1reproducao A corajosa entrevista do fundador da Mancha Verde, Moacir Bianchi. Assassinado hoje com 22 tiros. Que ele não se torne mais uma vítima da impunidade deste país...
1º de fevereiro, 20h15.

O telefone celular não para.

Atendo.

Do outro lado da linha, Moacir Bianchi.

Depois de uma longa entrevista que me deu há quatro anos, contando a origem da torcida que fundou, a Mancha Verde, de vez em quando, me telefonava. Invariavelmente reclamava dos posts contras as organizadas. Sabia que eu sou absolutamente favorável à extinção de todas. Insistia que eu estava errado. Falava das ações sociais que a Mancha fazia e que a imprensa desprezava. Defendia até outras organizadas. Acreditava que sem elas, o futebol perdia a graça.

Insistia que os jornalistas só viam as brigas, as tocaias, as mortes.

Mas sempre em um tom amistoso, brincalhão. Gostava de lembrar das confusões que arrumou com outras torcidas. As brigas com os rivais, com a polícia. E os mesmos torcedores que se socavam, quando se encontravam, bebiam cerveja, riam. Se despediam e prometiam que levariam vantagem no próximo confronto. Até os policiais cumprimentava. Tomou várias vezes café com comandantes do 2º Batalhão de Choque, grupamento que cuida da segurança dos torcedores nos jogos de São Paulo.

Suas brigas eram sempre descritas da mesma maneira.

"Sempre na mão.

Nunca na covardia, nada revólveres, facas.

Comigo sempre foi e sempre vai ser assim.

Eu amo a Mancha, mas nunca vou matar ninguém, não."

Eu retrucava, sério.

"Moacir, você é de um outro tempo. Hoje a situação está pesada em todos os lugares. Há muita violência gratuita. Mortes a troco de nada. Ainda bem que você não é mais presidente de torcida. Não há como controlar milhares de pessoas. O país está dominado pelo desemprego, desesperança. Há muito por trás de todas as organizadas do mundo. O Brasil não é exceção. Ainda bem que você está velho", brincava.

Ele ria.

E falava que o 'velho era eu'.

E assim seguia a nossa estranha relação.

Eu publicando matérias contra as organizadas.

E, de vez em quando, Moacir reclamando.

Converso também com membros importantes de outras torcidas.

Como dirigentes, jogadores, empresários, jornalistas.

Mas entre os torcedores, Bianchi era o mais frequente.

Ele era quem mais se incomodava com a minha solitária campanha.

Não se conformava por eu insistir com o fim das torcidas.

Mas no dia 1º de fevereiro deste ano foi diferente.

Ele estava tenso no celular. Reclamou da matéria que fiz mostrando que a dona da Crefisa estava ajudando a Mancha Verde no Carnaval. E teria o apoio dos torcedores sócios na eleição.

Repetiu várias vezes que Leila Pereira havia dado o R$ 1,3 milhão via lei Rouanet.

O que para mim não mudava nada.

Ela queria ter a maior torcida organizada do seu lado.

Moacir insistiu, queria que fosse publicado a versão da Mancha.

Era seu direito. Prometi e publiquei.

Conversamos rapidamente.

Queria saber porque estava tão tenso.

Sabia que não era tinha nada a ver com o post.

Ele não quis falar.

Disse vagamente que eram algumas coisas que precisava resolver.

Moacir estava diferente, não brincou, não provocou.

Se mostrava realmente preocupado.

Desligamos.

Fiquei intrigado.

Nunca mais nos falamos.

Nesta tarde do dia 2 de março, um mês e um dia depois, recebo outro telefonema.

Do outro lado da linha, um amigo jornalista que havia lido a entrevista que fiz com o Moacir em 2013.

E me falou de maneira direta.

"Assassinaram Moacir, o fundador da Mancha. Foram 22 tiros."

Fico estupefato.

Vou buscar mais informações e elas confirmam a terrível realidade.

Seu carro estava perfurado.

Seu corpo recebeu 22 tiros.

A Polícia Militar está investigando o crime.

A Mancha Verde divulga uma nota.

Depois de 34 anos ela encerra suas atividades por tempo indeterminado.

2reproducao A corajosa entrevista do fundador da Mancha Verde, Moacir Bianchi. Assassinado hoje com 22 tiros. Que ele não se torne mais uma vítima da impunidade deste país...

"Hoje recebemos a triste notícia que nosso fundador e ex-presidente Moacir Bianchi foi encontrado morto.
Não temos palavras para descrever o que sentimos nesse momento. Uma pessoa que tanto lutou para que a Mancha Verde pudesse se tornar uma grande torcida, e para que a torcida do Palmeiras fosse respeitada. Moacir fez da Mancha Verde a sua vida.
Seu nome está escrito em nossa historia e jamais será apagado. Que Deus possa confortar toda sua família e receba nosso fundador em um bom lugar.
Informamos também que em meio a diversos problemas que a torcida vem passando, e em cima dessa notícia de uma morte que deixou todos nós da torcida completamente abalados, comunicamos a todos os associados que a torcida Mancha Alviverde, após 34 anos de fundação, está encerrando suas atividades por tempo indeterminado.

Obrigado a todos que até aqui ajudaram a construir o nome da Mancha Verde."

Lastimo a morte de qualquer pessoa.

Ainda mais dessa maneira, executado, sem piedade.

Nunca fui íntimo de Moacir.

Mas percebia, de verdade, que ele era mesmo de outro tempo.

Se revoltava com a violência atribuída às organizadas.

Não aceitava mortes em brigas com torcidas rivais.

Não tolerava drogas.

Nem ouvir falar que as facções criminosas se aproximavam das torcidas pelo dinheiro que poderiam gerar.

Dizia não acreditar que isso poderia acontecer.

Mostrava um purismo incompatível com a realidade.

A Mancha Verde era seu clã.

Sua família.

E representava a união daqueles que amavam o Palmeiras.

"Não sou ingênuo, acredito nas pessoas, Cosme."

Essa era sempre sua resposta.

Aqui, a entrevista de 2013.

Descanse em paz, Moacir...

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"Impunidade.

Incompetência, desleixo das autoridades.

Foi por isso que a violência domina as organizadas do Brasil.

Tivessem coibido no início, há 30 anos não tinha chegado onde chegou.

Hoje é covardia.

Caras fazendo fila para pisar na cabeça do outro.

Revólver, faca, bomba caseira.

O estimulante para os garotos: a sensação que não haverá punição.

Grande parte dos torcedores organizados acredita que nada acontecerá.

Que pode fazer o que quiser nos estádios de futebol.

A culpa é das autoridades, dos vários governos frouxos no Brasil.

O que acontece hoje é assustador, repugnante.

E principalmente covarde."

As palavras são de Moacir Bianchi, 45 anos.

Dono de casa noturna em São Paulo.

Sabe muito bem o que fala.

Foi um dos fundadores da Mancha Verde.

Torcida do Palmeiras que ganhou a fama de ser a mais violenta do País.

Foi presidente e participou de conflitos históricos.

A invasão na sala de troféus, a briga na Supercopa São Paulo em 1995 são bons exemplos.

Seu nome, muito respeitado, quase uma lenda.

Ainda é consultado para as decisões mais importantes da torcida.

"Briguei demais, fui muito atuante.

Eu, o Paulinho Serdan, que virou meu irmão.

Nós criamos a Mancha Verde para que o palmeirense fosse respeitado nos estádios.

Antes éramos massacrados pelas outras torcidas em São Paulo.

Houve alguns exageros, mas nunca fomos covardes.

Não demos tiros em ninguém, facadas, nunca matei ninguém graças a Deus.

Nós brigávamos por nosso espaço.

Conseguimos adquirir o respeito à força.

Mas as coisas saíram do controle em relação a muitas organizadas.

Eu, o Paulinho e alguns companheiros antigos continuamos fortes na Mancha.

E lá as coisas estão no seu lugar.

Mas vejo o descontrole que tomou conta do Brasil.

Não gosto de falar, sei que a imprensa tem uma imagem distorcida da gente.

Você, Cosme, é nosso crítico ferrenho, eu sei.

As pessoas comentam na torcida.

Mas é até melhor assim.

O questionamento fica mais verdadeiro.

Pode perguntar o que você quiser."

Perguntei.

Por que o Brasil perdeu o controle das organizadas?

Porque as autoridades foram omissas, incompetentes, cegas. Tudo cresceu debaixo do nariz do governo. Eu perdi as contas de quantas vezes eu briguei em estádios de futebol. E fui detido por policiais em seguida. Ia tranquilo, sabia que nada de sério iria acontecer. Ficava detido até o final do jogo, tomava umas borrachadas e ia embora. Isso do início da década de 80 até o início dos anos 2000. Foram mais de vinte anos. Se na primeira vez que tivesse brigado fosse preso, fichado...Na segunda, tivesse de cumprir um mês de cadeia. Na terceira, dois meses...Você pode ter certeza que não brigaria a quarta vez. Mas a impunidade é a maior incentivadora dos torcedores organizados. E vou deixar claro que só é uma parcela de uns 10%, 20% que gostam de brigar, não são vândalos como você gosta de escrever. Nós brigávamos por manter o nosso espaço. Ninguém nunca pisou na Mancha Verde e nem vai pisar. Nós arrancamos o respeito à força. Muita gente abusou de palmeirense por tempo demais. Nós acabamos com isso.

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Como assim? Explique melhor. Como foi o nascimento da Mancha Verde?

Havia a TUP que tinha uns 20 mil torcedores. Mas era muito pacífica. Torcidas grandes, principalmente a Gaviões, cansou de botar para correr os palmeirenses da TUP dos estádios. Eu, o Paulinho, o falecido Cléo e muitos outros companheiros ficávamos revoltados com isso. Tínhamos 13, 14, 15 anos. Resolvemos fundar o Inferno Verde para acabar com essa situação. Mas éramos poucos. Como todo adolescente, nós eramos revoltados. E facilmente inflamados. Ninguém se conformava do jeito que nos tratavam. O atual presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, fazia parte da Inferno Verde. Apesar de muito rico, ele também não gostava do que acontecia conosco nos estádios. A ala mais radical da Inferno resolveu criar a Terror Verde. O símbolo seria um vampiro saindo do caixão. Mas resolvemos à última hora mudar o nome. E adotar Mancha Verde. Foi até uma homenagem. Já havia um grupo de 20 torcedores briguentos que a tinham criado, mas desistiram, cansaram. Nós resolvemos levar adiante. Aí tudo começou para valer.

O que fez a fama da Mancha Verde?

Foram as nossas brigas. A cada jogo que brigávamos nos estádios, na partida seguinte tínhamos mais 200, 300 sócios. Fomos crescendo de forma alucinante. Muito adolescente palmeirense estava revoltado. Era o período do jejum, estávamos cansados de ser zuados. Fora a revolta natural que domina o adolescente. As pessoas que se dizem intelectual não percebem: as organizadas são um fenômeno social. Está lá o cara ferrado, terminando o colegial, sem saber que rumo ter na vida, brigando com os pais, sem trabalho por causa do Exército, sem rumo. Aí aparece um bando igual a ele, com o amor a um clube a flor da pele. O adolescente descobre uma família na torcida organizada. Fazer parte dela é adquirir respeito da sociedade. O cara era um largado e descobre o prazer de ser respeitado, temido. E por essa família é capaz de tudo. Principalmente brigar, enfrentar quem a desrespeita. Por isso a Mancha Verde virou a torcida com fama de mais violenta do país. Na verdade é a que mais brigou para ser respeitada. E conseguiu.

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O cenário estava montado. Jovens que descobriram uma razão para viver. Autoridades omissas. Por isso as organizadas foram difundidas no Brasil...

Isso mesmo. Virou uma briga por território. Lembro da nossa primeira briga. Fomos a um jogo de basquete do Palmeiras contra o Sírio. No ginásio deles. Do nada começamos a provocar a torcida adversário. Estávamos em uns vinte e eles mais de mil. Ninguém acreditou naquela loucura. Vieram vários deles para brigar. E nós nos juntamos. Apanhamos muito, mas ninguém fugiu, deu para trás. Esta história correu entre os palmeirenses. Logo vários adolescentes estavam querendo entrar para a Mancha. E logo fomos ganhando espaço nos estádios. Enfrentando as outras torcidas. O estádio era visto como um espaço a conquistar. O prazer estava em tirar as faixas dos adversários e colocar as nossas. As estratégias lembravam muito guerras de exército. Foi uma loucura, briga em cima de briga. No Maracanã, Brasil e Chile, em 1989 foi um absurdo. Nós nos juntamos à torcida do Vasco. E limpamos todas as faixas das outras torcidas. Tiramos a do Corinthians, Flamengo, o resto. Só ficou a da Mancha, do Vasco e do Botafogo que era aliada. Só. Foi briga em cima de briga.

Mas tudo mudou em 1988. Tudo ficou mais sério, grave.

Seu amigo, Cléo Sóstenes, então presidente da Mancha Verde foi assassinado a tiros...

Nem me fale. Isso me revolta até hoje. Foi quando começou a covardia. Ele morreu por inveja do sucesso que a Mancha Verde estava fazendo. Tinha 23 anos. Sofreu uma covarde tocaia em frente da sede da Mancha. Cléo será eterno. Seus ideais foram alcançados. Criamos uma torcida organizada que não acabará nunca. Respeitada no Brasil todo. Mas eu não tenho porque mentir. Depois da morte do Cléo, as brigas ficaram mais pesadas em todo o país. Acabou a ingenuidade. Quebraram o código de honra. Era quase uma farra adolescente brigar. Quando, por exemplo, alguém caia no chão, parávamos de bater. E também as outras torcidas. Era um hematoma, uma perna dolorida, um olho inchado. Ninguém queria matar ninguém. A muito custo, nós líderes das organizadas conseguimos, na época, evitar o derramamento de sangue. Foi terrível, perdemos o Cléo. Deixamos de ser ingênuos, mas não viramos covardes.

A segunda morte registrada realmente só aconteceu quatro anos depois. O corintiano Rodrigo de Gasperi, de 13 anos, foi morto por uma bomba caseira atirada pela torcida do São Paulo. Era um jogo da categoria de base...

Com o passar do tempo, tudo foi ficando mais covarde. Com torcidas deixando de sair na mão para não apanhar. E começaram a usar bomba de fabricação caseira, revólveres, facas. Isso a gente não admite na Mancha Verde ainda hoje. Se tiver de brigar vai ser como homem, com as mãos. Mas outras torcidas não fazem isso. Por isso torcedores passaram a morrer. Eu sou pai de família. Lamento, não era isso que eu queria. Mas não posso passar por alienado. Isso é um fenômeno só do futebol? Não, não é. A sociedade brasileira ficou muito mais violenta. Veja os índices de assassinatos, assaltos, agressões. Tudo subiu demais. A população brasileira quase dobrou desde o início da Mancha nos anos 80. A violência chegou nas organizadas com tudo por causa da impunidade. As leis fracas impedem o policial de tomar atitude. Ele sabe que vai prender hoje e soltar amanhã. Por isso não prende. E passa essa ideia ao adolescente que é intocável. Essa é a base de tudo.

Há muita droga nas organizadas?

Na Mancha há a determinação para quem for pego cheirando ou vendendo cocaína ser expulso. Não podemos controlar o que mais 40 mil sócios fazem em casa, na rua. Mas nos estádios, nos ônibus isso não acontece na Mancha. Nas outras não posso falar. Só que repito que as torcidas refletem o que é a nossa sociedade. Tudo de bom e ruim que a sociedade tem, as torcidas têm. Somos seres humanos, não bandidos como querem nos pintar.

Que sensação você ficou assistindo as cenas de Atlético Paranaense e Vasco?

Quando torcedores fizeram fila para pisar em rivais desmaiados...

Vou dar a visão que falta à imprensa. A de dentro. Eu já passei muitas vezes por essas situações. Principalmente na briga de 1995, quando mais de 20 são paulinos vieram para me bater com pedaço de pau no Pacaembu. Eu consegui me defender. Preste atenção. Todos que estavam nos conflitos não eram anjos. Estavam na linha de frente para brigar. Bater muito e também apanhar muito faz parte do jogo. Os atleticanos eram maioria. Correram para cima dos vascaínos. Os torcedores cariocas que reagiram mereceriam medalhas e não críticas. Se eles não enfrentam os rivais, iriam imprensar o resto da sua torcida nas grades. Haveria mortes por esmagamento. Os vascaínos que foram trocar socos, salvaram vidas de seus companheiros. Quem caiu e foi pisoteado não era inocente. Hoje há muita covardia, gente quer matar o rival. Ainda mais com a televisão mostrando. Mas quem mereceria ser preso é quem organizou um jogo de alto risco com seguranças privados, despreparados. O torcedor é vivo, sabe que segurança privado não é policial. E não respeita mesmo. Foi um crime o esquema de segurança em Joinville. Foi muita sorte não ter morrido ninguém. Mas repito: quem fica na linha de frente não é anjinho. Dá para ter dó dos pisoteados. Mas não perder o senso. Eles estavam querendo brigar. Pagaram caro, se deram mal. Como poderiam ter batido muito. Foi uma questão de sorte. As brigas no meio de torcedores é assim.

Qual a melhor maneira de punir os torcedores criminosos? Os que vão para brigar nos estádios? Identificando? Responsabilizando os presidentes das organizadas?

Ouvir isso é um absurdo. Um torcedor descontrolado mata outro e quem paga é o presidente que não fez nada? Isso, não. A identificação poderia ser importante. Mas para mim e muita liderança de torcida organizada no Brasil, o caminho é fácil. Repetir o que São Paulo fez no início dos anos 90. Nomeou os presidentes das principais torcidas paulistas responsáveis pelo espetáculo. Com direito a carteirinha e tudo. Nos sentimos parte de verdade do espetáculo. E cuidamos para que não houvesse briga, desavenças. Foi um período fantástico de calma. Tínhamos muito orgulho do nosso cargo. Nos reuníamos com policiais, mostrávamos os pontos onde conflitos poderiam acontecer. Mas depois a filosofia mudou. Nos tomaram a carteirinha. Foi como se deixássemos de ter importância. Muita gente ficou revoltada. E as brigas passaram a ser mais selvagens. É preciso haver o entendimento entre as torcidas e as autoridades. Por decreto, prendendo gente apenas isso não irá se acalmar. As organizadas precisam estar comprometidas, fazer parte do sistema.

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Mas enquanto isso não ocorre, há exageros. São cerca de 30 mortes com o envolvimento de torcidas este ano no Brasil. E me explique, porque a Mancha Verde comprou jazigos em um cemitério? Já esperando vítimas dos confrontos?

Ótimas perguntas. Vamos por partes. Houve 30 mortes com o envolvimento de torcidas. Mas quantos assassinatos ocorreram no Brasil este ano, sem envolvimento de torcidas? Quantos sequestros? Quantos roubos? Quantos estupros? Não defendo morte alguma, me entenda. Mas a sociedade ficou violentíssima. Somos mais de 200 milhões de pessoas. Quantos desempregados? Quanta criança subnutrida, na miséria. De repente, a imprensa sabe que falar de torcida vende. Mas o sistema estimula a violência e desigualdade em todos os lados. No futebol estimula a impunidade. Infelizmente, as mortes acontecem por falta de controle do Estado. O governo é incompetente em uma sociedade violenta. Quanto aos jazigos comprei porque a Mancha Verde cuida dos seus sócios. Muitos não têm dinheiro nem para pagar a mensalidade. Infelizmente enterramos dois garotos brilhantes, dois irmãos mortos a tiros em um confronto com corintianos. Mas também foi enterrada a mãe de um sócio que não tinha dinheiro para o funeral. Outro sócio morreu doente e foi enterrado lá. Mas a imprensa só noticiou o enterro dos garotos mortos no conflito. A Mancha Verde tem atividades beneficentes há décadas. Mas não interessa porque não vende. O que importa é a violência.

A Mancha independe do dinheiro do Palmeiras? O quanto atrapalha o rompimento com Paulo Nobre?

Nós somos independentes financeiramente. Temos mensalidade, nossas festas, nosso Carnaval. O Palmeiras não nos ajuda em nada. O que fazia era separar ingressos que nós pagávamos. Agora nem isso. O presidente quis romper por causa do Valdivia. O jogador nos desrespeitou. O Palmeiras fazendo uma campanha fraquíssima na Libertadores, fomos cobrar e ele mostrou a genitália. Isso não se faz com homem, seja torcedor ou não. É um enganador, que já fez fortuna às custas do Palmeiras. Não é e nunca será nosso ídolo. Agora quanto ao Paulo Nobre, não tem problema algum. Seguimos a nossa vida. Sabemos muito bem organizar as finanças da Mancha Verde para não ter de depender de clubes como algumas torcidas sempre fizeram. Nós respeitamos. É a maneira como cada uma encara a vida.

A violência da Mancha Verde não espanta jogadores que poderiam vir ao Palmeiras? Caçar o ex-presidente Tirone, destruir o restaurante do ex-vice Frizzo? Queimar a loja oficial do clube no Palestra Itália?

Houve sim alguns exageros. Erramos em relação ao Tiro, ao Frizzo. Não sei quem queimou a loja do Palmeiras. Seja quem for, foi um erro absurdo e que não levou à nada. O Palmeiras foi rebaixado outra vez. Em relação a jogadores, a Mancha só deu uns tapas no Vagner Love. E com motivo. Eu sou dono de uma casa noturna, uma boate. Ele apareceu de madrugada e cheirando à bebida em uma sexta-feira. No domingo, o Palmeiras iria enfrentar um jogo decisivo em 2009. Ele andou em campo. O Lagartixa (Neilo Ferreira e Silva) perdeu a calma ao encontrá-lo em um estacionamento de um banco. O Palmeiras perdeu o Brasileiro mais fácil de sua vida e deixou de disputar a Libertadores. Cobrou forte do Vagner Love. Ele e mais dois membros da Mancha. Eles estavam tão certos que o Vagner não os processou. A imprensa só fica com a metade das histórias.

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O Palmeiras não tem dinheiro. Passa pela sua cabeça o clube rebaixado no centenário? Você participou da invasão da sala de troféus em 1990?

De jeito nenhum. O Paulo Nobre sabe que sofremos dois rebaixamentos em dez anos. Isso foi muita incompetência. Ele que se vire para arrumar patrocinador. Busque jogador importante. Vamos inaugurar o nosso estádio. O Palmeiras fará 100 anos. É preciso muito respeito em 2014. Vamos ajudar no que puder. Não quero nem pensar em rebaixamento. E é verdade. Eu que dei a ideia de invadirmos a sala de troféus em 1990. O Palmeiras enfrentava um jejum absurdo. Quando empatou com a Ferroviária em 0 a 0 e deixou de decidir o Paulista, não tive dúvidas. Comandei a invasão à sala de troféus. Foi um protesto. Queria reverenciar o passado. Foi puro desespero. Parecia que o Palmeiras nunca mais iria ganhar nada. Peguei até uns troféus e levei para casa. Na manhã seguinte os devolvi, envergonhado. Foi um grande erro.

Você acha que no Palmeiras se repetirá o que aconteceu no Corinthians? Quando Andrés Sanchez, um chefe da Pavilhão Nove, virou presidente?

Não tenho a menor dúvida. Isso vai acontecer. O Paulinho Serdan está sendo preparado para isso. Assim como a Gaviões fez, há vários membros da Mancha que se tornaram sócios do clube. Com direito a voto na próxima eleição. A viver a política do clube. Será apenas uma questão de tempo, os torcedores chegarem ao poder no Palmeiras. O Andrés sabe que ele fez um trabalho que merece toda a minha admiração. Modernizou o Corinthians, contratou Ronaldo, tirou o clube das trevas. Há muita coisa no Palmeiras que precisa ser modernizado. Principalmente o domínio das mesmas famílias. Nosso tempo vai chegar. Tenho absoluta certeza que o Paulinho será um excelente presidente para o Palmeiras.

Muita gente acredita que a solução para o futebol brasileiro está na extinção das torcidas organizadas. O que você acha disso?

Escreva o que estou falando. Seria o caos. Os grupos de irmãos já estão formados dentro das organizadas. As torcidas centralizam esses torcedores. Com o fim delas, todos estariam dispersos. E a luta não seria mais para dominar o estádio. Seria para dominar os bairros, as estações de metrô, as ruas. Seriam várias guerras espalhadas pela cidade. Sem o menor controle. Porque as autoridades podem ter certeza de uma coisa. As organizadas de verdade, com décadas de vida, com filosofia, não acabarão nunca mais. Nunca! Pode nos mudar o CNPJ, nosso nome. Mas as pessoas não se separarão jamais. As irmandades durarão para sempre. O amor fraterno que sentimos por nossos parceiros, companheiros de estrada não acabará por decreto. Vou ser bem claro porque quero ser entendido. O Palmeiras pode até acabar. Mas a Mancha Verde, não. Ela não morrerá jamais. Jamais!

Hoje a Mancha é a organizada mais violenta do Brasil?

Não. E nem queremos esse rótulo. Conseguimos o que queríamos ser respeitada. Não há um lugar no Brasil que não respeite a Mancha Verde, torcida principal do Palmeiras. Atingimos o nosso objetivo. Só que ninguém pisa na Mancha. Mas nem é preciso repetir isso. Todos já sabem...

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