Publicado em 25/11/2010 às 09h22
A primeira enorme decepção com Felipão. Para tristeza dos palmeirenses, não… Ele não é um enviado dos deuses… É só um técnico…

Se fosse qualquer treinador no mundo ontem no Pacaembu, ele seria massacrado pela torcida do Palmeiras.
Qualquer um: José Mourinho, Guardiola, Alex Ferguson, Vicente del Bosque...
Menos Luiz Felipe Scolari.
Por isso a tristeza foi maior.
A sensação de profunda decepção sem o desabafo de acusar ninguém.
Muito menos Felipão.
O treinador que deu a maior conquista da história do clube: a Libertadores de 1999.
Que orgulhou a todos com o pentacampeonato no Japão.
Aquele que os dirigentes tentavam trazer de volta há três anos.
E que trouxeram a peso de ouro.
O técnico que mais recebe na América Latina.
E que promete processar quem citar a fortuna que recebe, sem impostos.
Ele a estava justificando.
Levou o time à semifinal da Sul-Americana.
Mas mostrou ontem que ele não é um enviado dos céus.
É apenas um treinador de futebol, para desencanto dos palmeirenses.
O elenco é limitado, inseguro, com pouquíssimos jogadores com talento.
Mas todos confiaram em Felipão.
A sua estrela é tão grande que, em 2010, a fraca Sul-Americana passa a valer uma vaga à Libertadores da América.
Competição formada por times que fracassaram nos seus países, ela parecia moldada para Scolari.
Uma sequência de mata-matas, sua especialidade desde o Criciuma, em 1991.
A fé, a confiança dos palmeirenses na redenção do clube foi imensa.
Todos apostavam em Felipão.
O clube e os brasileiros largaram sem remorso o Brasileiro.
A confiança era imensa na Sul-Americana.
Aos trancos e barrancos, o time foi chegando.
Mal assessorado, o treinador mostrava uma faceta antiga, ultrapassada.
Todos fingiam não ligar porque ele estava ganhando.
Seguindo os conselhos de seu assessor de imprensa, primeiro ele calou o time.
Duvidando da capacidade intelectual dos seus jogadores, eles foram proibidos de dar entrevistas.
Ninguém fala no gramado: antes, durante ou depois da partida.
Ninguém.
Só Felipão.
Passou a ser o treinador no país que mais fechou treinos para a imprensa.
Ninguém podia ver o seu trabalho.
Depois passou a não responder perguntas que não lhe interessavam.
Até que houve o lamentável episódio de chamar os repórteres que insistiam no absurdo "caso Valdivia" de palhaços.
E a torcida, como previa o seu assessor de imprensa, ficou do lado do técnico.
Afinal, o Palmeiras estava vencendo.
Só que Felipão sonha um dia em voltar para a seleção brasileira.
Ele não poderia manter o rompimento com a imprensa de São Paulo.
Teve mais bom senso do que seu assessor e se reuniu na Aceesp.
Acabou com a má educação e birra com os jornalistas.
Não chamou mais ninguém de palhaço.
Enquanto isso, continuava manipulando as informações.
Escondendo.
Proibiu e ninguém fala de maneira aberta sobre Valdivia.
Jogador de R$ 14 milhões que teve de sair três vezes antes do primeiro tempo, sentindo um estiramento na coxa esquerda.
Por que ele entrou em campo contudido ninguém soube dizer até agora...
Mas as vitórias serviam como escudo a Scolari.
Os dirigentes se sentiam protegidos com ele.
Podiam esconder a sua falta de competência.
Scolari é e gosta de ser o centro das atenções.
Passou a ter o poder de vida e morte no Palmeiras.
Só ele para dizer não a um dos maiores ídolos da história do clube.
A grande maioria dos dirigentes queria o retorno de graça de Rivaldo.
Apenas uma voz foi contrária.
E ela prevaleceu: a de Luiz Felipe.
Constrangidos, os dirigentes não ousaram enfrentá-lo.
Nem mesmo os torcedores, que também queriam pelo menos ver em que condições físicas o talentoso jogador estava.
Mas não houve sequer a possibilidade de ele fazer um teste no clube.
Um mero coletivo com os reservas.
Não de Scolari é não.
Ai de quem ousar contestá-lo no Palmeiras.
Por isso a frustração é maior no clube.
A maneira com que o time de Felipão perdeu para o Goiás.
A falta de reação, de luta.
Se faltava talento, o time também não teve atitude.
A televisão mostrava que não houve uma mudança tática, sequer uma tentativa.
Nada.
Parecia estar atônito como um técnico comum, como existem às dezenas pelo futebol brasileiro...
E que valem bem menos...
Conselheiros ontem de madrugada choravam, atônitos.
Mal conseguiam falar ao telefone.
Só diziam que 2011 estava perdido.
Mas preservavam Felipão.
Não tinham a velha escapatória de crucificar o técnico.
Não...
Scolari continua intocável no Palmeiras.
Ele fez por onde.
E até por isso, a dor talvez seja muito maior.
A frustração de ser eliminado da semifinal da Sul-Americana em casa, diante de 38 mil torcedores.
Para o rebaixado Goiás.
"Brochante", como disse o diretor de futebol Pescarmona.
O resultado espantou investidores dispostos a montar um grande time para a Libertadores.
Para o desprestigiado Campeonato Paulista ou a Copa do Brasil, com visibilidade interna, não vale a pena.
Scolari sabe bem que perdeu o poder de barganha com a eliminação de ontem.
Sua lista de reforços passa a ter nomes bem mais fracos, mais baratos.
Pior.
Sua credibilidade como técnico do Palmeiras ainda é imensa.
Mas sofreu um baque ontem.
Silencioso, dolorido.
Durante o vexame no Pacaembu, torcedores olhavam para o banco de reservas.
Como se esperassem um milagre.
Milagre que não veio.
Scolari não conseguiu fazer seu time empatar com o Goiás.
Não era cover, nem um representante.
Muito menos seu assessor de imprensa que o transformou em uma figura antipática, rústica, agressiva.
Era o treinador que os dirigentes e a torcida sonhavam desde que foi embora, há dez anos.
O vexame foi comandado por ele.
Fosse qualquer outro técnico do mundo, estaria sendo contestado, questionado.
Seu emprego, ameaçado.
Mas Felipão ainda desfruta de uma aura no Palmeiras.
Justificada.
Telê Santana, Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho, Rubens Minelli, Ênio Andrade, Oswaldo Brandão também já a tiveram um dia.
E a perderam.
Que Luiz Felipe Scolari trabalhe muito para continuar justificando tanta confiança.
Tantas lágrimas, tanta dor, tanta revolta silenciosa.
Ninguém está acima do bem e do mal no futebol.
Ninguém.
Nem mesmo Luiz Felipe Scolari...
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