1reproducao11 1024x682 2014 era o meu momento. Não o do Dunga ou de qualquer outro. Fiquei em dúvida em assumir em 2016. Poderia ficar marcado como o cara que não classificou o Brasil para a Copa. Pensava tu sonhou com isso e te fodeu. Isso ficou na minha cabeça nas Eliminatórias. Tite para o El País...
Em entrevistas para veículos internacionais, treinadores e jogadores brasileiros costumam se soltar mais. Fazem suas revelações como se elas chegassem apenas ao país que o entrevista.

Foi o caso de Tite. Ele deu uma entrevista ao jornal El País da Espanha. E nela, foi mediu palavras. Foi mais adiante do que costuma ir nas conversas com repórteres por aqui.

Falou sobre sua aversão à ditadura militar, sobre a pesquisa que mostrou seu nome como o predileto para presidente na visão 15% da população. Foi além, deixou claro que deveria estar comandando o Brasil desde 2014 e Dunga ocupou por dois anos um cargo que, por direito, deveria ser seu.

Tite amanhã na Austrália faz o primeiro dos oito amistosos que considera fundamentais antes da Copa do Mundo de 2018, contra a Argentina, com seu novo treinador, Sampaoli.

Sabe que, a um ano do Mundial, começará a fase decisiva. De depuração do time. Quer e vai testar o máximo de opções. Nestas partidas, sem o time principal, como a de amanhã, seu prestígio poderá ser abalado. Ele não se importa. Não seguirá o caminho de Dunga, por exemplo. Dar o máximo nos amistosos, não fazer testes algum e passar a falsa impressão que tudo está pronto.

Tite estuda cada passo que dá como técnico da Seleção.

O Brasil tem o comandante melhor preparado para o cargo.

Finalmente...

Como você tem recebido os pedidos por “Tite presidente” e a pesquisa que aponta seu nome com 15% das intenções de voto para 2018?

Eu levo essa história como uma brincadeira e uma demonstração de que os brasileiros estão felizes com a seleção brasileira. Não só com o resultado, mas com o jeito que a equipe está jogando. Eu interpreto dessa forma. Como ser humano, eu torço para que a sociedade consiga caminhar para ter mais igualdade social e para que todos os responsáveis por crimes de corrupção sejam punidos. Impunidade é algo que me machuca. Eu vibro muito quando o Ministério Público e a Polícia Federal cumprem seu papel e não se deixam pressionar por interesses políticos. Isso sem contar a imprensa, que nunca foi tão importante para ajudar a esclarecer os fatos. Apoio todos os procedimentos que trazem a verdade à tona.

Já recebeu convites para se filiar a algum partido?

Qualquer pessoa que me conheça minimamente não vai chegar perto de mim para propor filiação ou qualquer outro envolvimento com partidos nesse momento. Eu sou uma pessoa que se preocupa com o que se passa além do futebol. Quero fazer alguma coisa positiva através do meu exemplo. Mas não tenho ambição política nem pretendo me candidatar a nada. Não é o que eu busco. E também não tenho nenhuma vocação para a política.

25 2014 era o meu momento. Não o do Dunga ou de qualquer outro. Fiquei em dúvida em assumir em 2016. Poderia ficar marcado como o cara que não classificou o Brasil para a Copa. Pensava tu sonhou com isso e te fodeu. Isso ficou na minha cabeça nas Eliminatórias. Tite para o El País...

Antes de se tornar treinador, você chegou a fazer militância partidária?

Eu participava do grêmio estudantil na faculdade e externava minhas opiniões. Mas nunca me envolvi com partidos políticos.

Não se engajou nem mesmo nos movimentos contra a ditadura militar?

Esses dias eu estava conversando com meu filho. Ele não pegou a época da ditadura. A gente assistia a um programa na televisão e um analista político pontuou que muitas pessoas, descrentes com a política, passaram a aventar situações do passado como solução à crise, tipo o regime militar. E aí meu filho me fez uma pergunta: "Pai, como é que era a ditadura?". Mostrei pra ele o quanto eu fico chateado de ver pessoas na rua cogitando a possibilidade de que uma ditadura possa solucionar algo. O que teve de gente morta, de incapacidade de dar opiniões, de cerceamento à liberdade de imprensa, de corrupção que não era investigada naquele período… Definitivamente, não é esse o caminho. Ditadura não é solução. O caminho passa por uma depuração natural, como também acontece no esporte. É preciso lutar para que o sistema democrático se aprimore e para que os escândalos de corrupção sejam esclarecidos. Tenho certeza que novas lideranças políticas surgirão no Brasil.

Quando despontava como jogador de futebol, no interior do Rio Grande do Sul, a ditadura te afetava de alguma maneira?

Eu não era diretamente afetado pela ditadura e não tinha informação sobre o que era o regime militar. Hoje eu tenho muito mais informações para compreender o passado. Tem um livro do Marcelo Rubens Paiva [Ainda estou aqui], contando o que o pai dele sofreu na ditadura, que é fantástico. Faz a gente conhecer um pouco sobre a brutalidade da repressão naquela época. Precisamos nos informar sobre isso, independentemente de ter uma ou outra tendência política. Todos nós temos preferências, mas é fundamental conhecer a história.

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Como um homem ligado ao esporte, acha que pode dar alguma contribuição nesse momento de instabilidade política do país?

Na minha atividade, eu posso e quero contribuir com a sociedade. O esporte educa. É a ferramenta de educação mais barata que o Brasil tem à disposição. Se for jogar uma peladinha de dois contra dois, tu tem de respeitar regras. O Sócrates falava muito disso. O futebol é um instrumento de educação. E qual é a contribuição que posso dar ao Brasil? O exemplo. Eu quero vencer por ser mais competente, mais ético e mais leal, com a autoestima elevada. O que significa autoestima elevada? É não precisar de subterfúgio para vencer. Eu posso ganhar tendo orgulho de ser melhor que o meu adversário. Dentro das regras do jogo, sempre. Isso eu acho do c…! Eu não preciso da arbitragem, só que quero que ela seja imparcial. Eu não preciso da malandragem. Eu posso ser melhor que isso.

E aí entra o exemplo do Rodrigo Caio [ele evitou que o atacante Jô recebesse um cartão amarelo no clássico contra o Corinthians depois de se acusar ao árbitro], que você elogiou na última convocação?

O gesto do Rodrigo Caio transcende a situação de jogo. Ele não precisa do cartão ao adversário. Ele precisa ser superior. Eu valorizo o processo, não só o resultado. Errar é humano. Mas eu procuro não errar na ideia.

Rogério Ceni, técnico do Rodrigo Caio no São Paulo, disse que, se esse for o critério, todo jogador que demonstrar fair play terá de ser convocado…

Não quero citar ninguém e nem entrar no mérito da questão. Eu apenas manifesto a minha convicção. Respeito todas as opiniões, mas essa é minha linha de trabalho, com os valores nos quais eu acredito. Cada um que faça as manifestações que bem entender e responda por elas. Mas quero deixar uma situação bem clara [faz uma pausa e pega um papel com estatísticas de jogadores em sua mesa]. O Rodrigo Caio teve quatro convocações comigo, não foi convocado agora. Está na seleção por sua qualidade técnica e conduta pessoal. Eu tenho uma responsabilidade muito grande, de passar uma mensagem à sociedade sobre como se trabalha na seleção. Vai ganhar ou perder? Não sei. Ninguém aqui vai tirar a perna de dividida, mas vai dividir de forma leal. Ninguém vai querer enganar a arbitragem. Queremos ser mais competentes e qualificados, jogando bola.

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Ao ser apresentado como técnico da seleção, você fez questão de exaltar o trabalho do Dunga, seu antecessor. Ainda assim, mantém a convicção de que deveria ter assumido antes o cargo?

[Respira fundo] Eu me preparei e, em 2014, depois da Copa, achei que seria convidado. Entendi que era o meu momento, não o do Dunga ou de qualquer outro técnico. Não porque eu seja melhor, mas porque aquele era o meu momento profissional. Como não fui convidado, entendia que o treinador escolhido deveria terminar sua etapa. Não defendo nomes. Eu defendo uma ideia. Os profissionais no Brasil precisam ter uma sequência de trabalho. Como o futebol mexe muito com a emoção, os dirigentes geralmente não têm a capacidade de bater o martelo e bancar a continuidade de um projeto.

O convite só veio após o Dunga ser demitido, quase dois anos depois da Copa. Temia que isso também pudesse acontecer com você?

Eu tive dúvidas em assumir a seleção brasileira. Pensei muito. Uma coisa é tu assumir no início de um trabalho e ter 18 jogos pela frente. Outra é assumir no meio do caminho. Eu não tinha tempo para errar. A minha margem de erro era muito pequena. Iríamos enfrentar o Equador, que dividia a liderança das Eliminatórias com o Uruguai, na altitude de Quito, e a Colômbia, que é a equipe sul-americana que mais cresceu nos últimos anos. Pesei tudo isso antes de aceitar o cargo. Eu corria um grande risco. Tinha o sonho de treinar a seleção, mas poderia ficar marcado como o cara que não fez um bom trabalho e não classificou o Brasil para a Copa do Mundo. “Tu sonhou com isso e te fodeu!” Essa apreensão passava pela minha cabeça.

Então deve ter se sentido aliviado quando venceu o Paraguai e confirmou a classificação para a Copa…

Porra! Tu não imagina o quanto [reclina-se na cadeira e estende as mãos para o alto]. Quando terminou o jogo na Arena [Corinthians], eu peguei a minha esposa depois da entrevista coletiva e fui com ela pro campo. Já estava tudo escuro, o estádio vazio. Sentamos no banco de reservas, eu estiquei as pernas e falei: “A gente vai pra Copa do Mundo”. Foi um grande peso que tirei das minhas costas.

 2014 era o meu momento. Não o do Dunga ou de qualquer outro. Fiquei em dúvida em assumir em 2016. Poderia ficar marcado como o cara que não classificou o Brasil para a Copa. Pensava tu sonhou com isso e te fodeu. Isso ficou na minha cabeça nas Eliminatórias. Tite para o El País...

Sentiu maior alívio nesse dia ou naquele empate contra o São Paulo, no Morumbi, em 2011?

Seguramente foi a classificação da seleção. Naquele 0 x 0, eu tinha um domínio maior do grupo e uma boa sequência de jogos no Corinthians. Foi um jogo importante. Eu tirei o Chicão dessa partida e hoje temos um relacionamento muito legal. É claro que, naquele momento, deu uma estremecida. Normal, natural, foi por motivo disciplinar. Mas nossa grandeza estava acima disso. Poderia acontecer de eu ser demitido em caso de derrota no clássico, mas não tinha essa sensação. Existia uma relação de confiança no trabalho, sobretudo da diretoria. Diferentemente da seleção, em que a gente tinha menos contato [com a direção] e a necessidade de retomar os bons resultados. A pressão aqui foi mais pesada.

Qual time gosta de ver jogar ou serve como referência para o seu trabalho na seleção?

Uma equipe que me marcou, por privilegiar aquilo que eu busco como ideal, foi o Real Madrid do Ancelotti. Conciliava criação com agressividade. Quando tu tem Modric, Toni Kroos, Isco e James, que são quatro jogadores que criam pra caralho, e ainda Cristiano Ronaldo e Benzema na frente, puta que pariu! Como é que tu faz pra equilibrar esse time? Aí o Ancelotti segurava o Carvajal e o Marcelo e dava uma sustentação maior do lado esquerdo com o Isco. Era um sistema defensivo forte, com uma linha de quatro jogadores e um processo criativo e ofensivo monstruoso. O Barcelona do meio pra frente é espetacular, mas não tem essa consistência defensiva. E olha que o Ancelotti jogava com jogadores mais ofensivos que o Zidane, porque ele não tinha o Casemiro no time. Ele conseguiu associar criatividade e agressividade com a escola defensiva italiana. É muito difícil alcançar essa harmonia.

Há uma nova geração de treinadores, que alia a formação teórica à prática no campo, despontando no Brasil. Acredita que muitos técnicos se tornaram obsoletos nesse processo de renovação?

Não podemos confundir estilos com qualificação. Quer ver um cara extremamente contemporâneo e moderno? Abel Braga. Tem ideias novas e uma percepção extraordinária, está fazendo um trabalho de vanguarda no Fluminense. Do outro lado, temos Zé Ricardo, Jair Ventura, Carille, Eduardo [Baptista], Roger [Machado]… O Roger, por exemplo, mudou um conceito de futebol no Atlético, que evoluiu de um time mais agressivo para um time mais posicional, que mantém a posse de bola. Conseguiu fazer isso, o que é bastante difícil, num curto espaço de tempo. Eu sei que meu estilo não agrada a alguns. Normal. Assim como existem estilos de outros técnicos que não me agradam. Mas precisa existir o respeito ao trabalho de cada um.

A comissão técnica encabeçada por Felipão e Parreira afirmava que o Brasil tinha a obrigação de ganhar a Copa do Mundo. Mesmo não jogando em casa em 2018, você também enxerga dessa forma?

Eu não gosto de fazer comparações com situações passadas. O que posso dizer, da minha parte, é que a seleção brasileira sempre vai ser protagonista e uma das postulantes ao título. Isso a gente assume. O quanto a equipe vai chegar forte depende do trabalho de consolidação até a Copa. O que marcou em 2014? A grande pressão que atletas e comissão técnica sofreram com a obrigação de ser campeão em casa. Emocionalmente, isso é muito pesado. É desumano. Qualquer coisa que não fosse o título seria insatisfatória. Não me iludo pelo fato de a seleção estar bem agora. Eu sei que as críticas virão e é normal que isso aconteça. Mas acredito que chegaremos preparados para lutar pelo título.
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