Gutemberg, Sérgio Corrêa e a vergonha de quem sonha em ser árbitro no Brasil. Vergonha de ser honesto…

reproducao5 Gutemberg, Sérgio Corrêa e a vergonha de quem sonha em ser árbitro no Brasil. Vergonha de ser honesto...
Conheço um professor de Educação Física do Interior paulista.

O único sonho da vida era ser árbitro consagrado.

Sua vida está paralisada há 12 anos nesta busca.

Nunca tive a oportunidade de avaliar o seu trabalho, o seu talento.

Por que o futebol só tem espaço para vencedores.

Aos 32 anos conseguiu apitar jogos da Segunda Divisão Paulista.

Sonhava com a Primeira Divisão neste ano.

Partidas de Corinthians, Santos, Palmeiras, São Paulo...

Sonhava.

Soube que a FPF vai utilizar árbitros iniciantes na Primeira Divisão só até 30 anos.

Se quiser continuar na arbitragem o problema é dele.

Já chegou ao seu limite: a Segunda Divisão paulista.

Ele está desesperado.

Tinha certeza de que pelo menos até os 35 anos alcançaria seu sonho, trabalharia nos grandes jogos do País.

Graças à paixão pela arbitragem, sua vida financeira é um caos.

Apitando, de vez em quando, às quartas-feiras e finais de semanas, ganha taxas inferiores R$ 800,00.

Já foi mandado embora de duas escolas por ter de viajar para apitar.

Ganha R$ 500,00 fixos em uma academia.

Mora em casa alugada.

Tem duas filhas.

Seu casamento está em ruínas, a mulher já o abandonou duas vezes.

Ao saber da decisão da FPF para esse ano entrou em depressão.

E só chora nas madrugadas no quarto das meninas.

Elas passaram a dormir com a esposa que quer a separação.

"Meu problema é ter sido honesto", me diz envergonhado.

E não quis me dizer a que tentações esteve exposto.

Essa história não seria contada se não fosse Gutemberg de Paulo Fonseca.

Ao perder o escudo da Fifa ele resolveu ontem denunciar o comandante da arbitragem no Brasil.

Sérgio Côrrea.

Classificá-lo como 'mariquinha' foi uma enorme bobagem.

Se ele é ou não 'mariquinha' não tem a menor importância.

Tudo envergonha quando Gutemberg o classifica como 'mentiroso' e, principalmente, 'corrupto'.

E revelou que Corrêa sempre liga aos árbitros depois dos sorteios da CBF.

Os pressiona dizendo que se forem bem terão outra boa escala.

O que parece óbvio ganha o tom de sujeira na voz de Guttemberg.

O 'ir bem' seria favorecer o time que Corrêa deseja.

Como na partida em 2010 que o ex-árbitro da Fifa trabalhou no Pacaembu.

Era Corinthians e Goiás.

"Vai apitar o jogo do Timão, hein?", teria dito pelo telefone Corrêa.

Na visão de Gutemberg foi um aviso de que se não ajudasse o Corinthians não seria mais escalado.

O jogo foi 5 a 1 para o Corinthians.

A partida foi no dia 24 de outubro de 2010.

O pentacampeão do mundo Júnior fez 1 a 0 para o Goiás.

Depois, o Corinthians pressionou.

Amaral do Goiás foi expulso.

A partir daí, veio a virada, a goleada.

Inclusive com pênalti inexistente de Romerito em Bruno César, no quarto gol corintiano.

Ninguém reclamou da arbitragem de Gutemberg.

Naquele ano, o Corinthians não foi campeão brasileiro.

O que agora se mostra um bem para o futebol do País.

Mas vale voltar ao dia do jogo.

24 de outubro de 2010.

Ou até antes, quando saiu a escala.

Por que o agora indignado Gutemberg não denunciou o telefonema de Corrêa?

Não o chamou de 'mariquinha, mentiroso e corrupto' na época?

Será que por que em 2011 ele foi elevado à categoria de árbitro Fifa?

E agora em 2012 perdeu essa condição?

A denúncia de Gutemberg perde muito de sua força por que deixa explícita seu revanchismo.

Os casos da arbitragem brasileira se sucedem.

Em 1997, o também presidente da Comissão de Arbitragem, Ivens Mendes mostrou seu poder.

Em telefonemas chantageava presidentes de clubes.

Queria ser deputado e exigia quantias em dinheiro para sua campanha.

A ameaça velada dos telefonemas era que ou o dinheiro chegava nas suas mãos ou denunciaria esquemas que ajudaram esses clubes.

A gravação das conversas foi passada para a televisão.

Quem não se lembra do ex-presidente corintiano Alberto Dualib falando em dar 'um, zero, zero'?

Depois ele disse que se tratava de cem camisas do Corinthians...

O poderoso Mario Petraglia do Atlético Paranaense também foi pressionado pelo então presidente da Comissão de Arbitragem.

Ivens Mendes perdeu o cargo, não saiu candidato, morreu.

E o futebol brasileiro seguiu.

Em 2001, a carreira de Alfredo Loebeling acabou.

Motivo: denunciou que o então presidente da Comissão de Arbitragem, Armando Marques.

Ele quis que mudasse seu relatório do jogo entre Figueirense e Caxias pela Série B.

Em 2005, a Polícia Federal interceptou conversas de Edilson Pereira de Carvalho com apostadores.

E resultados teriam sido manipulados.

A PF passa as conversas para a revista Veja.

Onze jogos do Brasileiro foram disputados novamente.

O Corinthians é campeão.

A CBF disse que não se manifestará em relação a Gutemberg porque 'desconhece as denúncias'.

Sérgio Corrêa desligou seus celulares.

Gutemberg se aposentou.

Pericles Bassols assumiu o seu lugar na Fifa pelo Rio de Janeiro.

Ironicamente, de quem Gutemberg havia tomado a vaga em 2011.

Corrêa aposta no silêncio e no apoio de Ricardo Teixeira para seguir mandando nas arbitragens brasileiras.

Os árbitros continuarão amadores.

Amarrados às avaliações de Corrêa para trabalharem ou não.

Se forem competentes e tiverem padrinhos, distribuírem presentes às pessoas certas, vão subir.

Aqueles que se preocuparem apenas em apitar o melhor que puder e esperar as escalas vão sofrer.

Ficar endividados nos seus subempregos.

Que local de trabalho aceita ausência no meio da semana?

Muitas vezes por dois dias dependendo do local do jogo...

E fazem a família sofrer com o esquecimento.

Eles formam a maioria dos árbitros do País.

Eu conheço um que não deu certo, que não venceu.

E não sabe o que fazer da vida.

Diante deste cenário ficam as perguntas?

Tudo isso não é de propósito?

Essa fragilidade econômica dos árbitros não é montada de propósito?

Se o meu conhecido tivesse a chance de ser corrompido não aceitaria?

Não seria conhecido na mídia, ganharia altas premiações apitando jogos importantes...

Ainda teria sua esposa feliz e orgulhosa do marido?

Enquanto a arbitragem for amadora no País...

Com os árbitros, sem salários fixos, desesperados precisando das taxas para sobreviver...

Novos casos vão surgir.

Denúncias que envergonham...

Mas que não mudam com a estrutura do futebol brasileiro.

E na mais cruel inversão de papéis.

Muitos homens frustrados e falidos.

Pessoas que desejavam ser árbitros importantes...

Profundamente arrependidos por terem sido honestos...