Publicado em 07/01/2012 às 08h11
Gutemberg, Sérgio Corrêa e a vergonha de quem sonha em ser árbitro no Brasil. Vergonha de ser honesto…

Conheço um professor de Educação Física do Interior paulista.
O único sonho da vida era ser árbitro consagrado.
Sua vida está paralisada há 12 anos nesta busca.
Nunca tive a oportunidade de avaliar o seu trabalho, o seu talento.
Por que o futebol só tem espaço para vencedores.
Aos 32 anos conseguiu apitar jogos da Segunda Divisão Paulista.
Sonhava com a Primeira Divisão neste ano.
Partidas de Corinthians, Santos, Palmeiras, São Paulo...
Sonhava.
Soube que a FPF vai utilizar árbitros iniciantes na Primeira Divisão só até 30 anos.
Se quiser continuar na arbitragem o problema é dele.
Já chegou ao seu limite: a Segunda Divisão paulista.
Ele está desesperado.
Tinha certeza de que pelo menos até os 35 anos alcançaria seu sonho, trabalharia nos grandes jogos do País.
Graças à paixão pela arbitragem, sua vida financeira é um caos.
Apitando, de vez em quando, às quartas-feiras e finais de semanas, ganha taxas inferiores R$ 800,00.
Já foi mandado embora de duas escolas por ter de viajar para apitar.
Ganha R$ 500,00 fixos em uma academia.
Mora em casa alugada.
Tem duas filhas.
Seu casamento está em ruínas, a mulher já o abandonou duas vezes.
Ao saber da decisão da FPF para esse ano entrou em depressão.
E só chora nas madrugadas no quarto das meninas.
Elas passaram a dormir com a esposa que quer a separação.
"Meu problema é ter sido honesto", me diz envergonhado.
E não quis me dizer a que tentações esteve exposto.
Essa história não seria contada se não fosse Gutemberg de Paulo Fonseca.
Ao perder o escudo da Fifa ele resolveu ontem denunciar o comandante da arbitragem no Brasil.
Sérgio Côrrea.
Classificá-lo como 'mariquinha' foi uma enorme bobagem.
Se ele é ou não 'mariquinha' não tem a menor importância.
Tudo envergonha quando Gutemberg o classifica como 'mentiroso' e, principalmente, 'corrupto'.
E revelou que Corrêa sempre liga aos árbitros depois dos sorteios da CBF.
Os pressiona dizendo que se forem bem terão outra boa escala.
O que parece óbvio ganha o tom de sujeira na voz de Guttemberg.
O 'ir bem' seria favorecer o time que Corrêa deseja.
Como na partida em 2010 que o ex-árbitro da Fifa trabalhou no Pacaembu.
Era Corinthians e Goiás.
"Vai apitar o jogo do Timão, hein?", teria dito pelo telefone Corrêa.
Na visão de Gutemberg foi um aviso de que se não ajudasse o Corinthians não seria mais escalado.
O jogo foi 5 a 1 para o Corinthians.
A partida foi no dia 24 de outubro de 2010.
O pentacampeão do mundo Júnior fez 1 a 0 para o Goiás.
Depois, o Corinthians pressionou.
Amaral do Goiás foi expulso.
A partir daí, veio a virada, a goleada.
Inclusive com pênalti inexistente de Romerito em Bruno César, no quarto gol corintiano.
Ninguém reclamou da arbitragem de Gutemberg.
Naquele ano, o Corinthians não foi campeão brasileiro.
O que agora se mostra um bem para o futebol do País.
Mas vale voltar ao dia do jogo.
24 de outubro de 2010.
Ou até antes, quando saiu a escala.
Por que o agora indignado Gutemberg não denunciou o telefonema de Corrêa?
Não o chamou de 'mariquinha, mentiroso e corrupto' na época?
Será que por que em 2011 ele foi elevado à categoria de árbitro Fifa?
E agora em 2012 perdeu essa condição?
A denúncia de Gutemberg perde muito de sua força por que deixa explícita seu revanchismo.
Os casos da arbitragem brasileira se sucedem.
Em 1997, o também presidente da Comissão de Arbitragem, Ivens Mendes mostrou seu poder.
Em telefonemas chantageava presidentes de clubes.
Queria ser deputado e exigia quantias em dinheiro para sua campanha.
A ameaça velada dos telefonemas era que ou o dinheiro chegava nas suas mãos ou denunciaria esquemas que ajudaram esses clubes.
A gravação das conversas foi passada para a televisão.
Quem não se lembra do ex-presidente corintiano Alberto Dualib falando em dar 'um, zero, zero'?
Depois ele disse que se tratava de cem camisas do Corinthians...
O poderoso Mario Petraglia do Atlético Paranaense também foi pressionado pelo então presidente da Comissão de Arbitragem.
Ivens Mendes perdeu o cargo, não saiu candidato, morreu.
E o futebol brasileiro seguiu.
Em 2001, a carreira de Alfredo Loebeling acabou.
Motivo: denunciou que o então presidente da Comissão de Arbitragem, Armando Marques.
Ele quis que mudasse seu relatório do jogo entre Figueirense e Caxias pela Série B.
Em 2005, a Polícia Federal interceptou conversas de Edilson Pereira de Carvalho com apostadores.
E resultados teriam sido manipulados.
A PF passa as conversas para a revista Veja.
Onze jogos do Brasileiro foram disputados novamente.
O Corinthians é campeão.
A CBF disse que não se manifestará em relação a Gutemberg porque 'desconhece as denúncias'.
Sérgio Corrêa desligou seus celulares.
Gutemberg se aposentou.
Pericles Bassols assumiu o seu lugar na Fifa pelo Rio de Janeiro.
Ironicamente, de quem Gutemberg havia tomado a vaga em 2011.
Corrêa aposta no silêncio e no apoio de Ricardo Teixeira para seguir mandando nas arbitragens brasileiras.
Os árbitros continuarão amadores.
Amarrados às avaliações de Corrêa para trabalharem ou não.
Se forem competentes e tiverem padrinhos, distribuírem presentes às pessoas certas, vão subir.
Aqueles que se preocuparem apenas em apitar o melhor que puder e esperar as escalas vão sofrer.
Ficar endividados nos seus subempregos.
Que local de trabalho aceita ausência no meio da semana?
Muitas vezes por dois dias dependendo do local do jogo...
E fazem a família sofrer com o esquecimento.
Eles formam a maioria dos árbitros do País.
Eu conheço um que não deu certo, que não venceu.
E não sabe o que fazer da vida.
Diante deste cenário ficam as perguntas?
Tudo isso não é de propósito?
Essa fragilidade econômica dos árbitros não é montada de propósito?
Se o meu conhecido tivesse a chance de ser corrompido não aceitaria?
Não seria conhecido na mídia, ganharia altas premiações apitando jogos importantes...
Ainda teria sua esposa feliz e orgulhosa do marido?
Enquanto a arbitragem for amadora no País...
Com os árbitros, sem salários fixos, desesperados precisando das taxas para sobreviver...
Novos casos vão surgir.
Denúncias que envergonham...
Mas que não mudam com a estrutura do futebol brasileiro.
E na mais cruel inversão de papéis.
Muitos homens frustrados e falidos.
Pessoas que desejavam ser árbitros importantes...
Profundamente arrependidos por terem sido honestos...
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