110 A Fifa decide deixar as trevas. Será um golpe na malandragem, nos erros absurdos e, principalmente, na manipulação de resultados. A tecnologia finalmente vai chegar ao futebol...
A Fifa precisava de uma decisão histórica. Dar um passo em rumo à legalidade. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos e o FBI mostraram o quanto seus dirigentes sempre foram corruptos. O novo presidente Gianni Infantino tinha a obrigação de um fato novo após a devassa.

As reformas na Fifa foram pequenas. Limitar em uma eleição com direito a duas reeleições o tempo do presidente era muito pouco. Afinal, são, na teoria 12 anos de poder. A divulgação de salários de todos os funcionários da entidade, inclusive o do presidente, também não teve o choque esperado. Afinal, eles se especializaram em receber propinas por fora.

A adoção de cotas para mulheres participarem do Conselho da Fifa, antigo Comitê Executivo, foi algo forçado. E que pode não ter importância alguma. Basta um poderoso dirigente africano conseguir empurrar sua esposa para um dos seis cargos femininos obrigatórios. Sendo competente, mulher ou homem deveria ter acesso a qualquer cargo. Inclusive de presidente da Fifa.

Infantino se lembrou da estratégia que ele e seu mentor, Michel Platini, adotaram na UEFA. Incharam a Eurocopa. A partir deste ano serão 24 seleções na França. Não mais 16, como era antigamente. A medida foi feita para agradar. Primeiro a televisão que queria mais jogos. E, principalmente, garantir a presença dos principais países na competição. A exceção esse ano será a Holanda, que ficará fora depois de 32 anos.

Um dos planos de Platini era acabar com a Liga Europa. E inflar a Champions League. Em vez de 32 clubes, 64 na fase de grupos. Se não tivesse sido suspenso do futebol, por receber propina de Joseph Blatter, o francês iria impor essa mudança. Também com o mesmo objetivo: agradar a televisão. E também os clubes médios, que teriam a possibilidade de confrontos com os gigantes do Velho Mundo.

Assim, Infantino já avisou quer que a Copa do Mundo tenha 40 países. Há a possibilidade que comece a valer para o Mundial de 2026. Ele busca garantir apoio para tentar mais oito anos no poder.

Só que isso não mexeu com o mundo.

Até que neste modorrento sábado, ele acertou em cheio. Decidiu divulgar que o futebol vai deixar a idade das trevas. E não mais fará de conta que não existem recursos tecnológicos. Eles passarão a ser usados. Chega de injustiça.

Bastará um auxiliar acompanhando a partida por um vídeo. E o lance irregular será denunciado. Vitória histórica do bom senso.

"Tomamos uma decisão histórica para o futebol. A Fifa e a International Board estão iniciando agora um debate e não o encerrando. Temos que mostrar que estamos escutando os torcedores, os jogadores e o futebol. Estamos ouvindo o futebol e aplicando o senso comum", anunciou Infantino.

O juiz terá o poder de parar o jogo em caso de lance duvidoso. E ter o direito de ver o replay. O auxiliar poderá avisar o árbitro, caso aconteça algo irregular que ele não percebeu. Como uma agressão, por exemplo.

O uso do recurso eletrônico será usado em quatro situações. Para confirmar se a bola ultrapassou a linha de gol, expulsão, pênalti e identificar o jogador, por exemplo, em uma briga. O juiz poderá ver o replay e expulsar, com calma e certeza, os reais agressores.

Além de anular gols em impedimento, lógico.

A International Board se reunirá no dia 4 de março de 2017. E decidirá quais os torneios que primeiro adotarão os recursos eletrônicos. Infantino disse que, embora os primeiros campeonatos servirão como testes, a Fifa não voltará atrás. A partir, provavelmente de 2018, o recurso eletrônico será obrigatório em todos os torneios oficiais da entidade. Em todo o planeta.

Tênis, vôlei, futebol americano já utilizam o recurso eletrônico há anos. Em nome da justiça, lances duvidosos são esclarecidos.

Com esses recursos, o futebol além de não seguir fiel a erros absurdos, também diminuirá a possibilidade de manipulação dos árbitros. Se algum deles for subornado para prejudicar determinado time, não haverá como se beneficiar dos lances duvidosos. Será excelente para a credibilidade.

Infantino desta vez enfrentou até seu mentor. Platini já afirmou várias vezes que era contra a tecnologia.

"Eu sou contra não apenas o uso de tecnologia para ver se foi gol ou não, sou contra a tecnologia em geral, porque ela invadirá todos os aspectos do jogo. Como no gol de Diego Maradona com a "mão de Deus" em 1986? Por que não usamos para ver se foi mão ou não? Onde isso vai parar? Não vai. Sou contra a tecnologia", repetia o francês, quando ainda tinha poder.

"Nesse aspecto concordo com Platini. O futebol é um jogo simples, com regras simples e que vive das emoções. Não podemos mudar isso. A tecnologia pode tirar o lado humano do futebol", disse Franz Beckenbauer.

Mas as palavras de dois gênios dentro do gramado não serão levadas a sério. Assim como o muitos torcedores que preferiam a injustiça. Até que fim, a Fifa decidiu tirar o futebol do atraso.

Foi um grande passo para o futebol, esporte que estava acomodado no sucesso. Mas precisava ser modernizado, aprimorado. Utilizar o que o mundo tem de mais moderno.

O Santos perdeu o Campeonato Brasileiro de 1995 para o Botafogo. A partida acabou 1 a 1 no Pacaembu. Túlio marcou para os cariocas, impedido. Márcio Rezende de Freitas confirmou. E ainda anulou gol legítimo de Camanducaia, do time paulista. Dois erros que a televisão mostrou ao país, no instante que aconteciam.

São inúmeros exemplos.

Como o pênalti de Fábio Costa em Tinga, no Brasileiro de 2005. O mesmo Márcio Rezende não só não marcou, como expulsou o jogador do Internacional. Por simulação.

Anos mais tarde o árbitro pediu desculpas para o Santos e Inter. Admitiu os erros. Disse que se tivesse direito a ver o replay das jogadas, nada teria acontecido...

Não houve nada de divino no gol de Maradona em 1986.

Foi só a pura malandragem.

Que deve ser banida do futebol.

Se a tecnologia tivesse sido implantada, o argentino teria passado vergonha.

Como não estava, marcou um gol fundamental na Copa do Mundo do México.

Isso é justo?

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