O Palmeiras não seria Palmeiras sem Marcos…

marcos2 hg 20091112 O Palmeiras não seria Palmeiras sem Marcos...

500 jogos pelo Palmeiras.

Goleiro do clube com a torcida mais exigente, sem paciência, irritada de São Paulo.

Aquela que, saudosa dos grandes times e títulos, não dá vida fácil aos seus ídolos.

Diego Souza, Vagner Love, Keirrison que o digam.

Mas Marcos, não.

Ele é um goleiro diferenciado, uma pessoa especial.

A primeira lembrança que tenho dele foi em 1993.

O recém-contratado Vanderlei Luxemburgo levou o Palmeiras para Atibaia.

A imprensa foi acompanhar a formação do novo time.

De repente, em uma manhã os poucos jornalistas que estavam no treino começaram a ouvir palavrões.

O treino não havia nem começado.

"P..q..p...P..q..p...P...q...p..."

"Eu não falei? Eu não falei? Eu não falei?"

Cabelos cumpridos, alto e pulando em um pé só...

Era o terceiro goleiro, jogador que ninguém havia prestado atenção.

Sérgio era o titular e Velloso o promissor reserva.

Poucos sabiam o nome dele.

Era Marcos.

Perguntei a ele o que havia acontecido.

"Eu tinha dito aos médicos que ainda não estava bem para voltar aos treinos.

Disse que sentia dores, mas não acreditaram.

Então fui treinar e agora o meu pé está inchado.

E agora?"

Foi de uma transparência absurda.

Marcos começava a sua longa trajetória de contusões.

E de declarações sinceras, que tanto atormentaram os treinadores que passaram pelo clube.

Quando as suas queixas foram parar no jornal, Marcos foi repreendido.

Mas o clube nem pensou em largar o promissor goleiro.

E o tempo passou.

Sérgio se foi.

'Gato' Fernandes também.

Velloso se machucou

E Marcos começou a mostrar quem era.

Goleiro talentoso, de personalidade forte e grande estrela.

Defendeu pênaltis fundamentais para a história do clube.

Que não saem do coração do torcedor.

Como os que tiraram duas vezes o Corinthians da Libertadores.

Fez o Palmeiras campeão da competição sul-americana pela primeira vez.

Foi o grande goleiro do pentacampeonato do Brasil, na Coréia e no Japão.

Sua identificação com o Palmeiras é algo profundo, intenso.

O que ajudou muito foi ter surgido para o futebol antes da época dos assessores de imprensa.

Manipuladores e maquiadores de opinião, não deixariam Marcos ser tão sincero como foi.

Felipão proibiu todos os jogadores falarem antes, no intervalo e depois dos jogos, pensando nele.

Foi mais esperto do que Luxemburgo do que resolveu proibir só ele.

Marcos foge dos microfones quando pode.

Porque sabe que, se começar a falar, não consegue ser falso como a grande maioria dos jogadores atuais.

Não é um santo e nunca foi bobo.

Sabe muito bem o que diz.

Quando criticou jogadores que só iam farrear no clube e não treinavam...

Ou, várias vezes, quando apontou a fraqueza do time...

Mandou recado à diretoria.

E se comportou como um jogador que deseja ganhar.

Teve inúmeras contusões.

Inclusive uma, na mão direita, que o tirou do Arsenal.

A memória do apaixonado torcedor é curta, em janeiro de 2003, ele não passou no teste físico no clube inglês.

Marcos não queria ir, a diretoria da época que desejou fazer dinheiro com ele.

Só que o destino e Marcos não quiseram.

O goleiro sabia que tinha condições de prosseguir com a carreira, mas não insistiu.

Azar do Arsenal.

Ele já fez de tudo pelo Palmeiras.

Já tomou até café durante um jogo da Libertadores.

E falhou, como todo goleiro.

Mesmo sendo um dos maiores que o Brasil já viu jogar.

A principal falha aconteceu na decisão do Mundial, contra o Manchester United.

Felipão nunca costuma dar muitos conselhos aos goleiros.

Mas naquela partida ele mudou.

Resolveu falar com Marcos.

Disse que os cruzamentos de Giggs costumavam ser baixos em velocidade.

Por isso, a estranha falha em um cruzamento banal que o encobriu no gol de Kaine.

"Deus dá a cruz do tamanho que a pessoa possa carregar.

Vão passar 30 anos e vão falar que o Palmeiras perdeu o Mundial porque o Marcos falhou.

E ninguém vai lembrar dos gols que os atacantes perderam", disse Marcos no Japão.

E foram muitos...

Marcos chocou o mundo do futebol, quando fez questão de jogar a Série B.

Foi o goleiro do Palmeiras rebaixado no Brasileiro, no time sem sangue que Mustafá Contursi montou.

E enfrentou gramados piores do que campo de várzea pelo país...

Marcos talvez tenha sido o jogador nos últimos anos que mais jogou com dores no Brasil.

Qualquer conversa com os médicos do Palmeiras para valorizar ainda mais este personagem.

Já chorou de dor no aquecimento e foi campeão pelo clube que tanto ama.

As dores o fazem pensar na aposentadoria há mais de três anos.

O preparador Carlos Pracidelli o proibiu de falar em aposentadoria atualmente.

Pouca gente sabe que recusou uma proposta milionária para atuar no Corinthians.

Ele jantou com Kia Joorabchian, presidente da MSI, ouviu a proposta.

Mesmo brigado com a direção do Palmeiras, resolveu ficar.

Para ganhar muito menos.

"Não teria como me olhar no espelho e vestir a camisa do rival."

Colocou a minúscula cidade de Oriente no mapa.

Consagrou o gesto de se ajoelhar no gramado e apontar aos céus, agradecendo a Deus.

Daí o apelido de São Marcos.

O gesto não nasceu dele, começou com Taffarel e ele não esconde.

Só que virou sua marca registrada.

Marcos não gosta de falar, mas ajuda várias instituições de caridade.

Oberdan Cattani, Valdir de Moraes, Leão...

Todos sensacionais goleiros que o Palmeiras teve.

Mas nunca houve ninguém como Marcos.

Parabéns pelos 500 jogos.

Que venham mais 500...

Depois, virar uma estátua será pouco...

Aqui, uma singela e original homenagem.

Para que você, Marcos, não se sinta tão culpado em relação a um certo jogo de 1999...


Veja mais:

+ Acompanhe os Jogos da Juventude em Cingapura
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7