30 set
17:49
Exclusiva com Alberto Dualib, no exílio, em Itapecerica da Serra…
Depois de 14 anos como presidente do Corinthians, ele teve de renunciar.
Para não ser expulso.
Os 20 títulos que conquistou não o defenderam como sonhava.
Ter trazido a MSI, Boris Berezovsky e Kia Joorabchian acabou com sua carreira esportiva.
Foi banido do Corinthians em 2007.
E até hoje ainda responde por processos de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.
Nunca mais pisou em um estádio de futebol.
Nem voltou ao Parque São Jorge.
Ele detesta imprensa.
Seu sobrenome ficou manchado para o torcedor corintiano.
Perdeu a mansão em que vivia no alto de Pinheiros.
A Justiça a confiscou como parte das dívidas.
Teve várias empresas, 1.500 funcionários.
Todas faliram.
Tentou passar o que sobrou para o Uruguai, mas a manobra foi detectada pela Justiça.
Perdeu quase tudo.
Sobrou uma pequena empresa que constrói e vende casas.
Ele mora em uma chácara em Itapecerica da Serra, de onde raramente sai.
Depois de três semanas de tentativas, a exclusiva com ele.
Alberto Dualib.
Vamos começar de uma maneira direta.
Por que o senhor tinha de buscar dinheiro com a MSI do Berezovsky, do Kia?
Olha, era uma oportunidade maravilhosa.
O clube passava por dificuldades financeiras.
E surgiu essa proposta.
Eu já tinha trazido vários patrocinadores fortes, o banco Excel, por exemplo.
Surgiu essa chance da MSI, fomos para a Inglaterra, o Andrés foi várias vezes comigo.
Eles não tinham nenhum problema em Londres, com os clubes ingleses.
E eu acreditei que não haveria problema em fechar uma parceria com o Corinthians.
Quando fechei o negócio, muita gente que me acusou e ajudou a me derrubar aplaudiu, viu?
Depois me viraram as costas.
Mas elas sabem quem são.
O senhor não desconfiou de tanto dinheiro chegando ao Corinthians?
Não passou pela sua cabeça que poderia ser lavagem?
Olha, repito.
Eles negociavam na Inglaterra e em vários países.
Não tinham problema nenhum.
Como eu poderia saber se era lavagem ou não era lavagem.
Eu queria trazer era bons jogadores para o Corinthians, ganhar títulos.
Melhorar o clube.
O Andrés acompanhou tudo de perto.
Foi meu vice-presidente.
Ele sabe que não houve maldade nenhuma da minha parte.
Tudo que fiz foi tentar deixar o Corinthians mais forte.
Sou uma pessoa honesta, íntegra, trabalhadora.
Trabalho até hoje.
Foi uma injustiça a maneira como teve de sair do Corinthians?
O senhor ficou com vergonha?
Olha, essa questão de injustiça é muito clara para mim.
Não vou ter de ficar repetindo, repetindo, repetindo.
Se as pessoas quiserem ser justas e entender, vão entender.
Se quiserem me achar o culpado de todos os males da história do Corinthians, vão achar.
Eu tenho a minha consciência limpa.
Sei o que fiz pelo Corinthians.
O quanto me dediquei nestes 14 anos e poucos meses.
Lamento muito pelo que fizeram com a minha família.
Foi um massacre.
Todos sofreram muito.
Mas temos dignidade.
Se eu fosse metade do que disseram, não teria perdido a minha casa, meu maior bem em São Paulo.
Perdeu como?
Não gosto de falar nisso, não gosto de me expor tanto.
Mas é preciso.
Eu perdi por falta de pagamento.
Não tinha condição de mantê-la.
Então o senhor não pegou dinheiro nenhum do Corinthians, da MSI?
Lógico que não.
Ouvir isso é até um grande desrespeito.
Nunca peguei nada que não é meu.
Se eu tivesse pego, estaria morando com minha família em São Paulo.
E não em uma chácara em Itapecerica.
O que foi mais sofrido na época da sua saída?
As acusações, os processos da Polícia Federal?
Olha, foi saber que tudo aquilo era um absurdo.
As acusações vinham de todos os lados.
E sem provas.
Tudo que falavam contra mim se tornou verdade absoluta.
Só que nada foi provado.
Fui massacrado a troco de nada.
Algum processo continua na Justiça?
Ah, uma porcaria de lavagem de dinheiro.
Não lavei dinheiro algum...
O senhor tem contato com Andrés Sanchez?
Lógico que tenho.
Nós conversamos sempre por telefone.
Somos amigos.
Ele foi meu vice-presidente.
Sua carreira política no Corinthians cresceu porque eu o apoiei.
Nós temos uma relação muito boa.
Ele é muito inteligente.
Seguiu pelo caminho que eu havia começado.
Como assim?
Vou te revelar uma coisa.
O segredo da administração do Andrés é ter contratado o Ronaldo.
O patrocínio cresceu cinco vezes mais no Corinthians.
Assim ficou fácil administrar.
Mas você sabe quem teve a idéia de trazer o Ronaldo primeiro para o Parque São Jorge?
Fui eu.
Quando tínhamos patrocínio do Banco Excel, tentamos de todas as maneiras contratá-lo.
Ele sabe disso.
Mas o danado estava muito bem na Europa.
Ele estava com problemas com o Barcelona, se não me engano. (Em 1997.)
O banco Excel até fez uma boa oferta.
Mas o Ronaldo acabou indo para outro time (a Inter de Milão).
E eu sempre dizia.
Se o Corinthians tivesse o Ronaldo, a nossa vida seria outra.
Isso há muito tempo.
Eu sempre fui um dirigente de visão.
O senhor ficou frustrado com o Andrés conseguir um estádio e o senhor não?
Ser amigo do presidente da República ajuda bastante, né?
O Lula é corintiano, conversamos várias vezes.
Mas com o Andrés a relação é outra.
Eles são amigos mesmo.
E eu quero falar a você que o Andrés foi muito inteligente e esperto nessa história do estádio para a Copa do Mundo.
Esperto, rápido.
Quem errou feio e ajudou sem querer foi o Juvenal Juvêncio.
Ele é muito meu amigo, gosto dele.
Mas está turrão demais.
Briga com todo mundo.
Perdeu o Morumbi na Copa do Mundo por causa dessas brigas.
No futebol não se pode brigar.
O importante é ficar bem com todos, negociar.
E isso o Andrés sabe fazer.
Desde que foi meu vice-presidente eu sabia que iria crescer no Corinthians.
O senhor acha que representa o passado do clube e ele a modernidade?
Acho que não.
O Andrés seguiu vários projetos que eu falava há muito tempo.
O Ronaldo abriu as portas.
O Lula...
Eu fiquei 14 anos e pouco e ninguém ganhou tantos títulos como eu.
O Corinthians foi campeão do mundo, comigo.
Ganhou vários brasileiros, Campeonatos Paulistas, Copa do Brasil, um monte de coisa...
Não fui tão ruim para o Corinthians, não.
E se você quer saber, ganhamos o Brasileiro até com a MSI.
Falam muita bobagem, mas naquele campeonato não aconteceu nada demais.
A não ser a superação do Corinthians.
O senhor voltou ao Parque São Jorge?
Pisou em algum estádio desde que saiu do Corinthians?
Nunca mais voltei ao Parque São Jorge.
E olha que sou sócio remido.
Ninguém me cassou, não.
Mas não quero ir, não tenho vontade.
Os jogos do Corinthians eu assisto todos.
Pela televisão, mas vejo todos.
O senhor tem alguma mágoa, foi traído por alguém?
Não tenho mágoa de ninguém.
Mágoa faz mal para o coração, para o sangue.
Não fui traído.
Acabaram me usando.
Mas no fim, eu te pergunto: se estavámos tão errados com a MSI, por que ninguém foi preso?
Tudo foi um puta exagero.
Mas não quero mais falar do passado.
Só quero falar bem claro uma coisa.
Tenho 91 anos e trabalho todos os dias para sobreviver.
Construo e vendo casas.
Se fosse essa pessoa que me desenharam, não estaria trabalhando.
Estaria aproveitando.
Falaram muita mentira a meu respeito.
Que o senhor acha que significa para o Corinthians?
O clube cresceu muito nas minhas mãos.
Ganhou títulos, respeito internacional.
Trouxe Tevez, Mascherano, Carlos Alberto e muitos outros.
Ganhei 20 títulos.
A história irá me fazer justiça.
O senhor tem saudade de alguma coisa?
Arrependimento?
....Não...tudo já passou.
Fiz o que tinha de fazer pelo Corinthians.
Não há do que me arrepender.
Falem o que quiserem.
O tempo vai provar.
Fiz tudo pelo bem do Corinthians...
Qual o seu grande erro?
Ter me apegado ao poder.
Poderia ter saído por cima, vencedor.
Mas o poder é uma coisa que fascina.
Você sempre quer concluir uma coisa que começou.
Foi aí que eu errei.
Deveria ter largado antes.
Era só ter saído depois de um grande título.
E a minha vida seria outra...
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