Publicado em 19/10/2011 às 06h10
O colecionador de polêmicas. “Deveria ter jogado a Libertadores pelo Corinthians. Mas fui vetado.” Entrevista exclusiva com Romário, parte I
"Mano Menezes é o técnico do Ricardo Teixeira, não meu.
Há melhores para assumir a Seleção.
Vanderlei Luxemburgo, Felipão, Joel Santana."
"Seleção Brasileira sem líder não é campeã do mundo.
E essa Seleção do Mano não há nenhum."
"Se o Brasil não for campeão do Mundo em 2014 vai ser um desastre.
Os ídolos irão parar de voltar ao Brasil.
Haverá um desinteresse enorme por parte dos patrocinadores.
Não quero nem pensar."
"Eu não fui jogador do Corinthians na Libertadores por causa do Antônio Lopes.
O Kia me queria, estava tudo certo.
Não fui para o Palmeiras disputar o Mundial porque o Felipão não quis.
E estava fechado com o São Paulo quando chegou o PSV Eindoven e me levou."
Romário é uma surpresa ambulante.
Em entrevista exclusiva ele revela o que pensa sobre o atual momento do futebol.
E desvenda várias situações mal resolvidas...
Seleção Brasileira de Mano Menezes.
O que você acha.
Ele já fez dezenas de convocações e não tem uma base.
Não está perdendo um tempo danado, absurdo?
Faltam menos de três anos para a Copa.
Não há mais tempo a perder.
O Mano é um treinador esforçado, está buscando o seu time.
Das convocações que ele fez, concordo com 70%.
Mas seu trabalho poderia ser melhor.
O Brasil está ganhando jogos por causa da camisa, do respeito do adversário.
Não há time e nem esquema tático definido.
Isso precisa ser corrigido o mais rápido possível.
Três anos passam voando.
Há muito o que fazer.
O Mano precisa correr...
Está tudo ainda muito indefinido.
Isso é preocupante.
Você concorda com o Mano dirigindo a Seleção nas Olimpíadas?
De jeito nenhum.
O Ney Franco trabalha com o time, ganha o Mundial sub 20 e depois entrega para o Mano.
É ridículo.
O Mano vai se arriscar muito.
Ele não conhecerá profundamente os jogadores como o Ney Franco.
E isso tem um peso enorme, terrível.
Eu estive em uma Olimpíada e sei o quanto é difícil ganhar o ouro.
Tanto que o Brasil nunca venceu.
Acho um erro incrível o Mano pegar o comando do Ney Franco.
Não tem cabimento.
O Mano Menezes seria a sua escolha de técnico da Seleção?
Mano Menezes é o técnico do Ricardo Teixeira, não meu.
Há melhores para assumir a Seleção.
Vanderlei Luxemburgo, Felipão, Joel Santana.
O melhor de todos eles e o Joel.
É o grande técnico do Brasil.
Sei o que falo porque ganhei vários titulos com ele.
Sei como trabalha.
A Seleção não tem um líder em campo.
Isso não é profundamente prejudicial para quem quer ser campeão do mundo em 2014?
Seleção Brasileira sem líder não é campeã do mundo.
E essa Seleção do Mano não há nenhum.
É uma falha inadmissível.
Nestes anos que faltam para 2014 esta deve ser uma prioridade para o Mano.
Por que assim, sem alguém para bater no peito e falar: 'é assim', o Brasil estará perdido na Copa.
A Espanha e a Alemanha não são as grandes favoritas para vencer em 2014?
Não concordo.
Sei muito bem como eles ficam diante da Seleção.
Basta montar um time competitivo que o Brasil entra para ganhar a Copa.
Não é preciso algo fora do comum, extraordinário.
Basta ter uma equipe definida.
E espanhóis, alemães, podem ser quem for: eles tremem ao ver a camisa amarela.
Por falar em Seleção Brasileira, a nova polêmica é o motivo do seu corte em 2002.
O que aconteceu, afinal de contas?
Você ficou com uma aeromoça em Montevidéu às vésperas do jogo contra o Uruguai pelas Eliminatórias?
E pediu para não jogar?
Eu sei que esta é uma versão que a imprensa gosta de espalhar.
Mas é 100% falsa.
Antes eu tivesse pego a tal aeromoça que era linda.
Nunca pedi ao Felipão para não jogar.
Não comi ninguém e ainda perdi a chance de ser bicampeão do mundo.
O que eu sei e posso te falar, Cosme é sobre a promessa do Ricardo Teixeira.
Na véspera da última convocação, ele me chamou, me deu a mão, e prometeu a minha convocação.
Me disse:
"Fique tranquilo. Sou eu quem mando. Você estará na Copa."
Não fui chamado.
Agora do Felipão já ouvi várias desculpas diferentes.
A primeira é que estava mal tecnicamente.
Depois disse que eu não fui porque me recusei a disputar um torneio no México.
Não teria ido para operar a vista.
E não fiz operação nenhuma.
Outra bobagem.
A nova é que o Eurico Miranda pediu para eu não ir.
É um mistério para mim não ter ido na Copa de 2002.
Mas o corte de 1998 você já conseguiu digerir?
Lógico que não.
A Comissão Técnica havia jurado que eu teria tempo para me recuperar da contusão na panturilha.
Eu garanti que estaria pronto nas oitavas de final.
Seria superimportante ao time.
Mas me cortaram.
O Zagallo, o Américo Faria e o finado Lidio Toledo me prometeram uma coisa e fizeram outra.
Fiquei por anos brigado com o Zico de bobeira.
Me falaram que ele havia sido o responsável pelo meu corte e eu acreditei.
Mas nos acertamos.
Com o Zagallo não tenho relação.
Nem boa, nem ruim.
Só não tenho relação alguma com ele.
Está ótimo.
Tudo o que aconteceu com o Ronaldo em São Paulo poderia ter acontecido com você.
Mas teve medo de ir jogar em um clube paulista?
Só por que lá não tem praia?
Olha, dos times em que eu joguei, só o PSV Eindoven não tinha praia.
Os outros todos tinham.
Eu me sinto bem demais em uma cidade com praia.
Mas não ter jogado em São Paulo foi uma questão de destino.
Primeiro tinha acertado tudo com o São Paulo.
Salários, tempo de contrato.
Tudo fechado com os dirigentes.
Mas chegou o PSV e me levou.
A proposta era incomparável.
Depois, em 2005, havia acertado com o Kia para disputar a Libertadores pelo Corinthians.
Mas o Antônio Lopes vetou.
Ele e o Paulo Angioni.
Duas pessoas que me viram nascer no Vasco.
Disseram que eu não me adaptaria à torcida corintiana, iria brigar.
Um monte de bobagem.
E estava acertado com o Palmeiras para jogar o Mundial em 1999.
Mas o Felipão não quis.
Foi o destino que não quis que eu jogasse em São Paulo.
Romário, vamos ser sinceros.
Dá para confiar nos seus mil gols?
Você não ficou obcecado e acabou jogando contra adversários lamentáveis para chegar aos mil gols?
Eu só te pergunto uma coisa.
Há imagem de quantos gols do Pelé?
Uns trezentos.
O resto é registro em jornal, súmula.
Meus você encontra pelo menos 900.
Por que as pessoas tentam desmerecer a mim que tenho 90% dos meus gols comprovados?
E ele nem 30%.
Eu não fiquei obcecado.
Até por que se dependesse de mim, não saberia dizer quantos gols marquei.
Nunca tinha contado.
Mas pessoas sérias, historiadores do futebol me avisaram quando cheguei a 900 gols.
Se cheguei a 900, a partir daí busquei o 1000.
Meus adversários nunca entregaram o jogo para eu marcar.
Muito pelo contrário.
Sofri muito para marcar esses gols.
E para não entrar em polêmica eu te digo que tenho muito mais do que os 1002 que assumo ter feito.
Teve partidas em que marquei sete e em outra 12 gols que não contabilizo.
A minha marca é absolutamente comprovável.
Eu entendo o Túlio que deixou de ser político para tentar chegar ao seu milésimo.
É uma alegria muito grande.
Você fala que atletas são desunidos.
O que já fez para tentar unir a classe?
Eu fiz uma tentativa marcante.
Convoquei dois jogadores de cada um dos quatro times grandes do Rio.
E mais três dos times pequenos.
Queria liderar uma briga pelo aumento no direito de imagem.
Mal havia chegado do Barcelona para o Flamengo.
Sabe quantos jogadores apareceram?
Três.
Só três.
A partir daí resolvi cuidar da minha vida.
Os jogadores ficaram com medo dos dirigentes.
Não foram autorizados a participar da reunião.
Foi aí que percebi o quanto os jogadores brasileiros não têm consciência do seu poder.
Não dá nem pensar em fazer greve como na Argentina ou Espanha.
Vou dar um exemplo atual.
O Kléber está de parabéns pela atitude que teve quando a torcida organizada bateu no João Vitor.
Não tem que jogar.
Mas o Felipão vem e afasta justo o Kléber do time.
Sei que ele defende o interesse dos dirigentes, mas desta vez o Felipão errou feio.
Por que treinadores brasileiros não dão certo na Europa?
O Felipão e o Luxemburgo são os maiores exemplos.
Não deram certo porque não estão acostumados a trabalhar com profissionalismo.
Não tem essa história de jeitinho, favor.
Na elite do futebol europeu você tem de ser profissional.
Perceber que faz parte de uma estrutura absolutamente competente que tem como objetivo vencer, ser campeão.
Os treinadores brasileiros estão acostumados à zona que são os clubes no nosso país.
E por isso fracassaram.
Não é fácil mesmo.
Você aceitaria o José Mourinho ou o Pepe Guardiola treinando o Brasil?
Na Seleção de Basquete Masculino deu certo...
Eu não aceito.
Acredito que o futebol é uma coisa nossa, brasileira.
Ficaria triste demais ao ver um estrangeiro mandando nos nossos jogadores.
Seria admitir a incompetência total dos nossos treinadores...
Romário, por que você teve uma carreira tão polêmica?
Ah, eu não sei.
Acho que foi o meu gênio.
Na véspera da final da Copa do Mundo de 1994 eu vou no Jornal Nacional.
E lá eu falo sem ninguém pedir que se o Brasil não fosse campeão do mundo, a culpa seria minha.
Em pleno Jornal Nacional.
Uma insanidade.
Minha mãe me ligou e perguntou se eu estava louco.
Acho que sempre fui assim.
Quando estava tudo certo, arrumava problemas.
Como você podia jogar tão bem fugindo da concentração, dos treinos...
Eu vou ser bem sincero.
Se não fosse atleta, não teria jogado tanto e por tantos anos.
Treinava e treinava duro.
Só não gostava de acordar de manhã.
Mas treinava muito à tarde.
Sem ser atleta não conseguiria jogar tanto como eu joguei.
Romário, o que acontecerá no futebol brasileiro se a Seleção não ganhar a Copa?
Se o Brasil não for campeão do Mundo em 2014 vai ser um desastre.
Os ídolos irão parar de voltar ao Brasil.
Haverá um desinteresse enorme por parte dos patrocinadores.
Não quero nem pensar.
E se ganhar também não deve ter o que comemorar fora do campo.
Por que aí será a hora da conta chegar.
E ela será altíssima.
A Copa do Mundo será cara demais para um país pobre como o nosso....
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