Publicado em 13/01/2012 às 14h26
Um dia nos bastidores do UFC Rio. Nem tão festivo quanto Dana White gosta de mostrar…
Rio de Janeiro...
Missão dada, missão cumprida no capitalista mundo do UFC.
A segunda visita à capital dos cariocas não esta tão divertida quanto a primeira.
O ineditismo acabou.
Resta seguir o protocolo.
A coletiva do Copacabana Palace mostrou a diferença entres os dois eventos.
No primeiro, em que Anderson Silva lutou, estava lotado de populares na frente do hotel.
Neste, ninguém nem sabia que havia entrevista com os lutadores.
Os ingressos são provas indiscutíveis.
Com Anderson, foram vendidos em horas.
Com José Aldo, semanas não foram suficientes para que acabassem.
Alguns setores estão encalhados.
A ponto da organização do UFC avisar em plena coletiva.
Isso é inaceitável.
O Rio deverá esperar por muito tempo até que outro evento do UFC aconteça por aqui.
O presidente Dana White perdeu o voo ao Brasil.
Coube ao gerente de desenvolvimento Marshall Zelaznik responder à minha pergunta.
Quis saber sobre o desrespeito com o público brasileiro.
A luta de José Aldo contra Chad Mendez deve começar às 3h15 da madrugada do domingo.
"Tenho certeza que os brasileiros ficarão acordados.
E o que importa é que a bilheteria está boa.
Isso basta para nós."
Sem o mesmo traquejo de Dana, Marshall revelou as entranhas do UFC.
Tudo é um grande comércio.
O que interessa é o mercado norte-americano de pay-per-view.
O fuso horário tem esse interesse.
Outro ponto polêmico da coletiva foi o futebol.
Os lutadores como José Aldo, Minotauro e Anderson Silva trouxeram um novo ângulo para o MMA.
O ponto de vista dos torcedores de determinados times.
Não há mais vibração pelo Brasil.
No primeiro UFC Rio, Anderson Silva fez uma luta espetacular.
Venceu com todo o seu talento o japonês Yushin Okami.
Estava sendo aplaudido de pé depois do nocaute.
Mas vestiu a camisa do Corinthians.
As palmas cessaram.
E o coro de "Corinthians, vá tomar no..." dominou o HSBC.
Anderson quase nem conseguiu ser ouvido.
Suas palavras foram encobertas pelos torcedores.
José Aldo batalhou, pediu, se ofereceu.
Conseguiu ser patrocinado pelo Flamengo.
E posou com a camisa da principal organizada rubro-negra.
Chad Mendes deu o troco e vestiu a da maior rival da organizada flamenguista.
Colocou a da facção vascaína cedida por seu treinador brasileiro.
Já houve até morte em brigas quando torcedores destas torcidas se encontraram.
Para tentar abortar que isso aconteça amanhã, José Aldo vai entrar com a bandeira do Brasil.
Até agora, desde que está treinando aqui no Rio, tem evitado mostrar qualquer coisa relacionada ao Flamengo.
"Eu não acho interessante esse patrocínio de clubes de futebol.
Para mim, não serve.
Mas respeito quem pensa o contrário", resume o experiente Vitor Befort.
Ele sabe que não vale a pena.
Principalmente para lutadores da elite que ganham bolsas de R$ 900 mil.
Mas aí entra a realização de um sonho infantil.
Dirigentes do Corithians, Inter e Flamengo garantem que gastam cerca de R$ 30 mil mensais com lutares do UFC.
A propaganda é mundial.
Mas há o outro lado da moeda.
Por exemplo, José Aldo sem querer representa a Olimpikus que veste o Flamengo.
Não ganha nada por isso.
Mas essa postura por um preço barato o afasta da Nike, da Adidas.
Há um óbvio conflito de interesses.
Ele e muitos outros podem estar rasgando milhares de dólares sem perceber.
Depois da morna coletiva, ontem o profissionalismo foi parar na quadra da Mangueira.
Para que nada acontecesse, o policiamento foi reforçado.
Havia soldados com fuzis e revólveres nas esquinas próximas à quadra.
O Rio de Janeiro que tanto ajuda o UFC não poderia correr riscos...
A favela foi pacificada, mas continua com vários pontos de esgotos a céu aberto.
Com o calor, o cheiro nas ruas beira o insuportável.
A quadra verde e rosa se destaca das inúmeras vielas de barracos mal iluminados.
É lá que a direção do UFC resolveu mostrar a integração com a comunidade.
Foram gastos, não confirmados, R$ 15 mil para o evento.
Oito integrantes da bateria e três passistas da Mangueira.
Eles tocaram e sambaram para o campeão dos pesados, Júnior Cigano e as ring girls mais conhecidas do UFC.
O brasileiro encarou o evento com profissionalismo.
Mesmo tendo operado o joelho e não podendo nem treinar jiu-jítusu, Cigano foi lá.
Desengonçado, dançou diante das câmeras.
E fugiu do assédio das sambistas que pediam que ele as agarrasse, mas o catarinense fugia.
Foi constrangedor.
Pergunto se foi o maior mico que passou desde que entrou no UFC.
Ele foi profissional demais na resposta.
"Não foi mico, não.
Mostrei para os americanos que tenho samba nos pés."
As ring girls Arianny Celeste e Chandella Powell também são profissionais.
Os sorrisos duraram enquanto as câmeras de tevê estavam ligadas.
Elas se esforçaram.
Mas sofreram.
Não só para tentar sambar.
Elas sumiram diante das mulatas da Mangueira.
Ainda mais com saltos imensos, as norte-americanas ficaram minúsculas.
"As brasileiras são grandes, não é?", disse, espantada, Chandella.
"Eu tentei acompanhá-las, mas é difícil.
Pior do que rumba", classificou Arianny, enquanto tentava tirar o suor do cabelo.
A quadra da Mangueira esteve fechada para o evento.
Não houve qualquer acesso da comunidade.
A situação era para a mídia.
Mais de 60 jornalistas se espremiam para tentar tirar fotos, filmar e ouvir os três 'sambistas'.
Enquanto isso, os ambulantes sofriam.
Não com a polícia.
Mas com o fracasso nas vendas.
"No primeiro UFC nós vendíamos camisetas a R$ 60,00.
Agora, não conseguimos nem R$ 30,00.
O José Aldo não é o Anderson Silva.
Ninguém quer saber de comprar.
Está sendo perda de tempo tentar vender.
Elas estão encalhadas.
A única maneira que terei para conseguir ganhar algum será vendendo uma luva do Belfort.
Ele estava treinando na terça-feira e jogou suas luvas para a torcida.
Peguei a direita.
Queria ficar com ela, mas estou sem dinheiro.
Vou pedir R$ 300,00.
Aqui não vou conseguir nada.
Só tem jornalista.
E repórter é mais quebrado do que ambulante.
Vou para a Barra da Tijuca ver o que consigo", avisa Wilson Cortes.
"Não coloca no ramo da pirataria.
Coloca no ramo das camisetas alternativas", brinca, sem vender sequer uma na frente da quadra da Mangueira.
Após duas horas e meia de espera e 40 minutos de constrangimento...
A artificial integração do UFC com a comunidade da Mangueira acaba.
Ótima para gringo ver.
Fotos excelentes.
Mas ao entrar na van se percebe o alívio das ring girls e de Cigano.
Eles cumpriram um compromisso profissional.
Ninguém está animado, feliz.
Apenas fizeram o que seus patrões mandaram.
O mundo do UFC é assim.
Extremamente profissional.
Esporte que vive da imagem.
De abrir mercados.
A qualquer preço.
Sorte que Jon Jones perdeu seu voo.
Por que se não tivesse perdido, seria outro a se expor na quadra da Mangueira.
UFC é assim.
Os lutadores não são lutadores.
As ring girls não são ring girls.
Todos são funcionários.
E fazem o que os irmãos Fertitta e Dana White mandarem.
Simples assim...
O que importa é a imagem do UFC, acima de tudo.
Outro exemplo foi a terrível madrugada desta sexta-feira.
Comos os lutadores tendo de diminuir vários quilos para a pesagem oficial.
José Aldo precisava baixar cinco quilos de ontem para hoje.
A fórmula: camadas de removedor de maquiagem espalhada pelo corpo para abrir os poros.
Depois entrar na banheira fervendo.
A água sai rapidamente do organismo.
Em seguida, banhos gelados.
E muita água destilada para beber.
Isso durante a madrugada toda.
Quase todos os lutadores seguem essa rotina.
Eles costumam pesar muito mais do que nas categorias que disputam suas lutas.
Por isso, ontem e hoje pela manhã ninguém queria falar.
A rotina das entrevistas, danças, socos e pontapés volta ainda hoje.
Logo depois das 19 horas.
Quando tiver acabado a pesagem oficial.
E todos estiverem livres dos removedores de maquiagem e água destilada...
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