Neymar acredita que a altitude de La Paz não existe para ele. Ela só não existe para os lhamas, Edmundo, Ronaldo e André Rizek…

reuters83 Neymar acredita que a altitude de La Paz não existe para ele. Ela só não existe para os lhamas, Edmundo, Ronaldo e André Rizek...
Leitores não cansam de pedir no blog e no chat histórias pessoais.

E para quem tiver paciência, mais uma delas.

Ri muito por dentro quando ouvi Neymar.

A sua declaração de que não teme a altitude de La Paz é simbólica.

A arrogância se mistura com a falta de vivência.

Apesar da tentação, não farei mais um post mostrando o quanto ele é mimado.

Me fixarei em La Paz.

Nas duas terríveis experiências que tive na altitude boliviana.

A primeira em 1993.

Acompanhei com meu companheiro Luís Prósperi um jogo histórico.

Foi a primeira derrota do Brasil em uma partida das Eliminatórias.

O adversário foi a Bolívia.

O placar de 2 a 0 para o time da casa quase derrubou Parreira.

Ele foi mantido e no ano seguinte, ganhou a Copa do Mundo.

Mas a sensação de desembarcar em La Paz pela primeira vez continua viva, apesar dos anos.

A Seleção adotou a mesma estratégia do Santos.

Só foi para as alturas horas antes do jogo.

E no mesmo avião, os jornalistas.

Chegar em La Paz é como participar de um videogame.

Você vê a cidade, o avião desce e depois tem de subir.

Não é por acaso que o aeroporto se chama "El Alto".

Mal pisamos no chão de La Paz, eu e o Prósperi sentimos a vingança andina.

O sangue começou a escorrer do seu nariz.

E tampa da minha cabeça parecia que iria estourar.

O ar rarefeito parecia que não queria entrar nos nossos narizes brasileiros.

Fomos direto para o estádio Hernando Siles.

Lá vimos a derrocada brasileira.

Com direito a tubos de oxigênio nos vestiários.

Não acreditamos que a Fifa pudesse realizar jogos eliminatórios para a Copa em um lugar tão alto.

Voltamos no hotel para escrever as matérias e enviá-las para o jornal por fax, sim sou velho...

Como Prósperi já tinha molhado de sangue quase todos os lenços de La Paz...

E eu estava a ponto de dar um tiro na minha cabeça...

Fui até a recepção do hotel.

E pedi dois bules de chá de coca.

Tomamos de uma vez.

E ficamos como dois lhamas mascando folhas de coca.

O efeito foi imediato.

O sangue parou.

A minha cabeça já não doía.

E ficamos eufóricos.

Não conseguimos dormir por dois dias.

Mas tenho certeza que não escaparíamos de nenhum antidoping do planeta.

Para terminar esta primeira viagem, coube a mim ser o mensageiro da mais constrangedora notícia da carreria de Zetti.

Ao ligar para o jornal, soube que a Fifa havia anunciado que ele e Rimba da Bolívia haviam sido pegos no doping.

O motivo: resíduos de cocaína no sangue dos dois.

Zetti estava almoçando.

Esperei ele terminar.

E dei a notícia.

Sim, é verdade, naquele tempo não havia Internet.

Ele ficou branco, pálido e foi falar com Parreira.

Depois de alguns minutos, a confirmação.

O santo Zetti começou a me jurar que nunca havia cheirado cocaína na vida.

Nem tinha tomado chá de coca.

Nada.

Nada?

Nada, não.

Lembrou que havia comido no hotel alguns biscoitos bolivianos.

Só que esses biscoitos de papoula misturavam folhas de coca.

Em uma decisão inédita da Fifa, a santificada carreira de Zetti o livrou de uma prolongada suspensão.

Para não ficar claro que a entidade estava ajudando o Brasil, liberou também o boliviano Rimba de pena.

"Se fosse o Edmundo jurando inocência e com vestígios de cocaína no sangue, tomaria uns 15 anos", brincou Zetti ao ser perdoado.

Essa primeira aventura havia até sido apagada da memória.

Quando veio a segunda.

Final da Copa América de 1997.

Havia ficado durante o torneio todo em Santa Cruz de La Sierra.

Com meu colega de profissão, André Rizek.

Lá ele conseguiu se trancar no banheiro e depois de horas, pedindo ajuda, se cansou.

Ele estourou a porta aos pontapés.

Sim, ele misturou seu lado Jerry Lewis com Bruce Lee.

A convivência com a Seleção de Zagallo foi melhor do que com Rizek.

A ponto de formamos a dupla de cobertura do jornal...

E tomarmos taxi diferentes em todos os lugares que íamos...

Mas veio o jogo em La Paz.

Brasil decidindo o título com a seleção local.

Outra vez o bendito vôo.

Fui ruminando folhas de coca que coloquei no computador, sim a informática havia chegado.

Mas mal o avião chegou em La Paz, um enorme susto.

Enorme literalmente.

Mauro Leão, competente e engraçadíssimo jornalista de O Dia, caiu desmaiado.

Ele tem cerca de dois metros.

Foi um terror.

Os jogadores não viram porque em avião que mistura jornalistas e times ou seleção, eles ficam na parte da frente da aeronave.

Descem antes.

As folhas que masquei amenizaram os sintomas.

Minha cabeça não parecia uma chaleira a ponto de explodir.

Só que a sensação de tontura veio pesada.

Os jogadores do Brasil pouco sentiram.

Principalmente Ronaldo, que decidiu o título para o Brasil.

E foi lá que Zagallo avisou ao mundo que 'teríamos de engoli-lo"...

Edmundo era o mais animado.

E logo tratou de dar um soco em um zagueiro boliviano.

Não foi expulso por sorte.

Zagallo queria matá-lo porque quase complica a final.

Mas o polêmico atacante correu e se sentiu à vontade no campo.

Assim como Edmundo, André Rizek parecia ter parentesco com as alpacas andinas...

Não sentiu nada...

Eu só voltei a melhorar tomando litros do chá de coca...

De novo a euforia...

O texto ficou até mais leve, com o Brasil campeão...

E o gosto do chá...

Lembrei dessas duas situações pessoais graças a Neymar...

Muricy já pediu para os seus jogadores não prenderem a bola...

E que joguem perto uns dos outros contra o The Strongest, na estréia da Libertadores, amanhã.

Neymar disse que não vai fazer isso...

Vai prender a bola, partir para os dribles em velocidade.

Isso a 3.640 metros...

Fica o aviso, James Dean do Suarão...

Se você não tiver parentesco com Edmundo, Rizek ou com os lhamas...

Vai sofrer...

E o chá de coca é restrito para quem não é atleta.

Se os homens não conseguem domar o ego do jovem de 20 anos...

Talvez os Andes consigam.

Eu que não quero voltar mais para lá...