120 1024x683 A lenta agonia de Dorival Júnior. O técnico sem força no desesperado São Paulo
Um dos grandes sonhos de Dorival Júnior era treinar o São Paulo. Desde a década de 80, quando era jogador, ouvia os insistentes elogios à organização, à infraestrutura. O time era blindado, protegido por dirigentes que adoravam ser chamados de cardeais. O respeito dos rivais era enorme. Assim como dos próprios torcedores.

Só que o São Paulo que Dorival encontrou é muito diferente daquele de três décadas atrás. A participação forçada do técnico na reunião com torcedores organizados e a obrigação de aceitar a interferência branca de Muricy Ramalho seriam algo inadmissíveis.

Mas é esta a realidade que Dorival encontrou. Com o time mais tempo na zona do rebaixamento de sua história, o treinador não tem outra saída. Se quiser ter a possibilidade de terminar o ano no cargo e sonhar em reformular a equipe em 2018, precisa se submeter.

Leco e Vinicius Pinotti têm tomado atitudes desesperadas. E movidas à pressão da torcida, da mídia, dos conselheiros do clube. Não se importando em romper qualquer promessa que fizeram. Como a demissão de Rogério Ceni.

"É um momento histórico para o São Paulo, que hoje apresenta uma de suas figuras maiores. A apresentação dele dispensa comentários, pois já é conhecido exaustivo por todos. É preciso destacar que o São Paulo volta a ter no comando um são-paulino, como já aconteceu outras vezes. Ciente de que está totalmente preparado. Seja bem-vindo, Rogério Ceni, nosso treinador para os próximos dois anos."

Essas foram as palavras de Leco ao apresentar o maior ídolo da história do clube. Sete meses depois, Leco o demitia sem pena. "A diretoria não tem nenhuma responsabilidade direta. A diretoria teve coragem em contratá-lo, sendo um novato no cargo, e deu todas as condições e um pouco mais para realizar o trabalho. Isso é inegável. A diretoria concluiu, sem detalhar alcance de meta ou performance, que uma trajetória descendente e desairosa para história dele do São Paulo deveria haver um enfrentamento. Entre agir e omitir, preferimos agir, de forma segura."

Até mesmo o auxiliar inglês Michael Bale enxergou o óbvio.

"O Leco precisava ganhar a eleição (em abril). Quem melhor do que o Rogério para ser contratado como treinador? Dê às pessoas aquilo que elas querem. Depois, não dê ao treinador os jogadores no momento que ele quer, em janeiro, para montar o time para a temporada, mas contrate no tempo certo para ser eleito. Para mim, tudo foi muito bem planejado pelo Leco", resumiu em entrevista ao UOL.

Falou o que todos no São Paulo sabiam e foi denunciado pelo blog. Leco escolheu Ceni mais como cabo eleitoral do que como treinador. Por isso não teve a menor cerimônia em vender e comprar jogadores. Não levou em conta a opinião do técnico. Aliás, o presidente do clube acredita que o treinador, seja qual for, é apenas um funcionário subalterno a mais. O mais bem pago do clube. No caso de Rogério ainda havia uma multa de R$ 5 milhões que o fazia se calar diante do desmanche que Pinotti e Leco fizeram na equipe. Assim também como a reposição sem lógica, contratando jogadores sem sua consulta.

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Quando os fracassos vieram e Leco já estava reeleito e torcida passava a atacar a diretoria, poupando Ceni, foi hora de agir. E demitiu Rogério. Fez o clube se comprometer em pagar os R$ 5 milhões. E contratou Dorival Júnior, demitido pelo Santos.

Dorival ao lado do filho, Lucas Silvestre. E acreditou que teria toda autonomia para trabalhar. Só que os resultados não vieram. Pior, Leco muito mal informado, não contratou um técnico especializado em dar murro na mesa, em alterar profundamente o lado psicológico do elenco. Não é de gritar, chacoalhar os jogadores. Ele é adepto de conversas firmes, mas calmas, explicativas.

A escolha do motivador antes do jogo contra a Ponte Preta foi muito criticada na diretoria. O uruguaio Carlitos Páez. Ex-jogador do time de rugby Old Christians. Ele viajava, com seu time, de Montevidéu a Santiago em 13 de outubro de 1972 para a disputa de um campeonato. O avião se chocou contra a Cordilheira dos Andes na fronteira entre Argentina e Chile. Morreram 29 pessoas. 16 pessoas sobreviveram. Elas ficaram 72 dias na neve, até serem resgatadas Tiveram de se alimentar da carne dos mortos.

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Dorival não pôde vetar. Carlitos foi convidado por Lugano. O tema foi pesado demais para o time que luta para sair da zona do rebaixamento. Toda a tristeza de ter de apelar ao canibalismo para sobreviver não adiantou. A equipe, mesmo empurrada pela palestra e pelo Morumbi lotado, apenas empatou com a Ponte Preta. E teve sorte em não perder o jogo.

A partir daí, Pinotti e Leco passaram a agir. Independente da vontade de Dorival Júnior. Diante da confusão entre Cueva e Rodrigo Caio, foi decidido que os treinamentos seriam fechados aos jornalistas e os jogadores proibidos de darem entrevista até a partida contra o Vitória. Os dirigentes também resolveram fazer a reunião que as organizadas exigiam.

E mais, Pinotti ligou a Muricy implorando que ele aceitasse ser consultor de Dorival Júnior. Ter toda a liberdade de mostrar ao atual técnico do São Paulo como ele deveria montar o time. Muricy não quis, por enquanto o cargo oficialmente. Ele 'ajudará' sem vínculo com o clube. E já avisou publicamente que, para ele, Rodrigo Caio, deveria atuar como volante. E fazer com que a zaga fosse mais protegida. Na prática, três zagueiros. Mas Muricy fez questão de avisar que suas ideias serão apenas sugestões. Quem decide é Dorival.

O tricampeão brasileiro com o São Paulo também deverá fazer 'palestra motivacional' ao time. Só que está claro que deverá mostrar o que pensa taticamente à equipe.

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Dorival tem sido obrigado a se submeter. Leco e Pinotti, desesperados com a ameaça do rebaixamento, tiraram toda autonomia do treinador. Os jogadores já perceberam, tiveram ontem quando tiveram de se explicar para as torcidas organizadas. Isso é péssimo neste momento delicado. Restam 15 rodadas para o Brasileiro acabar e o time é penúltimo colocado.

Dorival Júnior não é o maior ídolo da história do São Paulo. Por isso, a multa por uma eventual dispensa é baixa. Dois salários. O que é baixo para Leco e Pinotti. Com suas atitudes, os dois deixaram claro que a chance de Dorival prosseguir em 2018 é cada vez menor. Caindo ou não, o futebol do clube sofrerá uma profunda reformulação. Poucos jogadores deste time serão aproveitados.

Um coordenador técnico será contratado. Muricy Ramalho é o predileto. Mas há também chance para Paulo Autuori, Raí e até Cafu. Esse coordenador terá muito peso na escolha do treinador.

Que Dorival, desta vez, não seja o último a saber.

Ele deveria ter conversado com Ceni, antes de aceitar o cargo.

Descobriria que o São Paul, pedaço da Europa, não existe mais.

Talvez evitasse essa sua lenta agonia...
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