150 A farra interminável de Weggis. A fórmula infalível que o Brasil usou para perder a Copa de 2006
Maio de 2006.

Nunca vi tantas prostitutas juntas. A esmagadora maioria brasileira. Mas havia colombianas, africanas. Sambando em plena calçada, com barriga de fora, calças apertadas, bustiês. As jaquetas eram a única proteção para a temperatura de 10 graus. Seduzindo, se oferecendo para suíços embasbacados. Mesmo os que acompanhados por suas esposas e filhos, não conseguiam se conter, com o samba saindo alto das caixas de som e com o gingado das mulheres.

As bochechas vermelhas denunciavam: os homens já se deixavam dominar pelo vinho e cerveja que acompanhavam os salsichões, nas inúmeras barracas que levavam até o estádio da pacata cidade de Weggis.

Por dois milhões de dólares, Marco Antônio Teixeira, tio e então secretário-geral da CBF, levou a Seleção Brasileira para se concentrar na cidade de 4000 mil habitantes, nos Alpes Suíços. Vendeu para a Attaro, uma empresa de marketing esportivo, Thermoplan, especializada em máquinas de café, e a prefeitura da cidade. Quando negociou, Marco Antônio a cidade parecia um quadro típico suíço. Só neve, algumas casas muito bonitas e brejeiras vacas leiteiras.

Quando o Brasil de Parreira chegou, a Attaro transformou a cidade em um cabaré ao ar livre. Primeira providência, cobrar para que as pessoas assistissem aos treinos do Brasil. O estádio para cinco mil pessoas estava lotado todos os dias. Depois, promoveu uma 'feirinha' sul-americana. Onde inúmeras barracas foram montadas, como em procissão até o estádio. Prostitutas de toda a Europa perceberam o que aconteceria. A cidade foi invadida por turistas para acompanhar a seleção que era a grande favorita à conquista do hexacampeonato. Era a atual campeã mundial, havia vencido a Copa América e a Copa das Confederações. Era dona do quadrado mágico: Kaká, Adriano, Ronaldo e Ronaldinho.

Nós, jornalistas, não acreditávamos no que víamos. E ouvíamos.

"Nem adianta mexer com esse aí. É brasileiro, é duro. Só tem real. Nem sabe o que é franco suíço", dizia uma morena linda, apontando para mim. Não tinha dinheiro para pagar farra com ela. A cotação não era diferente na época, cerca de R$ 3,5 para cada franco. Respeito, mas nunca fui de dar serviço para prostitutas.

Havia uma sala de imprensa no estádio. Nós, jornalistas brasileiros, acreditávamos que estamos mais do que protegidos. Estamos na Suíça. Quando havia dois períodos, deixávamos nossos computadores, e até alguns mais confiantes, as mochilas, cheias de pertences, nas mesas. E íamos almoçar. Os elogios ao 'paraíso' acabaram em dois dias. Quando o computador do jornalista que trabalhava no Lance!, Zé Gonzalez, foi roubado. Diante do desespero dele, entendemos. A ocasião faz o ladrão, até em Weggis. Protestamos tanto, reclamamos, xingamos os organizadores que tudo foi resolvido. Um novo computador foi pago pela organização para o jornalista. O ladrão não foi descoberto. Nunca mais deixamos um lápis na sala de imprensa.

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O frio durante as noites e madrugadas era insuportável. A janela do meu hotel amanhecia tomada pela neve. E logo na primeira folga da Seleção, tivemos de ir voando para Lucerna para cobrir uma farra. O jornal Blick publicou na capa, a festa que Ronaldo e Roberto Carlos organizaram em uma boate. Foram com Dida, Emerson, Júlio Cesar e Adriano. Ronaldo Fenômeno de DJ e Emerson e Roberto Carlos cercado de mulheres. O lateral havia dado entrevista no dia seguinte à folga, quando as fotos não foram publicadas, garantiu não ter feito nada no 'dia de folga'. "Eu falei no dia. Não à noite", ironizou, rindo, o jogador.

O clima na Seleção era de uma certeza absoluta na conquista do hexa. A maldita Copa das Confederações havia trazido essa anestésica certeza. Em 2005, a Seleção e seu 'quadrado mágico' havia vencido a competição na Alemanha, com direito à goleada na final. 4 a 1 sobre os argentinos.

Essa sensação de que os jogos da Copa de 2006 seriam apenas para cumprir tabela e a taça seguiria com o Brasil, era irritante. E mesmo a imprensa agia como cega. O quadrado mágico havia arredondado. Ronaldo e Adriano disputavam quem estava mais acima do peso. Adriano, com 11 quilos a mais, venceu Ronaldo, que estava nove. Ronaldinho Gaúcho já estava mais preocupado em nas noites de folgas, até as cinco da manhã, do que nos treinos. Kaká tentava desesperadamente que todos levassem a sério os treinamentos.

"O Felipão também dava folga no Japão até as cinco da manhã. Não estamos fazendo nada de mal", me respondeu Parreira, quando o cobrei pelas folgas. Não acreditava que os jogadores não poderiam se poupar, ficar sem ir para a balada durante o Mundial. Só que, depois percebi. Muitos casados queriam aproveitar a oportunidade. As festas continuaram nas folgas. Mas passaram a serem feitas em locais fechados e não mais em danceterias.

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Parreira não tinha força para dizer não. Por um simples motivo. Estava angustiado. Seu coordenador e amigo pessoal de décadas estava muito mal de saúde. Zagallo se recuperava de uma cirurgia muito invasiva nos intestinos. Estava pele e osso. Havia uma grande preocupação se ele conseguiria se recuperar. "Se ele não viesse para a Copa, ficaria deprimido", justificou o treinador da Seleção em 2006. Só que Parreira acabou sem a energia de um coordenador de verdade, alguém para impor as restrições que o treinador nunca soube impor, preferindo acreditar na responsabilidade dos atletas. O que foi um enorme erro em 2006.

Como os torcedores pagavam 10 francos suíços, R$ 35,00 para acompanhar os treinos da Seleção, no estádio de Weggis, o 'Thermoplan Arena', se achavam no direito de cobrar. E o clima de treinamento parecia o de circo. Os jogadores mais habilidosos, como Ronaldinho Gaúcho, faziam embaixadas para ganharem aplausos. Como fariam para focas. Os que erravam chutes ao gol era vaiados. Era constrangedor.

Tudo ao som insuportável de baterias, pandeiro e até cuícas. Sambistas amadores oportunistas foram para Weggis para dar 'shows de samba'. Com direitos a mulatas de biquíni, plumas de pavão, sandálias de salto alto, rebolando. Enlouqueciam os suíços e ficavam mandando beijos para os jogadores. E, furtivamente, faziam chegar números de telefones aos atleta, na confusão do final dos treinos.

Havia sessão de autógrafos antes e depois dos treinamentos. Era quando os telefonemas das mulheres eram entregues aos atletas. E a hipocrisia dominava o ar. Todos sabiam, viam. E ninguém questionava. Afinal, todos poderiam fazer o que quisessem nas folgas. Estavam apenas resolvendo com quem iriam passar essas folgas.

O barulho da batucada durante o treino era ensurdecedor. Parreira tinha de gritar, apitar freneticamente como um guarda de trânsito, para que os jogadores entendessem o que queria. Era algo bizarro, já que era a última parada do Brasil antes da Copa do Mundo.

O auge ou o fundo do poço, foi quando uma morena, com falsos cabelos loiros, invadiu o treinamento e fez questão de abraçar e beijar Ronaldinho Gaúcho, que alongava. Ele apenas sorria. Os outros atletas também davam risadas. O clima na imprensa brasileira era de profundo espanto. Mas no futebol há algo muito forte. Os vencedores podem tudo. Como o Brasil era o atual campeão do mundo e havia vencido a Copa das Confederações, a cobrança na época era mínima.

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Cansei de ser reprimido pelo meu editor. "Você é amargo demais. Deixe os jogadores aproveitarem. É só crítica. Impossível que não tenha mais matérias para cima." Ouvia, procurava, e não achava o que elogiar. Foi quando fiz a matéria mais óbvia. O Brasil deixaria a neve de Weggis e seus 11 graus, com sensação térmica de 7 graus, para jogar na Alemanha com temperatura de 28, 29, 30 graus. Uma insanidade.

Por dois milhões de dólares, a Seleção Brasileira se submeteu a 13 dias de perda de tempo, vexame internacional, clima de circo e meretrício a céu aberto. Fora o ridículo choque térmico que o time se submeteria.

Quem não se conformava com aquela zona, não há outra palavra, era o comentarista especial da Bandsports. Dunga. Entrevistei o futuro treinador da Seleção em 2010. "Não concordo com tudo o que está acontecendo. Nunca a Seleção poderia ficar tão exposta. Isso não vai dar certo", me disse, irritado. Mal sabíamos que estava nascendo a concentração absurdamente fechada, o regime que misturava convento e prisão, na África do Sul. Era uma resposta à farra de Weggis.

O Brasil saiu de Weggis. Ronaldo e Adriano gordos, pesados. O time mal treinado. Sem a menor intensidade. As linhas distantes. Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho jogando mal demais. Cafu não era mais o mesmo, só estava preocupado com recorde de jogos com a camisa verde e amarela. O pai de Fred reclamando a todo instante que seu filho deveria ser titular. Parreira completamente perdido e sem retaguarda.

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O assessor de imprensa, Rodrigo Paiva, tentando acalmar os jornalistas mais irritados. Prometendo entrevistas exclusivas para acalmar os de 'pena mais pesadas'. Foi um caos. O vexame era previsível.

Até que veio o domingo das quartas-de-final contra a França. A tensão logo dominou a tribuna de imprensa em Frankfurt. Víamos o Brasil dominado. Zé Roberto não atuava como meia. Tinha de cobrir o disperso Roberto Carlos. Juninho Pernambucano também ficou sobrecarregado, tendo de ajudar Cafu. Kaká errava passes, não tinha com quem jogar. Ronaldinho Gaúcho omisso. Ronaldo não conseguia correr, de tão pesado. Adriano, já reserva, entrou no lugar de Juninho Pernambucano e andava em campo. Derrota e eliminação por 1 a 0, gol de Henry.

Nós, repórteres, tivemos acesso rápido à zona mista. Deu tempo de ver os jogadores descendo. Nunca me esqueci de ver Ronaldo e Zidane abraçados rindo. Roberto Carlos também estava alegre, fazia um sinal de positiva para o francês. Por mais que o trio tivesse atuado junto no Real Madrid, para mim não havia cabimento, esse desleixo público. O Brasil acabara de ser eliminado da Copa do Mundo.

Juninho Pernambucano falou claramente que nunca mais queria saber de Seleção. Estava revoltado com tudo o que havia vivido. Kaká não quis se aprofundar. Mas estava magoado. Sabia que a Copa havia sido desperdiçada.

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No dia seguinte à eliminação, eu e o excelente colunista do Zero Hora, David Coimbra, fomos almoçar juntos. E encontramos sozinho, em um canto do restaurante, um homem com as bochechas vermelhas de tanto beber. Mal passava do meio-dia em Frankfurt. Em frente a ele, uma outra caneca gigantesca de chope.

Olhei para o David e propus, 'vamos lá'.

"Presidente, você não quer fazer uma análise da eliminação do Brasil na Copa? Para o Jornal da Tarde e para o Zero Hora?"

O olhar de fascínio pelo chope logo se transformou em ódio.

"De jeito nenhum. Não vou falar uma palavra", disse Ricardo Teixeira, nos olhando com nojo.

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Com raiva, engoliu o chope que admirava, e foi embora.

Ricardo tomou duas atitudes ao chegar ao Brasil.

A primeira foi mandar Parreira embora.

E a segunda foi dar o cargo a Dunga, com a seguinte recomendação.

"Acabou a bagunça."

Do meu lado, cobrei o meu editor.

"Você viu como a farra em Weggis iria ter consequências?"

"Ah, faz uma matéria mostrando a zona que foi na Suíça.

"Que a Seleção trocou uma preparação séria por 2 milhões de dólares.

"E não me enche a paciência."

Engoli em seco.

'Quem pode manda, quem é esperto, obedece', pensei.

Fiz duas páginas.

E descrevi como o Brasil se sabotou na Copa de 2006.

Pela ganância e incompetência da família Teixeira.

E a omissão de Parreira...
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