Publicado em 30/11/2012 às 12h42
Domingo será o último jogo no Olímpico. Grêmio e Internacional. Poucas pessoas amaram tanto chegar a este estádio quanto eu. Fica aqui o meu agradecimento. Para mim ele também será eterno…
Domingo será o fim do estádio Olímpico.
Ele deixará de existir.
O Grêmio terá casa nova.
Moderna, funcional.
Perdeu a Copa do Mundo por questões políticas.
Mas para mim, o Olímpico sempre será um estádio especial.
Fui várias vezes cobrir jogos do Grêmio e da Seleção.
Mas para mim, inesquecível será o do dia 2 de dezembro de 2007.
Não pelo rebaixamento do Corinthians, que foi histórico.
Nunca esquecerei a sensação de alívio, alegria ao chegar no estádio.
Descalço, sem relógio, com computador amassado.
Com o nariz e boca sangrando.
Braços e pernas cheios de hematomas.
Mais do que isso, revoltado.
Pela covardia de alguns vândalos.
E mais ainda pela omissão de dois membros da Brigada Militar de Porto Alegre.
Essa experiência ninguém esquece.
O que aconteceu?
Tomei um taxi e fui para o jogo sozinho.
Como faço há 26 anos.
Com minha mochila, com o computador dentro.
Sabendo que nos estádios de futebol cor pode significar declaração de guerra, me precavi.
Vesti a calça jeans e uma camiseta branca.
Mais nada.
O taxista nunca tinha ido ao estádio.
Me deixou longe da porta do Olímpico.
Não me importei e fui andando.
Ao chegar à frente da sede da torcida Alma Castelhana fui reconhecido.
Me senti um inimigo de guerra.
"Olha esse aí, ele é paulista.
Deve ser gavião.
Vamos encher de porrada."
Lembro muito bem das três frases.
Ingênuo, tentei argumentar.
"Sou jornalista, estou indo traba..."
Não consegui nem terminar de falar.
Já tomei um soco na cabeça, dado pelas costas.
Não por quem estava me 'delatando'.
Por um covarde que veio por trás.
Não sou de briga, mas sei me defender.
Só que o soco por trás foi a senha.
Vários vândalos me cercaram e começaram a me chutar, socar.
Não tenho ideia de quantos.
Oito, dez, quinze pessoas.
Sei que uns batiam e saíam de perto.
Outros se animavam com a pancadaria.
Meu gesto instintivo foi agarrar a minha mochila.
Defender o meu computador.
Foi aí que eu caí e os chutes vieram.
Mal eu tentava me levantar, mais socos, pontapés.
Sinceramente, não tenho nem ideia de quantos foram.
Só via azul pela frente e sentia as pancadas.
Caído, meus tênis e meu relógio foram arrancados de mim.
Não eram simples ladrões, necessitados.
Mas percebi que esses vândalos eram de classe média.
Fortes, com todos os dentes.
Pegavam meus tênis e o relógio e exibiam como troféus de guerra.
Tentavam agarrar a minha mochila, que não soltei de jeito nenhum.
Cada pessoa pensa em uma coisa diferente, estranha quando algo ruim lhe acontece.
Eu não parava de pensar.
"Tem o jogo, tem o jogo, tem o jogo."
Virou um alucinado mantra na minha mente.
Era como se a minha vida dependesse da mochila.
Morreria, mas não a entregaria.
Tentava fugir e caia de novo.
Os chutes e pisões já vinham mais fortes, mais raivosos.
Caído, percebi o quanto pode haver de maldade no ser humano.
No meio dos chutes, vi quando um dos covardes pegou uma cadeira.
Dessas de boteco, de ferro, branca.
A cena me chamou a atenção.
Com toda a calma, ele a dobrou.
E veio na minha direção.
Estava pronto para acertar a minha cabeça.
Alguém que eu nunca vi e provavelmente nunca me viu estava pronto para tentar me matar.
O meu gesto foi de sobrevivência.
Consegui acertar um chute que o jogou longe, junto com a cadeira.
Foi quando as pancadas diminuíram, até parar.
Chegaram os motivos maiores da minha revolta.
Eram dois soldados da Brigada Militar de Porto Alegre.
Um deles, me perguntou, sem o menor interesse.
"O que aconteceu aqui?"
Limpando o sangue do nariz, respondi.
"Eu sou jornalista, sou paulista.
Vim cobrir o jogo.
Me reconheceram e começaram a me bater.
Vocês podem, por favor, me levar no estádio?"
A reposta que ouvi ainda me deixa nervoso, mesmo cinco anos depois.
"Ah...Tu está sozinho?
Então tu vais continuar sozinho."
O soldado disse isso e os dois viraram as costas para mim.
Não acreditei.
Eles me atiraram de novo nas mãos dos vândalos.
Os covardes que me bateram já estavam se aproximando outra vez.
Foi quando eu sai correndo.
No meio dos milhares de torcedores que estavam indo para o Olímpico.
Todos de azul.
Uma sensação louca de que poderia tomar um soco ou chute de qualquer pessoa.
Sem sapatos, só de meias e o sangue que não parava de escorrer na camiseta.
A adrenalina me empurrava.
A sensação de alívio, de felicidade ao chegar no Olímpico foi inacreditável.
Tenho certeza que poucas pessoas nos 58 anos do estádio ficaram tão felizes ao passar os portões.
Meus colegas jornalistas me reconheceram.
Fui muito bem tratado pelo pessoal da Zero Hora.
Conheço David Coimbra há várias encarnações.
Todos os repórteres gaúchos ficaram revoltados com cena deprimente.
A direção do Grêmio me emprestou um par de tênis 45, dois números a mais que os que uso.
Lavei o rosto, limpei o sangue.
E fui cobrir o jogo.
O local reservado à imprensa paulista era no meio da torcida gremista.
Se tivesse qualquer tendência de Síndrome de Pânico era a hora de se manifestar.
Os torcedores sabiam que naquele lugar havia um grupo de paulistas.
Fomos xingados, provocados.
Cobri o jogo para o Jornal da Tarde e para o Estado de S. Paulo.
Foi uma comoção, a queda do Corinthians.
Várias páginas.
Nesta hora, a adrenalina havia baixado.
E vieram as dores das pancadas, dos socos.
Depois de escrever para o jornal, recebo o telefonema de David.
Revoltado com o que havia acontecido, me pediu um texto.
Escrevi, relatando o que aconteceu.
Saiu na Zero Hora.
O comandante da Brigada Militar me ligou no dia seguinte.
Me pediu desculpas sobre o ocorrido em nome da Brigada.
Desculpei, mas fiz questão de relatar o que e onde havia acontecido.
Me disse que lá era realmente uma área perigosa.
Retruquei que, se sabia, ele deveria reforçar o policiamento.
Se houvesse vontade, puniria esses dois homens que desonravam a farda da Brigada Militar.
Bastaria localizar os que estavam 'cuidando' do local.
Apesar da raiva, não generalizei.
Foram dois sádicos, irresponsáveis e incompetentes.
Depois descobri o que acontecia.
Vários soldados estavam irritados por perder suas folgas cobrindo futebol.
Queriam ganhar dinheiro dos clubes por essa função.
Como as equipes gaúchas não quiseram pagar, alguns soldados faziam corpo mole no trabalho.
Encontrei dois.
Por ter sido tão feliz ao entrar no Olímpico, não poderia deixar aqui a minha homenagem.
Em relação ao Grêmio, a Porto Alegre nada mudou.
Sei também que a maioria da Alma Castelhana não pode ser responsabilizada como um todo.
Mas entre os que faziam avalanche em 2007, havia alguns covardes, vândalos.
Tomara que eles tenham sido extirpados.
Nunca fui corintiano.
Mas tive a solidariedade de alguns torcedores.
Eles até me perguntaram se eu estava interessado em me vingar.
Em fazer uma tocaia quando o Grêmio viesse jogar em São Paulo.
Bater em alguns gremistas para 'tirar a raiva do coração'.
Eu ri da situação absurda.
Só faltava essa na minha vida: fazer tocaia contra torcida uniformizada.
Agradeci e falei que o melhor era esquecer.
Não há como generalizar.
Torcedores são torcedores.
Vândalos covardes são vândalos covardes.
Mas como vários torcedores gremistas estão repetindo, o Olímpico não acaba domingo.
Será eterno.
Para mim, pelo menos, será...
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