Publicado em 24/06/2010 às 15h30
Dunga: ame-o ou deixe-o…

Dunga foi muito inteligente.
E conseguiu reverter a pressão que sofria por haver ofendido o comentarista da Globo, Alex Escobar.
Usou de uma arma recém descoberta: a comunicação direta com o torcedor.
Inteligente, ele faz com que as dezenas de câmeras e centenas de jornalistas trabalhem por ele.
E leve à torcida o seu discurso direto.
E aqui na sala de imprensa do estádio Moses Mabidha, deu uma aula de como reverter uma situação.
Primeiro, tomou uma atitude rara na sua vida: pediu desculpas.
Não ao jornalista ofendido, mas ao torcedor, a quem ouviu seus palavrões.
O duro Dunga reconhecer um erro, mesmo que ao alvo errado, é um acontecimento.
E mais, o treinador mostrou seu lado humano, baixou por segundos a guarda.
Falou do pai doente, preso à cama há anos.
Edelceu sofre de mal de Alzheimer.
Foi firme, não chorou.
Falou do exemplo que um filho precisa seguir.
E disse o que está fazendo com a Seleção Brasileira, enquanto o pai não consegue falar, andar, interagir.
"Para mim, é mais uma oportunidade de mostrar para ele tudo que ele me ensinou: que o homem para ser homem precisa ter dignidade, coerência, virtude, honra, transparência e saber pedir desculpas quando erra."
Bastou Dunga balbuciar a palavra desculpas que os centenas de jornalistas silenciaram.
E tinha mais.
"Eu só quero que me deixem trabalhar."
O recado com certeza atingiu o torcedor.
Dunga hoje tem uma popularidade que encosta na do presidente Lula.
As duas vitórias nas primeiras partidas do Brasil na Copa pesam.
Mas a sua postura de enfrentar a Globo tem sido recompensada.
Graças a ele há a campanha de amanhã: um dia com as pessoas não assistindo à emissora carioca.
Dia do jogo do Brasil.
A campanha é para mostrar de que lado está o torcedor: de Dunga.
E a estocada final, falar da mãe, do seu sofrimento, foi primorosa.
"Não se faz a um ser humano o que estão (a imprensa) fazendo com o filho dela (ele mesmo).
Mas ela me ensinou a não abandonar nada antes de terminar.
E também, por ser professora de História, o que foi motivo de chacota (de alguns jornalistas), ela também me deu uma lição.
Temos de ser patriotas. Embora muita gente não goste. E fazer o melhor pelo país, pela família, pelos amigos."
Como ficar contra um discurso desses?
Mas ele não quer o apoio dos jornalistas.
Daqueles que sobem em prédios para desvendar que seu time jogará com Júlio Baptista e Daniel Alves contra Portugal.
Ele fala diretamente com os milhões de brasileiros que acompanham, empolgados, a Copa do Mundo.
As vitórias e postura de Davi de Dunga contra a Golias, Globo, fizeram nascer um novo ídolo.
O treinador da Seleção percebeu isso.
E cada vez mais vai usar os microfones, as câmeras, os sites e os jornais para consolidar a imagem de um herói perseguido.
Cercado por inimigos.
Os jornalistas.
Dunga está se mostrando um mestre da comunicação
Conseguiu criar a seguinte situação: quem não está do lado dele, quem o questiona, quem não concorda com ele, não é patriota.
Está contra o Brasil.
O ideal talvez seja fechar os olhos a tudo de errado que acontece.
A falta de liberdade se justifica.
O clima pesado.
As inúmeras proibições.
A falta de alegria.
A censura.
O não pode.
Talvez seja mesmo melhor seguir Dunga...
É o que a opinião pública quer.
Então vamos cantar a todos os pulmões e esquecer o resto...
Noventa milhões em ação
Pra frente Brasil
Do meu coração
Todos juntos vamos
Pra frente Brasil
Salve a Seleção
De repente é aquela corrente pra frente
Parece que todo o Brasil deu a mão
Todos ligados na mesma emoção
Tudo é um só coração!
Todos juntos vamos
Pra frente Brasil, Brasil
Salve a Seleção...
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