguntas.

São desumanas as condições com que os garotos são submetidos.

A negligência do Vasco salta aos olhos.

Mas infelizmente, é apenas mais um.

Não há o menor cuidado.

Porque os dirigentes sabem que de cem, um vai dar lucro.

O restante que se vire.

Os meninos não têm qualquer vínculo com o clube.

Estão apenas fazendo testes.

A bandeira que ficou em cima do caixão de Wendel foi até lucro.

Legalmente, o Vasco não precisava dar nada para o menino.

De uma maneira fria, calculista, foi Wendel quem se arriscou.

Basta torcer que ele não tenha perdido a vida à toa.

Que os dirigentes dos clubes brasileiros tomem vergonha na cara.

A vida humana não pode ser exposta de maneira tão irresponsável.

Se o Vasco pode ter uma folha salarial de mais de R$ 4 milhões com os profissionais.

Pode pagar um médico e uma ambulância para os seus meninos.

Dar mais que leite e bolacha aos garotos no café dos garotos.

Ser criterioso e não aceitar qualquer atestado médico.

Não fez tudo isso antes porque vivemos no país da irresponsabilidade, da impunidade.

Por que Wendel morreu?

Por que Antônio Carlos desmaia de tristeza?

Por que Rita não consegue falar, só chorar?

Pergunte a Roberto Dinamite...

http://r7.com/XgJe