A dura lição com Renato Gaúcho. Jogadores com salários atrasados são péssimas fontes
Uma das situações mais agradáveis do ser humano é jactar-se. O verbo talvez entregue a minha longa trajetória nesta vida. Jactar é gabar, destacar feitos, façanhas, vangloriar-se. Escrever sobre as vitórias, as matérias que deram certo nestes 32 anos de carreira é uma enorme tentação. Como tenho recebidos inúmeros comentários de estudantes de jornalismo, me sinto na obrigação de mostrar o outro lado.

Já relatei quando dispensei a oportunidade de uma exclusiva com Neymar. Quando não quis fazer. O post está acessível, basta pesquisar.

Com a conquista do tricampeonato da Libertadores, contra o Lanús, Renato Gaúcho foi o foco das atenções. Ele conseguiu exorcizar o fantasma da derrota comandando o Fluminense, em 2008. Quando seu time perdeu o título nas cobranças de penalidades, no Maracanã.

Mas uma das minhas histórias mais complicadas com Renato Gaúcho, aconteceu muito antes.

O ano era 1995. No seu final. A Parmalat seguia absoluta, dominando o futebol do Palmeiras. Estava atrás de uma estrela. E bateu na porta de Renato Gaúcho. As negociações deveriam ser rápidas. Renato Gaúcho já estava com 34 anos. Os salários nas Laranjeiras estavam atrasados, apesar de o time ter sido campeão carioca, com um gol de barriga dele, e ter chegado às semifinais do Brasileiro.

Renato Gaúcho já estava irritado com isso. Era o ponto que os dirigentes palmeirenses buscavam explorar. Consegui com um conselheiro importante o telefone da casa do jogador. Naqueles tempos, nem pensar em celulares. Nos conhecíamos de algumas coberturas e entrevistas feitas no passado.

O diálogo foi mais ou menos assim.

"Renato, tudo bem? Sou o Cosme Rímoli do Jornal da Tarde, tenho a informação que você já acertou e vem para o Palmeiras. É verdade?"

"Olha, não vou esconder. Estamos conversando sim. E as coisas estão caminhando mais rápido do que eu imaginava. Mas não está fechado. Vamos nos reunir nesta noite para determinar se eu vou ou não jogar em São Paulo."

"Você me atende mais tarde?"

"Pode ligar, e eu te falo o que aconteceu."

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Aflito, corro para o meu editor e falo o que estava acontecendo. Nós sabíamos que a Parmalat estava querendo chamar a atenção, dar um jogador importante para Vanderlei Luxemburgo. Ele havia retornado depois do fracasso de Valdir Espinosa, Carlos Alberto Silva e Márcio Araújo. Vanderlei voltou a peso de ouro, para tentar resgatar o sucesso de 1993 e 1994. E o Palmeiras formaria um grande equipe em 1996.

"Como é que foi a reação do Renato? Esse negócio vai ser fechado?", me pergunta o editor de Esporte. "Olha, pelo jeito do Renato, a negociação está mais do que adiantada. Ele vai se reunir com representantes da Parmalat e do Palmeiras", respondo.

Era uma sexta-feira. Iria para o teatro com minha namorada. Pagamos ingressos caros. Ela estava preocupada. Intuitiva, repetia que nada poderia dar errado. O JT fechava às 21h30. Mas eu já estava com a matéria fechada, falando sobre o interesse do Palmeiras em Renato Gaúcho, desde as 20 horas. A peça iria começar às nove. Só que nós tínhamos a segunda edição, que era distribuída na capital. E só notícias importantes tinham força para que houvesse troca.

"Nós vamos dar o resultado da reunião. Se ele vem mesmo para o Palmeiras." Ou seja, adeus teatro. Minha namorada ficou possessa. Eu estava com os ingressos. Ela estava toda arrumada. Dinheiro jogado no lixo. Fim de semana de briga, discutindo a relação, que já não estava boa.

Renato Gaúcho justificava sua fama e já era responsável por mais uma separação.

Liguei as 23h20 horas.

"E aí, Renato? Fechou?"

"Olha, a reunião foi ótima. Deixamos 99,9% das coisas acertadas. A conversa foi ótima. Tenho certeza. Vou jogar no Palmeiras." Quatro palavras mágicas que nunca esquecerei, até o resto da minha vida. "Vou jogar no Palmeiras."

Uma das sensações que mais entusiasma qualquer repórter, é o furo. Dar uma informação que ninguém tem. Fomos doutrinados assim no Jornal da Tarde. Trabalhávamos na guerrilha, já que 80% do orçamento era do Estadão e nós tínhamos de nos virar com 20%. E nos virávamos. Colecionamos prêmios, matérias históricas, deixamos a nossa marca.

Repeti palavra por palavra do que o Renato Gaúcho me havia dito. Só que, lógico, com mais entusiasmo na última frase. "Vou jogar no Palmeiras." Meu cérebro deixou de lado os 99,9% de certeza. Wesley Safadão, ainda tinha sete anos, em Fortaleza. Se fosse mais velho e tivesse o mesmo sucesso, talvez me ocorresse a falta "daquele 0,1%".

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"Pois eu quero fazer uma coisa. Você vai me dizer se vale a pena arriscar tanto ou não", me disse o editor. Ele sempre foi muito comedido. Só publicava nossas histórias checadas e rechecadas. Mas ele me aparece com uma montagem com o Renato Gaúcho com a camisa do Palmeiras. Seria a capa da Edição. E também estaria no principal espaço da capa do JT.

Eram 23h30. Eu precisava escrever o texto. Falou mais o otimismo do que o bom senso. "Ah, vamos repetir a sua frase." Eu acreditava que sairia orgulhos. Tinha certeza que o destino havia feito com que trocasse o teatro e uma noite de carinho por um grande furo. E aceitava com entusiasmo esta troca.

Escrevi a matéria. E ainda levei para a minha casa, onde dormi sozinho, a edição do jornal. Com Renato Gaúcho com a camisa do Palmeiras. Logo de manhã, às 9 horas do sábado, ligo para dois amigos radialistas que cobriam o Palmeiras. E queria saber de novidades. Eles não tinham nenhuma. Minha alma ficou gelada. Telefono para o conselheiro do Palmeiras que me passou o telefone de Renato Gaúcho.

"E aí?", pergunto com o coração saindo pela boca. "De madrugada ele ligo para os dirigentes dizendo que não viria mais para o Palmeiras." Perdi o chão. Juro que minha primeira reação foi pensar em comprar todas as edições do jornal e queimá-las. Eu estava de folga. Esperei até as 10 horas e liguei para o Renato. Por sorte, ele treinaria só à tarde daquele sábado. "O que que aconteceu, Renato?"

"Depois da reunião com o pessoal do Palmeiras, os dirigentes do Fluminense souberam. E acertaram o que me deviam. Conversamos, nos aproximamos de novo. E vou ficar aqui no Rio de Janeiro. Eu falei que estava 99,9% fechado. Não garanti os 100%."

Liguei em seguida para o meu editor. Quando ele ficava nervoso, ele gritava. Quando queria explodir de ódio, passava a falar baixo, de tanta irritação Contei o que havia acontecido e ele só falou uma coisa.

"Vem para cá e conserta essa bobagem que você fez."

Adeus folga no sábado.

Outra noite dormindo sozinho.

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Chico Buarque em um refrão irônico que me marcou, cantava: "Vence na vida quem diz sim." A ideia original era "Vence na vida quem diz não." Só que a censura nos tempos da ditadura, vetou. E ela foi aprovada, com o sim.

Foi meu editor que veio com aquela ideia da montagem do Renato Gaúcho. Mas assumi como um erro só meu. Uma barrigada. Na edição de domingo, contei o que havia acontecido. O fracasso da negociação. Nunca tive tanta vergonha de assinar uma matéria.

Mas aprendi. Negociação entre jogador e clube, só 100%, com contrato assinado.

O Palmeiras investiu em Müller no lugar de Renato Gaúcho.

Montou uma equipe fabulosa no inesquecível Paulista 'dos cem gols' em 1996.

Dois anos depois, vejo o repórter que cobria o São Paulo entrar aos pulos na redação do JT. "Meu, tenho um puta furo. Renato Gaúcho vai jogar no São Paulo. Amanhã, vem ao Morumbi assinar contrato. O presidente Fernando Casal del Rey vai fazer uma festança." O ano era 1997.

Chegou o dia seguinte e não precisou de montagem. Renato Gaúcho foi ao Morumbi e mostrou a camisa do São Paulo. De maneira estranha, ele não a colocou. E deixou para assinar o contrato no outro dia.

O São Paulo aquela edição ganhou duas páginas. E a capa do JT. As declarações de amor ao tricolor paulista foram inúmeras. Mas o tal 'outro dia', o da assinatura de contrato, nunca chegou.

O Fluminense devia R$ 1,1 milhão ao atacante. Quando soube que ele estava para vir jogar no São Paulo, pagou o dinheiro. E Renato Gaúcho preferiu seguir no Rio de Janeiro. E toca o repórter a escrever outro desmentido envolvendo o jogador.

"Nunca mais vamos dar o Renato Gaúcho na capa do jornal", bradava o editor, irritadíssimo.

Fui saber de uma repórter muito próxima de Renato Gaúcho que ele detesta São Paulo. E que só viria jogar aqui em último caso. Sempre foi muito feliz atuando nos clubes cariocas. Se não dentro do campo, fora. Aproveitando as praias e as mulheres da Cidade Maravilhosa.

Vinte anos depois da ópera bufa que estrelo no Morumbi, o polêmico personagem mereceria, com louvor estar na capa do nosso jornal. Afinal, virou o primeiro brasileiro a ser campeão da Libertadores como jogador e como técnico. Mas o JT foi fechado, como uma tentativa de salvar o Estadão. A Internet surpreendeu a família Mesquita, dona dos dois veículos.

Fica a lição para os estudantes de jornalismo.

Jogador com salários atrasados, nunca é boa fonte...
33 A dura lição com Renato Gaúcho. Jogadores com salários atrasados são péssimas fontes

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