
A reviravolta de Dorival Júnior no Flamengo é incrível
Enfrentou a diretoria, o desejo por Mano Menezes.
A falta de recursos, a saída de Vagner Love, seu jogador de confiança.
E montou um surpreendente time, com campanha irretocável no Carioca.
Aos 50 anos, Dorival é o treinador mais animado neste início de 2013.
Sabe o quanto precisa de resultados, conquistas.
Sua carreira necessita de uma definição.
É um treinador de times médios ou merece ficar na elite, com os grandes?
Muito trabalhador, foi subindo devagar.
Degrau por degrau.
De estilo conservador, sem grandes ousadias táticas, os times de Dorival são interessantes.
Os que deram certo conseguiram se impor diante dos adversários.
Não com genialidade, mas a firmeza da estratégia.
Ex-volante de relativo sucesso, conhece o poder da marcação.
Traz o DNA do tio, Dudu, carregador de piano do grande Palmeiras da década de 70.
Do meio para trás, o sobrinho opta pela seriedade.
Laterais descendo, mas só com cobertura.
Seus volantes primeiro marcam e depois atacam.
Do meio para a frente aprendeu com os meninos Santos.
Combina infiltrações, tabelas, descidas em bloco.
Mas deixa espaço para o improviso. Pouco, mas deixa.
As imensas dívidas do Flamengo o atrapalharam, mas salvaram seu emprego.
A nova diretoria que assumiu queria uma reformulação completa no clube em 2013.
A começar, lógico, pelo futebol.
Paulo Pelaipe queria o cargo de Dorival Júnior e colocar Mano.
Os dois marcaram época no Grêmio.
Choraram juntos, abraçados, na Batalha dos Aflitos.
Mas Dorival tem contrato até o final do ano.
A multa para sua saída é de R$ 2 milhões.
O presidente Bandeira de Mello avisou a Pelaipe que não queria pagar.
Se Dorival quisesse sair, teria de ser sem receber nada.
O diretor de futebol tentou usar de estratégia.
E se deu mal.
Acreditou que se afastasse o preparador Celso de Rezende, forçaria a situação.
Dorival Júnior pediria demissão do clube.
Não aceitaria a desfeita de perder seu braço direito.
Foi o que buscou fazer no final do ano passado.
Mas não esperava a firmeza de técnico.
Ao voltar das férias, se reuniu com Pelaipe e com a diretoria.
E disse que só sairia se fosse mandado embora e com os R$ 2 milhões.
Foi ousado e firme.
Avisou que se Bandeira de Mello quisesse o Flamengo forte, manteria o preparador.
Trazer alguém que não fosse de confiança do técnico seria um tiro no pé.
Sem uma boa relação, não haveria como tirar o máximo do elenco.
Ao contrário do que aconteceria com Celso de Rezende.
O novo presidente acabou capitulando.
Ficou claro porém que Dorival seria muito cobrado.
O técnico ainda teve um desfalque que não esperava.
A direção liberou Vagner Love para voltar ao CSKA.
Não havia dinheiro.
Nem para pagar o clube russo e mesmo o salário do atacante.
Dorival se viu sem a única estrela do elenco.
Soube que o empresário Carlos Leite, que o ajudou no Vasco, repetiria a dose.
Já que ele traria jogadores para Mano Menezes, teria de contratar para ele.
E assim, Elias e Carlos Eduardo desembarcaram na Gávea.

Com personalidade pacata, os dois estão longe de ataques de estrelismo.
Dorival usou o potencial da dupla e montou um time competitivo.
Que não respeita a tradição do toque de bola lento, cadenciado.
A marca registrada de décadas de Flamengo não existe mais.
Uma pegada forte e velocidade nos ataques e contragolpes.
Enquadrou o espalhafatoso Felipe.
Acabaram os malabarismos para encantar torcida e enganar imprensa.
Mas sério, o goleiro voltou a jogar bem.
Leonardo Moura, Wallace, González e João Paulo.
Defesa firme, com laterais descendo de maneira racional.
Cáceres, o cão de guarda.
Ibson precisou melhorar a forma física para marcar mais.
E Elias já está mostrando sua versatilidade.
Preenchendo os espaços, se desdobrando.
Presença mais importante e moderna no meio de campo.
Voltou para tentar retornar à Seleção.
Como nos gloriosos tempos de Santos, um ataque leve, veloz.
A grande revelação da Gávea, Rafinha.
Veloz, habilidoso e com ótima visão de jogo.
É o desafogo do time, o que faz a torcida vibrar.
Dorival está segurando as amarras para que não se perca.
Não acredite ser melhor do que realmente é.
Não caia na tentação do exagero otimista de parte da imprensa carioca.
Carlos Eduardo se encaixou bem.
A passagem pela Europa ensinou ao habilidoso jogador.
Entende a importância de fechar o meio de campo.
Ele tanto trabalha nas intermediárias, como se junta a Rafinha.
E os dois apavoram as defesas adversárias abertos pelas pontas.
Em uma versão genérica do que Neymar e Robinho faziam no Santos de Dorival.
Sem Vagner Love, a eficiência de Hernanes.
Com o exagero característico da Cidade Maravilhosa, radialistas douram a pílula.
O chamam de Hernunes.
Seu faro de gol é apurado, compensa a falta de técnica diferenciada com posicionamento.
Antecipa como o antigo centroavante Nunes onde a bola vai chegar.
Está no time para fazer o gol.
Seja do jeito que for.
Usando qualquer parte do corpo.
Como o de canela de domingo, contra o Botafogo.
Desta maneira simples, mas eficiente, o Flamengo tem se imposto.
Embora o Carioca seja fraco como todos os Estaduais, já há referência.
O comportamento do time nos clássicos.
Goleou o Vasco por 4 a 2 e ganhou do Botafogo de forma convincente por 1 a 0.
A campanha é excelente, com direito a aproveitamento de 90,5%.
Foram seis vitórias e um empate até agora.
Os torcedores, a mídia e a diretoria estão surpresos.
Com recursos limitados, Dorival montou um time tão simples quanto competitivo.
Já convenceu Bandeira de Mello a pedir para Pelaipe o deixar em paz.
Esquecer por enquanto a história de Mano Menezes.
Dorival é esperto e sabe que a sombra será constante.
Mas Mano é o que menos importa.
Ele precisa é definir a sua carreira.
Se funciona só em clubes médios ou está pronto para os grandes.
Depois de ótimo trabalho no Vasco e Santos, fracassou no Atlético Mineiro.
Foi decepcionante no Internacional.
Seu trabalho em 2012 no Flamengo foi aceitável, já que o time era ruim.
Agora chegou a hora de definição.
A largada foi excelente.
Dorival teve personalidade para se impor diante de Pelaipe.
Sua equipe está firme, consistente no Carioca.
Começando a animar a descrente torcida flamenguista.
Agora vem a fase mais difícil: manter a credibilidade.
Do time.
Principalmente, a sua.
Se firmar como grande treinador que pretende ser.
E deixar de ser visto como uma eterna promessa.
Não tem mais nem idade para isso...
