48 A madrugada que virei parceiro de Djalminha no Love Story. O genial meia que deveria ter sido pentacampeão do mundo. Mas seu amor pelos rachões e uma cabeçada no técnico do La Coruña tiraram do Japão. Azar da Copa...
Velloso, Cafu, Sandro, Cléber e Júnior; Amaral, Flávio Conceição, Rivaldo Djalminha; Müller e Luizão.

Palmeiras. O time campeão paulista de 1996. Em 30 partidas, marcou 102 gols. Há 21 anos, Vanderlei Luxemburgo era outro. Respirava futebol. Não queria ser manager, não relegava os treinos a auxiliares, não montava comissões técnicas gigantescas, não ia jogar pôquer nos Estados Unidos, não arquitetava candidaturas políticas, não se envolvia em vendas de vinhos.

Sua vida era só desenvolver estratégias, encher de confiança e cumplicidade os grupos que formava. Trabalhava a cada dia com o objetivo de chegar à Seleção Brasileira.

No Sport, tenta resgatar o treinador, o homem que já foi um dia. Daí o sucesso momentâneo. Colabora também o fato de ter se livrado de sanguessugas que o convenciam que o mundo precisaria ficar de joelhos diante dele.

Mas o foco da crônica deste sábado é outro personagem.

Djalminha.

Ele carregava uma responsabilidade enorme. É filho de Djalma Dias. Um dos melhores zagueiros que já nasceu este país. Firme, vigoroso, mas técnico. Jogava de cabeça erguida, tinha rara habilidade para sair jogando. Passou dez anos no Palmeiras, entre 1961 e 1971.

Foi injustiçado no futebol. Pela Seleção Brasileira. Pelos clubes onde passou. Apesar do sucesso, não enriqueceu.

A influência da carreira do pai talvez tenha sido mais forte psicologicamente do que Djalminha pudesse perceber. Ele fazia questão de enfrentar quem quer que fosse. Ídolo, treinador, dirigente, jornalista. Qualquer pessoa que o questionasse ou que se colocasse à sua frente, compraria uma briga. Apesar de muito magro e baixo, ele encarava a pessoa e partia para o confronto.

Foi assim que encerrou sua passagem no Flamengo, mal saído da base, trocou empurrões com o ídolo Renato Gaúcho. Na base do 'ele ou eu', Djalminha foi parar no Guarani. Depois de uma passagem no Japão, no Shimizu, voltou para Campinas.

Estava pronto, maduro, no auge quando a Parmalat o comprou. Era a peça fundamental para o esquadrão montado por Luxemburgo.

Eu cobria o Palmeiras na época.

E desde que Djalminha pisou no clube, os rachões ficaram mais disputados do que partidas de Copa do Mundo. Com entradas violentas, dribles incríveis, tabelas de cair o queixo. Porque o elenco palmeirense era muito poderoso.

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O motivo de tanto empenho nos rachões? Apostas. Os valores não eram altos, mas era o ego que importava. Como muitos deveriam estar na Seleção Brasileira, todos queriam vencer. Principalmente Djalminha. Ele ficava possesso quando perdia. Questionava, xingava. Infeliz dos auxiliares de preparação física que se arriscavam a apitar os rachões. Djalminha saía fora de si quando era uma marcação que não concordava.

Ele parecia uma versão tupiniquim do 'Médico e o Monstro'. Quando treinava com o time, usava sua perna esquerda fabulosa. Desmoralizava zagueiros, volantes, colocava seu grande amigo de campo e de farras, Luisão, na cara dos goleiros. As tabelas entre Djalminha, Rivaldo e Müller, nos treinos, deveriam ser gravadas e passadas todos os dias para jogadores atuais.

De pura pura sacanagem, não há outro termo, eles exageravam. Mesmo tendo a chance de fazer o gol fácil, todos queriam mostrar mais e mais habilidade. Houve um lance em um coletivo que jamais esquecerei.

Djalminha foi lançado por Rivaldo. Entrou sozinho diante de Sérgio, goleiro reserva. Ele o driblou. Estava com o gol vazio. Parou a bola.

Cafu gritava, sério. "Faz o gol, faz o gol, porra!!!"

Djalminha fingia nem ouvir, pisava na bola.

E esperava.

Só ele sabia o que viria pela frente.

Galeano estava suspenso, não jogaria a próxima partida, treinava entre os suplentes. O volante fazia o 'trabalho sujo' deste time maravilhoso. Marcava forte o destaque do time adversário. Geralmente o perseguia de forma individual. Não era violento, mas era especialista em faltas para matar o jogo.

Djalminha havia driblado Sérgio. E parado a bola diante da meta sem goleiro. Galeano surgiu como um ninja enraivecido. Tentou dar um carrinho, salvar o gol. O meia anteviu a entrada. Levantou a bola com o pé esquerdo, com o direito deu um leve toque, um chapéu desmoralizante.

E chutou a bola 'com nojo' para dentro do gol.

Djalminha foi um artista com a bola.

4reproducao2 A madrugada que virei parceiro de Djalminha no Love Story. O genial meia que deveria ter sido pentacampeão do mundo. Mas seu amor pelos rachões e uma cabeçada no técnico do La Coruña tiraram do Japão. Azar da Copa...

Além do talento herdado, ele o aprimorou no futebol de salão. O showbol não é um de suas maiores paixões por acaso. Sempre soube adorou driblar, humilhar rivais, principalmente os mais truculentos, em espaços mínimos.

Mas Djalma também era um artista fora dos gramados.

O Palmeiras havia feito uma partida fora de São Paulo, em uma quinta-feira. Eu havia escrito a crítica do jogo para o Jornal da Tarde.

E fui para uma despedida de solteiro de um amigo. Ele escolheu fazer em uma boate famosa aqui em São Paulo. Love Story.

Conhecida como a 'casa das casas'. É onde as garotas de programas costumam terminar a noite. E lá, elas escolhem com quem desejam ficar.

Eram perto das duas da manhã, estava conversando com um amigo, quando o noivo me chamou. "Você não sabe quem acabou de entrar. O Djalminha!"

A princípio não acreditei. Havia feito a cobertura do jogo do Palmeiras pela tevê e ele estava fora de São Paulo. Quando olhei, ele me reconheceu. E não estava sozinho. Havia vários jogadores do Palmeiras com ele, cerca de dez.

Entendi o que havia acontecido.

Um velho truque antes da Internet. E que vários times utilizaram. Jogadores atuavam fora de São Paulo e diziam às esposas, namoradas, amantes, que iriam dormir na cidade do jogo. Só que a delegação voltava de madrugada para a capital.

Eles ficavam livres para aproveitar a madrugada.

De manhã, voltavam para casa, inocentes.

Foi quando vi a 'malandragem' entrar em ação. Assim que me viu, Djalminha chamou todos os jogadores. Se reuniram em uma rodinha. Assim que acabaram de conversar, vieram em minha direção.

Djalminha era o primeiro deles.

Eu não tinha ideia do que aconteceria.

Ele esticou a mão.

Retribui.

Em ato contínuo, ele me puxou para perto.

E falou no meu ouvido.

"Você é dos nossos..."

Ou seja, ele me queria cúmplice, cego, surdo e mudo naquela farra.

Depois que Djalminha me cumprimentou, os dez jogadores fizeram uma fila e também me cumprimentaram, me encarando.

Eu cumprimentei a todos.

Fiquei até o final da despedida de solteiro.

Não aconteceu nada de diferente.

Esperei o dia seguinte, todos treinaram normalmente. Se alguém faltasse, principalmente, Djalminha, escreveria sobre a noite anterior.

Mas ele treinou e foi, outra vez, o melhor.

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No ano seguinte, veio a proposta do La Coruña e a Parmalat fez o que desejava, ganhou muito dinheiro em cima de mais este talento.

Eu fiquei profundamente triste, chateado de verdade com o que aconteceu com ele, em 2002. Eu sabia que iria disputar o Mundial do Japão. Seu talento estaria à disposição do time de Felipão.

Mas houve um bendito rachão no La Coruña dias antes da convocação final da Seleção. O auxiliar Paco Melo ousou marcar um pênalti contra o time de Djalminha. O meia ficou irritado e os dois começaram a se xingar.

Foi quando o treinador Javier Irureta tomou as dores de Melo. E passou a exigir que Djalminha respeitasse a hierarquia. Cometeu o erro de gritar com ele. Resultado: o jogador deu uma cabeçada no técnico.

Tudo filmado.

Com a palavra, Sandro Rosell, ex-presidente do Barcelona, ex-funcionário da Nike, amigo íntimo de Ricardo Teixeira, e que chegou a ser preso por corrupção. Ele escreveu um livro sobre os bastidores do pentacampeonato. Se chama "Bienvenido al mundo real".

"Quando vinha ao Rio de Janeiro, Scolari jantava e dormia na minha casa algumas vezes. Um dia me ligou para dizer que já havia feito a lista dos 23 jogadores para a Copa do Mundo e queria me mostrar. Quando chegou a minha casa, estávamos na sala e liguei a televisão no canal da TVE Internacional.

"Foi justamente neste momento que foi exibida uma reportagem com a cabeçada que Djalminha deu no seu técnico Irureta.

Ficamos paralisados e Scolari se levantou e disse: "Puta que pariu! Acaba de cair um dos meus jogadores. Já não posso convocá-lo, como vou chamar um jogador que faz isso com seu técnico, um colega meu?" Ali, na minha casa, Djalminha caiu da lista e se incorporou Kaká, na época, no São Paulo."

Lamentei por Djalminha, pelo Brasil.

Se Felipão soubesse da importância dos rachões, da vida de Djalma Dias, da revolta de seu filho, talvez pensasse duas vezes.

No Japão, senti falta do meu 'parceiro' do Love Story...

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