1reproducao16 A paz está garantida no Itaquerão. Para derrubar a tese de torcida única, B.O. e Negão firmam pacto. Os presidentes da Gaviões e da Independente mostram quem realmente manda nos estádios de São Paulo...
Carlos Miguel Aidar teve uma atuação que precisa passar para a história. Nesta terça-feira Gorda de Carnaval, ele acordou cedo e foi até o Centro de Treinamento da Barra Funda. Tirou seu caro celular do bolso e atendeu Ricardo Alves de Maia. "Negão", como é conhecido, preside a maior uniformizada do São Paulo, a Independente.

Negão queria saber se Aidar bancaria 50 ônibus para os torcedores irem ao clássico contra o Corinthians, amanhã no Itaquerão. O presidente do São Paulo não fez questão nenhuma de esconder dos jornalistas com quem estava falando. E disse em voz alta que conseguiria o ônibus.

Confirmou de maneira explícita, documentada, a íntima relação das organizadas com as diretorias de clubes grandes brasileiros. Depois, Aidar conversou pelo mesmo celular com o secretário-adjunto da Secretaria Pública de São Paulo. Confirmou a ele e à imprensa que o São Paulo e Corinthians pagarão R$ 20 mil cada um.

Como Andrés Sanchez tem péssimo relacionamento com Aidar, foi o seu vice de futebol, Ataíde Gil Guerreiro, quem ligou ao ao homem que comanda de fato, o Corinthians, há dez anos. Com excepcional relacionamento com as organizadas corintianas, Andrés, aceitou na hora pagar pela condução. Ele já chegou a dar toda a arrecadação de um jogo contra o Flamengo para a Gaviões da Fiel. Sem consultar ninguém no Parque São Jorge, como se o clube fosse seu.

Fundador da Pavilhão Nove, organizada em homenagem à antiga ala do implodido presídio do Carandiru, afirma que as torcidas são a 'alma dos clubes'. A ligação dos dirigentes do São Paulo com as organizadas não é recente. Membros da Independente frequentavam churrascos no clube, com direito a agir até como seguranças particulares de Juvenal Juvêncio.

 A paz está garantida no Itaquerão. Para derrubar a tese de torcida única, B.O. e Negão firmam pacto. Os presidentes da Gaviões e da Independente mostram quem realmente manda nos estádios de São Paulo...

Não é segredo que São Paulo e Corinthians quando recebem 5% dos ingressos como visitantes nos clássicos, os reservam para suas organizadas. Os torcedores comuns não sentem nem o cheiro das entradas. Elas não chegam nas bilheterias. Os dirigentes garantem que cobram por cada ingresso. Apenas os separam para as uniformizadas.

Graças a essa ligação, tanto Andrés quanto Carlos Miguel Aidar conversaram com os chefes das facções. E foram claros. O Ministério Público paulista só está esperando um confronto sério hoje. No Itaquerão ou nos arredores do estádio. Se houver briga, feridos e principalmente morte, não haverá como evitar a tese de torcida única nos clássicos em São Paulo.

É tudo o que as organizadas mais temem. Estar no estádio adversário é uma oportunidade de ouro como propaganda. Mostrar como seus membros são corajosos, desafiando os 95% de torcida rival. Capazes de coros recheados de palavrões contra a própria polícia que os escolta. Essa postura acaba divulgada em vídeos e fotos que os próprios membros das uniformizadas colocam nas redes sociais. Acabam atraindo mais pessoas, geralmente jovens, interessadas em fazer parte da torcida. E também desafiar os rivais, os policiais, o 'sistema'.

Os conselhos de Andrés e Aidar deram resultado. Ricardo Alves de Maia e Wagner da Costa conversaram. Negão e B.O., como são conhecidos entre os torcedores, perceberam que estão na mesma situação. Brigas hoje seria dar tudo o que o Ministério Público e a grande parte da imprensa querem. Todos os holofotes estarão voltados para o Itaquerão.

Os ânimos entre são paulinos e corintianos estão acirrados. Há 11 dias, 42 corintianos avistaram quatro são paulinos na estação Carrão do metrô. Esmurraram, com ódio, as portas do vagão, deram pontapés. Quando elas abriram, eles agrediram os rivais. Na proporção de mais de dez contra um, a surra foi enorme. Como sempre acontece, houve o juramento de vingança por parte dos são paulinos.

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Só que Negão não é tolo. Muito pelo contrário. Sabe que se a vendetta acontecer hoje será um inesquecível tiro no pé das organizadas são paulinas. Não quer saber de brigas. E já divulgou sua ordem entre os cerca de dois mil membros das uniformizadas que vão para o Itaquerão.

Do seu lado, B.O. também quer a Gaviões tranquila. Sabe que a Polícia Militar fará a escolta aos são paulinos desde a rua 24 de Maio, de onde, os torcedores sairão, às 19 horas, para a estação Luz. De lá, irão para a estação Dom Bosco. Apesar de a partida terminar perto da meia-noite, a PM só permitirá que são paulinos deixem o Itaquerão a uma da madrugada. E os torcedores deverão usar os 50 ônibus pagos por Aidar e Andrés.

Além disso, os chefes das facções sabem que a PM reforçará o policiamento nas principais estações de metrô de São Paulo. Brigar hoje seria uma enorme bobagem. Daria razão a quem defende torcida única nos clássicos.

O pacto está feito. B.O. e Negão dão uma lição à Secretaria de Segurança Pública, à Secretaria dos Transportes, ao Ministério Público, à Polícia Militar, ao prefeito Fernando Haddad e ao governador Geraldo Alckmin. Mostram o poder que ambos têm em relação a milhares de pessoas. Bastou conversarem e os conflitos entre as torcidas não deverão acontecer.

1ae18 A paz está garantida no Itaquerão. Para derrubar a tese de torcida única, B.O. e Negão firmam pacto. Os presidentes da Gaviões e da Independente mostram quem realmente manda nos estádios de São Paulo...

Há algo de muito errado na organização do futebol brasileiro. Na sociedade deste país. Onde dois chefes de torcidas têm mais poder que as autoridades. Obrigam clubes a pagar sua condução. E garantem a lei e ordem em uma noite de clássico inédito na Libertadores.

É para comemorar? Ou para chorar de vez a falência da segurança pública no estado mais rico da América Latina?

Em todo caso, em qualquer conflito, quando um bando de vândalos o perseguir, tentando partir sua cabeça com barras de ferros ou pontapés, existe uma última saída. Tente gritar a plenos pulmões.

"Sou amigo do B.O."

Ou então, "o Negão é meu brother".

É muito mais efetivo do que discar 190...

reprodução ESPN-Brasil

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