26 1024x576 A entrevista mais representativa de 2015. Gilmar Rinaldi. Os descaminhos do futebol deste país. E o recomeço da Seleção dos 7 a 1, dependente de um jogador: Neymar. Feliz 2016. Para quem puder...
Último dia de 2015.

Poderia escrever sobre a indecente decisão da diretoria do Corinthians. Investir os R$ 10 milhões que recebeu da CBF, pelo hexacampeonato brasileiro. E só pagar os R$ 8,5 milhões que prometeu aos jogadores em 2016. Mais de um mês depois.

Pouco importa a maneira impressionante que o título foi conquistado. Com direito a reformulação do time em pleno campeonato. E ainda sim bater todos os recordes na história dos pontos corridos. É assim que os dirigentes brasileiros agem.

Fica para o ano novo.

Mantendo a tradição de sete anos do blog, reproduzo a entrevista mais significativa de 2015.

Com o coordenador da Seleção Brasileira, Gilmar Rinaldi.

Aproveitei as duas horas que tive com coordenador da Seleção Brasileira. Tirei várias dúvidas que me angustiavam como jornalista esportivo. Completarei 30 anos de profissão em 2016.

Tenho a convicção que mudou a forma.

As novas arenas são maravilhosas, por exemplo.

O conteúdo segue repetitivo.

O futebol, como o país, segue atrasado.

Muito aquém do que poderia ser.

A boa notícia de 2015 foi a que os corruptos começam finalmente a cair.

Uma das perguntas mais recorrentes dos leitores foi sobre o desgaste.

Se eu não me canso de escrever sobre tanta sujeira, tanta violência, tanta mentira.

Sobre os infectos bastidores do futebol.

A resposta segue a mesma, de 1986.

Não.

Faço o que tantos jornalistas sonhavam décadas passadas.

Posso ao menos expor o que acontece, explico, contextualizo.

Tento trazer o que está por trás da simples notícia.

E os 30 anos de profissão me dão o sagrado direito de opinar.

Não sou dono da verdade.

Sou dono da minha verdade.

Que é fruto de entrevistas, conversas em off, informações.

Mas aprendo a cada dia com os leitores, reflito.

Li cada um dos 340.448 comentários publicados no blog do R7.

Concordei, discordei, briguei, provoquei, me choquei, ri.

O sucesso deste veículo está na interação.

Quem acessa o blog sabe que precisará de fôlego para ler.

Post para mim é matéria de jornal.

Os detalhes são fundamentais para a compreensão da notícia.

Como, quando, porquê, onde, quem são fundamentais.

Assim como as consequências do que ocorre.

Quero agradecer os mais de 25 milhões de acessos em 2015.

Foi um ano difícil, sofrido para todos nós.

Mas sinto que os leitores percebem o que faço.

Tentar mostrar que futebol é muito mais que alienação.

Mera diversão, circo.

Muito obrigado pela companhia.

Excelente 2016 para todos.

Somos fortes, vamos resistir...

A entrevista com Gilmar Rinaldi, o coordenador de Seleções da CBF...

 A entrevista mais representativa de 2015. Gilmar Rinaldi. Os descaminhos do futebol deste país. E o recomeço da Seleção dos 7 a 1, dependente de um jogador: Neymar. Feliz 2016. Para quem puder...

Gilmar, você estava lá. Como é que aconteceu, em detalhes, a confusão envolvendo Neymar e o jogo da Colômbia, na Copa América?

O Brasil havia perdido o jogo. O Neymar estava muito nervoso, tenso. Ele havia disputado três finais na Europa. E ainda havia o problema do seu contrato com o Barcelona. Estava estressado. Sabíamos, mas não poderíamos abrir mão do seu futebol. Ele foi provocado, tomou pontapés, foi xingado, como é sempre. Não suportou, revidou. Foi expulso. E decidiu esperar o árbitro na entrada do vestiário do juiz (Enrique Osses, chileno). Eu fui avisado e tentei tirá-lo de lá.

Falei, fui firme. Falei que iria se prejudicar. Mandei um segurança puxá-lo de lá. O Neymar empurrou o segurança. Eu mandei então o segurança deixá-lo. O Neymar é um homem e tem de arcar com o que faz. Foi quando o juiz chegou e o Neymar falou que ele queria aparecer em cima dele, umas bobagens. Tomou uma atitude infantil que o prejudicou. Prejudicou o Brasil.

Mas eu quero deixar claro. Não tinha o direito de arrastá-lo à força. Ele é um homem. Um do principais jogadores do mundo. Se ele quer bater boca com juiz depois de expulso, precisa saber que vai se prejudicar. Foi o que aconteceu. Por isso não fiz questão nem de questioná-lo.

Gilmar, me desculpe, mas vou ser direto. Se fosse, por exemplo, o reserva do lateral direito que fizesse o que o Neymar fez, seria convocado novamente? Eu e o mundo sabemos que não. Esse privilégio ao Neymar que pega mal.

Não sou um homem de fugir das situações. Não sei se um reserva de lateral direito voltaria a ser convocado. Mas o Neymar vai porque ele é um dos principais jogadores do futebol mundial. Eu acredito que ele tenha aprendido com o que aconteceu. Depois da punição, ele me procurou e em disse. 'Me desculpe, fui mal. Não me controlei.' Então eu acredito que ele tenha aprendido. Porque eu te garanto que isso não acontecerá novamente. Jogador nenhum mais da Seleção vai falar com o juiz depois de um jogo. Nem o Neymar. Eu também aprendi. Acreditei no bom senso. Errei também.

Como vocês tiveram coragem de dar a tarja de capitão ao Neymar? Ele é muito talentoso. Mas tem apenas 23 anos e é muito imaturo fora do campo.

A decisão foi porque ele é referência para o time no gramado. E tem ótima índole. É imaturo sim. Mas a tarja de capitão está apressando essa maturidade. Ele entendeu o que aconteceu na Copa América. Nunca mais vai tomar uma atitude dessas. Fora do campo, falo para que se cuide. Está sujeito a qualquer tentações de um jovem adulto de 23 anos. Ninguém aqui quer que deixe de viver. Só saiba se preservar. Hoje qualquer celular faz a festa nas redes sociais. Nós queremos que ele seja o capitão da Seleção dentro do campo, na concentração. Na sua vida particular, embora possa ser cobrado por isso, as decisões são dele. Nós confiamos e temos certeza que o Neymar será outro na Seleção depois da Copa América.

Gilmar, a Globo noticiou que a decisão de não recorrer da suspensão de quatro partidas da Copa América, partiu da Comissão Técnica. Essa decisão tira Neymar dos dois primeiros jogos das Eliminatórias. O que passou pela cabeça de vocês?

Cosme, na Comissão Técnica ninguém é louco. Garanto para você que não foi da Comissão Técnica a decisão de não recorrer. Até porque vou dizer, no regulamento da Copa América, está claro. A suspensão dos jogos da Copa América será cumprida na próxima Copa América. Não tinha essa história de Eliminatórias. Foi um parecer técnico da Fifa. E que temos esperança de reverter. Isso ainda não acabou. Porque Copa América é Copa América. Eliminatórias são Eliminatórias. No ano que vem, os Estados Unidos farão sua Copa América. Se houver uma briga generalizada em uma final, digamos, Brasil e Argentina, todos ficam suspensos para as Eliminatórias? Não tem cabimento. A punição do Neymar não ficará por isso mesmo.

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Por que o Neymar não ficou com o grupo. Que capitão é esse? Farreia enquanto o time está decidindo sua vida na Copa América?

O Neymar foi muito sincero conosco. Disse que iria atrapalhar. E prejudicar o ambiente. Sabia que seria o principal foco da imprensa. Se chegasse para um treino rindo, escreveriam que ele não estava nem um pouco preocupado com a suspensão. Se chegasse com a cara amarrada, tinha ficado forçado. Então, o melhor era sair. Eu e o Dunga concordamos. Queriam ver o grupo sem Neymar. Por uma questão de falta de sorte nos pênaltis, o Brasil caiu. Mas é isso. A Seleção não pode depender de ninguém.

Gilmar, vamos falar a verdade. Este Brasil é sim refém do Neymar. E muito...

Cosme, a Argentina tem o Messi. Portugal tem Cristiano Ronaldo. E o Brasil parece que tem raiva de ter o Neymar. Ele é um dos melhores jogadores do mundo. Faria diferença atuando em qualquer seleção. Nós temos é de dar graças a Deus por ele ser brasileiro. E não o perseguir.

A cobertura da imprensa brasileira em relação a Neymar é de raiva. Como se ele tivesse culpa de a Seleção não ter outros jogadores com sua capacidade acima do normal. Mas temos outros excelentes jogadores. O Neymar chama toda a atenção por seu talento, seu carisma. Mas o Brasil não é só ele, não. Mas temo de ficar gratos todos os dias por ele ser brasileiro. Tem apenas 23 anos. Fará muito pelo nosso futebol. Assim como o Oscar, o Willian e tantos outros. Sem ter o potencial do Neymar, mas sendo ótimos jogadores.

Você e o Dunga deixaram claro. Jogadores que foram vendidos para centros mais atrasados como China e Oriente Médio terão de se desdobrar para serem chamados.

É verdade. Falamos abertamente a todos que foram vendidos para lá. A exigência da Seleção Brasileira é muito maior do que um clube chinês ou do Oriente Médio. A perda está no treinamento, leve demais para as nossas exigências. A saída? Contratar um preparador físico particular. Não nos interessa jogadores que treinem um ou duas vezes por semana. Deixarão de ser chamados. O futebol moderno de alto nível exige cada vez mais intensidade, preparo. Quem não se virar, pode ficar rico. Mas não será chamado mais para a Seleção. Seja quem for. Simples assim.

Gilmar, por favor, e em relação aos psicólogos? A Seleção Brasileira, principalmente essa geração, já mostrou enorme descontrole. Na Copa do Mundo de 2014 foi um desastre. Choro para todo lado. Na Copa América, Neymar deu o vexame que deu. E o time travou sem ele contra o Paraguai. O Thiago Silva não chorou. Mas resolveu dar um tapa na bola na área. Depois não se lembrava do que fez. Será que vocês não enxergam que é preciso um psicólogo para esses jogadores?

Não há como. Primeiro os jogadores rejeitam. Não querem nem ouvir falar. Falei com alguns psicólogos e eles disseram que não há tempo para um trabalho profundo. Eles não se abrem. Nem em competições longas, como Copa do Mundo. Não adianta. Isso já foi discutido. Os atletas não querem. A rejeição é enorme. Se forçarmos criaremos só mais um problema. Esse lado acabará ficando para o Dunga, para os jogadores mais vividos. Só posso dizer que a Seleção mudou muito psicologicamente em relação à Copa do Mundo.

Jornalistas sul-americanos garantem que a Conmebol forçará o Brasil a escolher apenas duas sedes para a Seleção Brasileira. Se for isso, Rio de Janeiro é certeza. A outra será Fortaleza, Recife ou Salvador? São Paulo vocês não são loucos de jogar. Aqui, entre os paulistas, a falta de paciência é enorme...

Por mim, jogaríamos em São Paulo sem medo. Essa questão de torcida é o time que faz com que apoie ou vaie. Não está confirmado que serão apenas duas sedes. Eu gostaria que fosse como antes. Assim se tivermos de jogar nas montanhas de 3.600 metros, no frio, tudo bem. No jogo da volta, iríamos para o Nordeste no calor sufocante. Se tivéssemos de pegar um calor danado na Venezuela, levaríamos a partida daqui para Porto Alegre. Enfim, seria uma grande arma. Mas se forem definidas mesmo apenas duas sedes, a lógica aponta que uma será no Rio. Por causa da nossa concentração, a Granja Comary. A outra, escolheríamos junto com o Dunga, com a presidência.

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Você é coordenador da Seleção. O que acha de treinar na Granja Comary, com a ameaça constante de neblina? A Seleção continuará exposta como foi na Copa do Mundo?

Foi ótimo você perguntar sobre isso. A Granja Comary é a nossa concentração, ponto final. Eu procurei me informar sobre o que aconteceu na Copa. E li alguns posts seus sobre a falta de privacidade total dos jogadores. Fiquei chocado. E era absoluta verdade. Isso não acontecerá mais. Estou garantindo. O acesso a veículos de comunicação estará limitado como acontece em qualquer lugar civilizado do mundo. Seleção Brasileira precisa ser levada a sério, muito a sério. Quando precisar treinar fechado, sem a imprensa acompanhar, vai treinar. Concentração não é lugar para farra, de artistas. Lá é o lugar da Seleção. Há um muro, que não é o da vergonha, como escreveram por aí. Mas um muro de dois metros que permite que os jogadores treinem em paz. A própria população de Teresópolis concordou. A farra acabou. Vamos trabalhar de forma séria.

Você trará treinadores estrangeiros para dar palestras na CBF?

Sim. Mas ninguém virá aqui ensinar como o Brasil terá de fazer para ganhar. Mas que mostrem como trabalham. Sou favorável ao intercâmbio de ideias. Primeiro quero técnicos sul-americanos. O Sampaoli é sim o primeiro da lista. Seu trabalho no Chile é excelente. Seus métodos são interessantes. Quero também que o Gareca venha e explique porque um treinador competente como ele, que faz ótimo trabalho no Peru, não conseguiu se impor no Palmeiras. Sou muito aberto a ideias. Poderemos até ouvir técnicos europeus também, por que não? Não temos preconceito ou medo. As pessoas rejeitaram os nomes de Felipão, Parreira, Zagallo, Carlos Alberto, Lazaroni. Mas é preciso aprender com os acertos e erros no passado. Assim como pensar novas ideias para o futuro. Quero também fazer uma sessão com jornalistas. A CBF quer ouvir o que vocês têm para acrescentar. Criticar é fácil. Difícil é sugerir mudanças factíveis.

Isso não é querer fugir da responsabilidade de vocês? Se o Brasil perder depois desses encontros, a derrota também passa a ser dos técnicos sul-americanos, dos ex-treinadores da Seleção, dos jornalistas...

Não. Vamos ouvir a todos e selecionar o que for melhor. A escolha será sempre nossa. Assim como a responsabilidade. Tudo que acontecer em relação à Seleção, o Marco Polo, eu e o Gilmar seremos os responsáveis.

Você foi campeão do mundo em 94. Não sente a rejeição da população em relação à Seleção? O Marin está preso. O Marco Polo não foi para a Fifa por medo de ser extraditado. A corrupção domina a Fifa. Os brasileiros não rejeitam a Seleção da CBF?

Os brasileiros precisam separar as coisas. Há a Seleção e há a CBF. Eu mesmo errei. Quando me perguntaram se eu concordava com o Parreira. Indagaram se eu achava que a CBF era o Brasil que tinha dado certo. Eu concordei, sem pensar. Na verdade queria falar que a Seleção Brasileira é o Brasil que deu certo.

A Seleção é pentacampeã do mundo. Ninguém tem cinco títulos como nós. A CBF é uma entidade que organiza o futebol e está se modernizando. Há várias acusações, mas não se provou nada contra o Marco Polo del Nero. Nada. Mas isso é problema dele. Eu estou trabalhando para tentar fazer o melhor para a Seleção.

A Seleção representa o nosso povo. O nosso país. Ela não é da CBF. É dos brasileiros. Até porque temos uma geração jovem, que não está pronta, ela precisa ainda mais de apoio. Já foi muito massacrada. E a população pode confiar. Chegaremos muito fortes nas Eliminatórias, nas Olimpíadas e na Copa da Rússia. Não há porque nos rejeitar. A Seleção representa o Brasil. É motivo de felicidade...

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Nesta segunda parte da entrevista Gilmar se defende. Apesar de ter sido empresário até a véspera de assumir a Seleção, jura que a CBF não é virou um balcão de negócios, como disse Zico. Revela a maneira sui generis que foi escolhido como coordenador. E jurou que pressão nenhuma, nem da Globo, tirará Dunga da Seleção até a Copa de 2018. Ou, pelo menos, enquanto Rinaldi tiver poder na CBF.

Gilmar, foi um escândalo internacional. O Zico que é um ídolo, criticou abertamente. Avisou que a Seleção Brasileira não poderia ser um balcão de negócios. Destacou que um jogador desconhecido é convocado, atua três partidas e é vendido por seu clube. Afirmou que a Seleção é comandada por você, um empresário. E que poderia acontecer como no Flamengo, quando era você diretor, mas ficou com três principais jogadores. Poderia fazer o mesmo quando saísse da Seleção...

Ótimo que você perguntou. Meu advogado já entrou na Justiça e o Zico será interpelado. Vai ter de se explicar. Não entendi nada. Sou uma pessoa honesta, minha vida é limpa. Ele sabe bem disso. E todos que trabalham no futebol Fomos companheiros de Flamengo jogando e também na diretoria. Entrei na justiça porque preciso defender a minha honra e o respeito que tenho pelo cargo na Seleção. Tinha certeza que ataques baixos iriam vir. Afinal, fui empresário por 12 anos. Mas cancelei o meu registro na Fifa assim que assumi o cargo. Nunca poderia esperar que o ataque viesse do Zico.

Quando parei de jogar, em 1999, fui convidado a trabalhar no Flamengo. Tive convites do Palmeiras e do São Paulo. Como dirigente, mas me decepcionei. Decidi virar agente Fifa. Quando sai do clube fui procurado pelo Adriano, Juan e Reinaldo. O Reinaldo ainda me falou. "Meu pai morreu. Eu não pude estudar. Sou ignorante. Você pode até me roubar que não vou notar. Mas o quero como meu agente." Fui procurado. Até o Zico sabe. Não sei o motivo do ataque.

Ou seja, minha relação era de pura confiança. Fui assim os meus 12 anos como agente. Não voltarei mais a trabalhar como agente. Estou dando agora a minha palavra. Eu sempre trabalhei muito e fui mão de vaca, com muito orgulho. Quando eu sair da CBF, quero ir para Miami e curtir a vida com a minha família. Sou um homem honrado e vou até o fim nesta acusação absurda do Zico.

Quero dizer outra coisa, os jogadores são jovens. A Brasileira era a Seleção com menos idade da Copa América. Nós estamos com uma nova geração. Eles já atuam em clubes importantes europeus. É lógico que vários seriam e vão ser transferidos. E por altas quantias. Porque são bons. E estão sendo comprados não pelo que fizeram pela Seleção. Mas pelos seus clubes. Como o Roberto Firmino, o Douglas Costa. Eles estão começando suas histórias na Seleção. Não me venha falar que foram comprados porque nós os convocamos. Dirigentes não iriam gastar R$ 100 milhões porque um jogador colocou a camisa verde e amarela. Hoje todo mundo acompanha a carreira do atleta desde a base. Ninguém é idiota. Não me venha com suspeita de esquema, de acusações falsas, sem consistência. Quem quiser me investigar, está à vontade.

O Zico falou uma bobagem e vai ter de se explicar na justiça. Ele é meu amigo, gosto demais dele. O indiquei para trabalhar no Fenerbaçe. Eu era empresário na época. Ganhei quase nada de comissão. Mas fiquei orgulhoso. Ajudei um dos maiores jogadores deste país a trabalhar na Europa como técnico. Mas tenho a minha honra. A acusação foi grave. Ele vai ter de se explicar na Justiça. Não volto atrás.

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Gilmar, como você se tornou coordenador da Seleção?

Eu tenho uma ótima casa no litoral paulista. Sempre costumo fazer pizzas para amigos. Encontrei o Beto Saad (empresário) por acaso e ele me disse que o Marco Polo estava por perto. Sugeriu que eu o convidasse para falar sobre futebol. Eu liguei o convidando. Ele foi. Conversamos pouco, já que sou eu quem faz a pizza. Ele era presidente da Federação Paulista e disse que assumiria a CBF. Me perguntou algumas coisas e eu respondi. Fui duro nas respostas. Não estava contente com o que via. Via muita coisa errada. Veio o vexame na Copa. Ele me chamou e perguntou se tinha alguma ideia para a Seleção. Falei que mostraria no dia seguinte. Cheguei lá com 43 novas propostas. O Marco e o Marin me ouviram. Gostaram e me convidaram para ser coordenador. Aceitei porque fui campeão do mundo na Seleção, fui empresário, estou bem financeiramente, sei o quanto tudo estava atrasado na CBF.

Como vocês chegaram ao nome de Dunga?

Eu, o Marco e Marin estudamos uma lista de cinco nomes. Dunga, Tite, Abel Braga, Marcelo Oliveira e Muricy. Chegamos ao nome de Dunga por um simples motivo. A Seleção saiu desmoralizada da Copa do Mundo de 2014. Ele conhece o ambiente da Seleção desde os 12 anos. Fez um ótimo trabalho antes. Ganhou Copa América, Copa das Confederações. Por circunstâncias o Brasil não venceu a Holanda na Copa de 2010. E iria brigar pelo título. A Seleção precisa de uma revolução. Ser modernizada. O Dunga sabia o caminho. Já ganhou, perdeu título como jogador. Foi técnico. Esteve próximo de ganhar uma Copa. Sabia onde errou, onde acertou. O caminho e Os outros quatro treinadores teriam de aprender.

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Com Dunga vocês compraram briga com a Globo?

Pensamos no melhor para o futebol brasileiro. Mais nada.

Gilmar, por que não um treinador estrangeiro? Era a grande chance, Gilmar. Esclareça de vez. Por que em vez de copiar, por exemplo, o Guardiola, que tal contratá-lo? Isso é um preconceito absurdo, reserva de mercado....

O Brasil não está preparado para ter um estrangeiro comandando o seu futebol. Basquete é uma coisa, futebol é outra. A CBF não está preparada para um técnico do Exterior na Seleção. Vocês da imprensa também não. Vocês fritaram o Gareca no Palmeiras e estão fazendo o mesmo com o Osório no São Paulo. Salários de treinadores de ponta do mundo como Mourinho, Guardiola, chegam a 14 milhões de euros por temporada, R$ 48 milhões, a CBF não paga. Mas mesmo se pagasse, bastariam duas derrotas e vocês, da imprensa, iriam lembrar do dinheiro, dos métodos seria insuportável. Perda de tempo. Ainda é um problema cultural. Não estamos prontos para estrangeiros na Seleção. Quem sabe daqui uns 20 anos. Agora, não.

Vocês viajam, fazem encontros com treinadores importantes como Ancelotti, Mourinho, Klopp. Conversam, entendem seus métodos, por que não os trazem logo como técnicos? Reserva de mercado para os brasileiros?

Não adianta falar de fora. É preciso conhecer cada engrenagem da Seleção para perceber que não é o momento. Nós não copiamos simplesmente o que esses treinadores fazem. Nós adaptamos para a realidade do jogador brasileiro. É preciso a vivência com o nosso país. Por que não é a mesma coisa acreditar que alguém vai implantar o método do Barcelona, do Chelsea, aqui e pronto. As pessoas imaginam muito, sonham. Não têm noção da prática. A vivência hoje do Dunga na Seleção é fundamental.

Dentre os vários encontros com treinadores estrangeiros, qual o mais marcante?

Foi ótima a conversa com o Mourinho. Ele é muito firme e fala mesmo. Foi logo perguntando se queríamos mesmo discutir treinamento, métodos de futebol. Dissemos que sim e ele revelou. Há vários treinadores que se especializaram em pedir fotos ao lado dele. E depois sair espalhando que aprenderam sua maneira de trabalhar. É, as coisas são assim. Muito menos bonitas do que as pessoas imaginam. Mas eu e o Dunga gostamos muito do Klopp. Ele também é duro, desconfiado. Perguntou de cara. Se havia tantos outros técnicos mais famosos, por que queríamos falar justo com ele. Dunga não deixou por menos. Porque como técnico do Borussia, ele tinha de montar um time por ano. Montava um bom e os jogadores eram vendidos. Ele queria saber como trabalhava bem e tão rápido. Aí, o Klopp sorriu e falou. 'Amanhã no CT'. Falamos com o Ancelotti, com o Simeone. Temos uma visão importante do que acontece no futebol europeu. Não estamos olhando para o próprio umbigo. Há muita novidade tática pelo mundo. Nós estamos atrás dela. Não vamos copiar, só pegar o que for melhor e encaixar no nosso estilo. Não vamos colocar a Seleção para jogar como o Barcelona, como o Borussia, como o Chelsea e pronto. Isso, nunca.

Você soube da proposta do Guardiola? Ele queria treinar a Seleção de graça?

Nunca soube nada disso. Não chegou nada até mim. E a escolha do técnico da Seleção passa por mim. Até estranhei quando as pessoas falaram. Mas nunca ouvi falar do Guardiola na CBF.

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Dentre as situações que afastariam os técnicos de fora da Seleção está o fato de a CBF ter vendido os amistosos até 2022. Vocês não podem nem planejar contra quem gostaria de enfrentar. É uma vergonha, Gilmar.

As coisas são como são. A única coisa que eu garanto, Cosme é que pedimos adversários fortes. Mas quem tem o controle é esta empresa, (a Pitch). Foi o antigo presidente que vendeu os amistosos. Há a perda técnica, sim. Não podemos impor os adversários que seriam ideais. Talvez seja um erro. Talvez. Mas não foi nosso e já está feito. É irreversível. Fica difícil para qualquer treinador aceitar? Fica. Mas é assim e pronto. Não posso ficar chorando, imaginando como deveria ser. Há outro lado ruim. Como ela leva os jogos do Brasil geralmente para a Europa, para Londres, o torcedor vai perdendo a identificação com a Seleção. O que é uma pena. Para compensar, vamos trazer a Seleção Olímpica. Ela fará amistosos pelo Brasil até a Olimpíada. Qualquer treinador que treine o Brasil precisa entender. Cada país tem seus prós e contras.

Desculpe a sinceridade, mas vocês são loucos? Já está um desgaste danado. O Brasil perdeu a Copa América. Tem as Eliminatórias que serão difíceis demais. No ano que vem há a Copa América dos 100 anos nos Estados Unidos. Não bastasse tudo isso, o Dunga ainda fica com a Seleção Olímpica? Isso é suicídio...

De jeito nenhum. As coisas foram acontecendo. Quando cheguei, o Gallo era o treinador da Seleção Olímpica e o coordenador da base. Vi que era muita coisa. E o deixei apenas na Seleção Olímpica. Mas avisei para ele que queria um trabalho o mais cuidadoso possível. Veio a convocação para o Mundial. Falei para o Gallo checar nome a nome. Estava cansado de passar vergonha com a chamada de atletas contundidos. Foi o que aconteceu com o Grêmio. Havia um jogador importante (Matheus Piteco), contundido há dois meses. Os donos de seus direitos mandaram carta avisando que se sua contusão piorasse iria processar a CBF. Perguntei ao Gallo se ele havia chegado e disse que sim. O problema era que ele centralizava tudo. Quem deveria ligar para saber o grau das contusões de atletas importantes deveriam ser os médicos da CBF. Mas o Gallo tinha medo que as convocações vazassem. Não confiava em ninguém. Aí é impossível trabalhar. Expliquei ao Marco Polo. E decidimos pela demissão. Em cima da competição. Sabíamos que seríamos massacrados, mas preferimos agir. Graças a Deus escolhemos muito bem o Rogério Micale. Fez excelente campanha e chegou à decisão do Mundial da Austrália. Fomos vice. Mas mostrou a correção da escolha.

Mas e o Dunga, Gilmar?
Eu e o Marco Polo queríamos um treinador vivido, experiente na disputa da medalha olímpica. Sabemos muito bem o que significa. E que melhor técnico para nós? Com enorme capacidade a ponto de comandar a Seleção principal? Com a experiência olímpica (ganhou prata como jogador, em 1984. Gilmar era o goleiro daquele time que perdeu para a França. E Dunga foi o técnico que venceu o bronze em 2008). Sugeri o Dunga para o Marco Polo. Ele aceitou. Telefonamos para ele e não titubeou aceitando. Nós sabemos muito bem o que estamos fazendo. Tudo será bem dividido. O Andrey Lopes (auxiliar de Dunga) irá trabalhar junto ao Rogério Micale. Nada atrapalhará. O Dunga chegará muito bem para a Olimpíada no Brasil. Pronto para brigar pelo ouro.

A diferença da Olimpíada passada é grande. O Dunga não fez como o Mano Menezes, que tomou a seleção olímpica de Ney Franco. E há a certeza que Dunga não será demitido se não vier o ouro...

Sim. Não foi o Dunga que pediu para ir para a Olimpíada, não. Fomos nós que o colocamos. E ele não terá motivos para ser demitido pelo que acontecer em 2016. Estamos muito otimistas. O trabalho está sendo muito sério para a Olimpíada. Mas mesmo que nada dê certo, quero avisar a você e a todos. Não há nada ou ninguém que tire Dunga da Copa de 2018. Que fiquem avisados. Não há melhor treinador para o Brasil no Mundial da Rússia que o Dunga. E ponto final...
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