
O Santos está vivendo um grande problema.
Tem outra promessa nas mãos, Victor Andrade.
E ela entrou em choque com Muricy Ramalho.
O jogador sergipano tem 17 anos.
Meia atacante talentoso, rápido driblador.
Virou presença constante nas seleções de base do Brasil.
Muricy foi alertado pela diretoria que nasceu um novo craque no Santos.
Com potencial de "Neymar, Ganso", comemoram eufóricos conselheiros.
São os mesmos, aliás, que dizia que Jean Chera seria um fenômeno.
A direção do clube se apressou em fechar contrato com o jogador.
E colocou uma multa de 50 milhões de euros.
Cerca de R$ 124 milhões.
Multa maior do que a de Neymar, R$ 112 milhões.
A notícia foi espalhada para afastar empresários.
Representando clubes grandes europeus, eles tentavam contratá-lo.
Como sempre acontece nessas horas, Manchester United e Barcelona seriam os interessados.
Depois de segurar o jogador, o passo seguinte.
Mais complicado.
Chegou a hora da lapidação.
E ele foi para as mãos de Muricy.
Luís Álvaro avisou ao técnico que Victor Andrade tinha personalidade difícil.
Em outras palavras, estaria deslumbrado com o sucesso repentino.
Muricy já avisou ao dirigente que todos deveriam se enquadrar.
Ninguém seria melhor do que ninguém.
Não passaria por um episódio como o de Dorival Júnior e Neymar.
Muricy tem o atacante santista como seu grande parceiro.
Ele se submete às mais loucas maratonas, somando jogos pelo Santos e pela Seleção.
Sem reclamar, deixando o ambiente ainda mais alegre na Vila Belmiro.
Muricy realmente chegou armado com Victor Andrade.
E infelizmente, o garoto colaborou.
Talentoso, gosta de exagerar nos dribles, provocar seus marcadores.
Adora enfeitar jogadas que podem ser mais simples.
Tudo normal, afinal não passa de um menino talentoso.
Só que Muricy resolveu bater forte.
E passou a dar broncas não só nos treinamentos.
Mas públicas após os jogos.
O treinador já se irritou com o menino recebeu após marcar contra o Flamengo.
Ele tirou a camisa e tomou cartão amarelo.
"É antigo, meu, já está ultrapassado (tirar a camisa).
Você não lançou isso, é velho, está louco?", perguntou o técnico.
Passou a ser assim em quase todos os treinamentos.
E conversas duras na concentração.
Em toda entrevista, perguntado sobre o jogado, o técnico era claro.
"Ele tem de aprender a ser humilde.
Vou consertar esse menino."
Sem graça, Victor Andrade não retrucava.
Só se queixava com os pais.
Veio o jogo com o Palmeiras.
Neymar ridicularizou o fraco time.
Deu passes de calcanhar, deu elástico, chapéu, canetas.
Parou contragolpes importantes para dar seu show particular.
Isso empolgou Victor Andrade.
Ele viu que Muricy não reclamou com Neymar.
E tentou mostrar que também sabe dar pedaladas, passes de letra.
Fez gol.
Só que a reação do técnico durante o jogo foi duríssima.
O chamou e exigiu que parasse.
"Tentei fazer uma gracinha na lateral, o professor não gosta muito disso e me deu bronca.
Não é para menosprezar, é meu estilo de jogo, gosto de fazer graça, mas depois dessa tive que parar."
A enquadrada continuou no vestiário.
E na coletiva, Muricy outra vez falou que ele precisava ser mais humilde.
O pai de Victor, Nelson, é policial.
Disse a princípio que concordava com as broncas, que Muricy estava ajudando seu filho.
Seguia o exemplo de Telê Santana.
E o meia atacante passou a ser o alvo predileto do técnico nas suas coletivas.
Só que a reação do garoto em casa o começou a preocupar.
Victor deixou claro que queria que essa situação acabe.

A última situação aconteceu na sua viagem para Barcelona.
Seu empresário Paulo Affonso o levou com o goleiro Rafael.
Foram assistir ao jogo do time de Messi contra o Benfica.
A recepção da imprensa espanhola foi exagerada.
Ele foi chamado de 'novo Neymar'.
Muricy ficou histérico ao saber.
E já prometeu o 'recepcionar' com uma bronca.
Para 'o trazer à realidade'.
"Depois sobra para eu consertar tudo isso.
Tenho de colocá-lo no quartinho e falar as verdades.
Porque falam um monte de bobagens e mentiras para ele.
Dizem que é o fera e ele não é.
Muitos falam o que ele quer ouvir.
Eu falo o que será bom para a sua carreira.
Então, tenho de consertar isso."
Alertado, o pai de Victor resolveu contragolpear.
Mandou avisar a Muricy que 'roupa suja se lava em casa'.
Deu uma entrevista avisando que não está gostando da situação.
E pode até autorizar o filho a tirar uma pausa.
Parar de jogar.
Disse que sua família não precisa do futebol.
A mãe o defendeu.
Disse que está difícil para o 'psicológico do filho' ao Lance!
Muricy e os dirigentes santistas já conversaram.
Querem esperar o garoto voltar e querem uma reunião com a família.
A situação será resolvida.
O grande exemplo lembrado por Luís Álvaro é Jean Chera.
Apontado como um grande talento na base, seu pai teve uma violenta discussão com a diretoria.
De acordo com conselheiros santistas, queria tratamento diferenciado ao filho.
De acordo com o pai, faltava reconhecimento.
Jean Chera deixou a Vila Belmiro.
A expectativa era que fosse jogar em um grande clube europeu.
Seus parentes afirmavam que ele tinha várias e várias propostas.
Acabou no Genoa, clube pequeno italiano.
Foi dispensado.
Seguiu para o Flamengo.
Uma enorme decepção.
Não conseguiu ficar nem entre os reservas.
Acabou também dispensado.
São casos diferentes mas com um elo importante em comum.
A vida de um jovem e promissor jogador de futebol.
Entre a cobrança de Muricy e o carinho dos pais, lógico que Victor vai optar pelos pais.
Só que um garoto de 17 anos, empolgado com a carreira, precisa de orientação.
De uma postura firme.
Muricy está certo, precisa pegar no pé do menino.
Mas está exagerando.
O desmoralizando pelas rádios, jornal, televisão.
As broncas têm de ser dadas na sua salinha.
Precisa ser inteligente.
Telê Santana teve o seu auge como treinador entre os anos 80 e 90.
Já se passaram trinta anos da Seleção de 82.
Neste período, muita coisa mudou.
Os jogadores de futebol ficaram mais difíceis de tratar.
Se sentem celebridades.
Com o fim do passe, sabem que o vínculo com o clube está longe de ser eterno.
Muricy está certo em orientar Victor Andrade.
Mas erra na dose.
Mas o erro será maior se o pai do garoto usar os jornais para pressionar Muricy.
Seu filho estará no meio dos dois.
A hora é de se acertarem.
Ou Muricy e Nelson Andrade que se lembrem de Jean Chera.
"Jean é a maior revelação do futebol brasileiro.
Depois de Neymar", como brincava Luís Álvaro.
E onde o garoto está agora?
Rejeitado pelo Flamengo, à procura de um clube...
O jovem craque de hoje pode ser o dispensado de amanhã...
