
"Tudo o que a Seleção não pode é repetir o que fizeram comigo em 2006. O Dunga tem de levar o Ronaldinho Gaúcho e o Ronaldo para a Copa da África.
Não se joga talento fora. Nem se for só para meter medo nos gringos."
Quem fala sabe o que diz.
Ele foi o melhor jogador do Mundo em 1999, eleito pela Fifa. Campeão da Copa de 2002 e vice de 1998. Campeão da Liga dos Campeões. Campeão da Copa das Confederações. Campeão da Copa América. Campeão brasileiro. Bicampeão espanhol. Tricampeão grego. Bicampeão uzbeque.
E mais dezenas de títulos e artilharias...
Um dos melhores jogadores do Brasil em todos os tempos.
Rivaldo.
Em uma longa entrevista exclusiva ao blog, Rivaldo mostra um pouco da sua carreira vencedora.
Deixa transparecer sua velha mágoa por ser muito mais valorizado no Exterior do que no Brasil.
Mas se acostumou, até ri da situação.
Milionário, jogará no Uzbesquistão por mais dois anos e depois voltará ao País.
Quando completará 15 anos atuando na Europa, na Ásia.
A longa peregrinação acabará em Mogi Mirim.
Sem direito a uma partida de despedida com a camisa da Seleção Brasileira.
Jogos de despedida só de outros jogadores, em outros países...
"Sei como as coisas são no Brasil. Se o Cafu, o Roberto Carlos e tantos outro não tiveram, por que eu teria o direito de uma partida de despedida da Seleção?
Vou fazer pelo Mogi, onde sou presidente do clube e faço o que quero.
Infelizmente eu enxergo as coisas como elas são. Não me iludo."
Rivaldo, vamos começar pelo que me incomoda como repórter. Por que você não é valorizado no Brasil?
Isso me incomodou muitos anos. Cheguei a algumas conclusões. A minha origem é pobre, nunca fui jogador de fazer marketing, ir para a televisão fazer graça, ficar trocando de mulher em baladas. Sou uma pessoa simples, tranquila. Sempre fugi de entrevistas. Esse perfil não interessa à mídia. Eu vou falar, Cosme. Sofri como o Messi, como o Cristiano Ronaldo. É duro ser valorizado de verdade só fora do seu país. Mas agora estou calejado, não deixo essa injustiça me machucar mais. Só que eu tenho de dizer que foi triste, saber o que eu representava e não ter o reconhecimento por aqui. Isso acabou, não espero mais nada de ninguém. O importante é que eu saiba o meu valor e está tudo certo, vamos seguir a vida.
Como você conseguiu ter uma carreira tão brilhante?
Agindo ao contrário do que acontece no atual futebol brasileiro. Sou dono, presidente do Mogi Mirim. Eu tenho conversado com alguns jovens jogadores do Nordeste para reforçar meu clube. E tem sido a maior decepção. Eles preferem ganhar R$ 1 mil a mais e ficar no Rio Grande do Norte ou na Bahia do que disputar o Campeonato Paulista. Abrem mão da maior vitrine do País. O Campeonato Paulista é mostrado no mundo todo. Eu posso não ter estudo (mal acabou o antigo ginásio), só que nunca fui burro. Quando estava no Santa Cruz me ofereceram a chance de jogar o Paulista pelo Mogi Mirim. Larguei tudo e aceitei. Quando almoçava na concentração ficava com dor na consciência pensando se a minha mãe teria o que comer naquela hora, lá em Paulista, uma cidadezinha pobre perto de Recife. E usei o Mogi Mirim como trampolim para a minha vida. Dei o meu máximo, carregava a minha família quando entrava em campo. Apostei em mim. Hoje tem um monte de jogadores medrosos, cercados de empresários que, infelizmente, vão ter carreiras medíocres por ganância burra, falta de visão.
Bastaram três anos. E do Mogi Mirim, você passou pelo Corinthians foi para o Palmeiras e já estava embarcando no La Coruña...
E fica um aviso para os jovens jogadores de 15 anos que já têm empresários. Eu fiz tudo isso sozinho. Eu mesmo negociava os meus contratos, decidia para onde ir. Nunca precisei ter alguém para me dizer para onde ir, o que fazer, o que comer. E, importante, fiquei onde me valorizavam. No Corinthians não acreditaram em mim. Não teve importância. Fui para o Palmeiras, onde me deram estrutura para jogar. Me passaram tanta confiança que, se eu tivesse de voltar um dia ao futebol brasileiro, seria para atuar com aquela camisa verde de novo. Sou grato ao Santa Cruz, mas meu coração é palmeirense. Das escolhas que fiz em toda a minha carreira só errei no projeto do Luxemburgo com o Cruzeiro. Quando o demitiram, demiti o Cruzeiro.
Como você ganhou tanto prestígio na Europa? Como jogou com tanta personalidade?
O Ronaldo sempre brincou comigo, me chama de Paraíba e tal. Eu posso parecer e sou uma pessoa simples. Mas nunca me faltou personalidade. Sabia que os clubes europeus queriam de mim e eu tinha condição de jogar como eles esperavam. E até mais. Sempre treinei, me cuidei, fui profissional. As tentações aparecem de acordo com o seu sucesso. E eu nunca perdi a noção que jogava por mim e pela minha família. Tinha um objetivo: vencer na vida, na carreira. Se ninguém apostava em mim, azar. Agora, não iria decepcionar os que acreditavam. E foi assim em todos os clubes pelos quais passei: La Coruña, Barcelona, Milan, Olimpiakos, Athenas e agora no Bunyodkor, no Uzbequistão.
Você foi o melhor jogador do Mundo em 1999. E ganhou tantos prêmios e campeonatos. Por que nunca foi unanimidade para o torcedor brasileiro?
Porque há muita gente da mídia que é burra e cruel. Simplifica demais as situações. Quando um time, uma seleção perde é mais fácil escolher um culpado, crucificar alguém, ferrar com a vida de uma pessoa. Tudo isso para não ver o óbvio: que o adversário foi melhor, se preparou mais, fez uma grande partida. Eu fui crucificado na Olimpíada de 1996. O Brasil saiu daqui com a obrigação de ganhar a medalha de Ouro em Atlanta. Fez uma preparação ruim. O time tinha grandes jogadores. (A escalação na derrota para a Nigéria por 4 a 3, que tirou a chance de o time vencer o torneio: Dida; Zé Maria, Ronaldo Guiaro, Aldair e Roberto Carlos; Zé Elias, Amaral, Flávio Conceição e Juninho Paulista (Rivaldo); Bebeto, Ronaldo (Sávio). O Brasil terminou o primeiro tempo vencendo por 3 a 1.) O Zagallo foi o técnico. Mas eu fui o escolhido da mídia para pagar o fracasso da Seleção. Fiquei um ano sem ser convocado. Isso estando no meu auge na Europa, ganhando vários prêmios. Tudo por causa da pressão da mídia brasileira. Aqui foi sempre assim. Eu tenho outros exemplos na ponta da língua...
Fale, Rivaldo. Quais...
O maior que eu vivi foi a Copa de 1998. Houve aquela coisa com o Ronaldo. Eu tinha lanchado com ele. E estava tudo normal. Depois ouvi os gritos do Roberto Carlos e fui um dos primeiros a chegar no seu quarto. Vi ele tendo as convulsões e indo embora de ambulância para um hospital da França. O Zagallo tinha escalado o Edmundo e disse isso a todos. Depois chegou o Ronaldo e jogou. E nós perdemos por causa das convulsões? Isso é uma grande bobagem, mentira. Com o Ronaldo,mal perdemos por 3 a 0. Se ele estivesse bem e nada tivesse acontecido, perderíamos por 2 a 0. Tomamos dois gols de escanteio. Não jogamos nada. A França fez a sua melhor partida de toda a Copa. Se jogássemos dez vezes contra eles perderíamos as dez. Nosso time tinha problemas e eles nos dominaram. No Brasil sempre se busca desculpa para tudo. Há sempre uma história, uma conspiração, um Cristo, um culpado. Nunca admitimos nossa falha. Foi assim também na Copa de 2006.
Espera aí, Rivaldo. As baladas, as farras dos jogadores não prejudicaram?
Cosme, vamos acabar com tanta hipocrisia. Você acha que em 2002 não tinha balada? Os jogadores não saíam depois das partidas e voltavam de madrugada? Faziam a mesma coisa que em 2006. Eu adoro o Felipão, mas falar que o Brasil ganhou por causa da Família Felipão é de uma mediocridade assustadora. Não tem essa história de Família Zagallo, Família Parreira, Família Felipão. O que importa é preparar o time com seriedade e na hora da partida o time jogar bem. O Brasil não jogou bem de novo contra a França. A defesa bobeou e o Henry fez o gol. Ponto final. Futebol é isso. Eu fico muito decepcionado porque pessoas acompanham futebol por anos, pela vida inteira e não conseguem enxergar o óbvio. O futebol é um esporte e um dia uma equipe pode estar melhor do que a outra. Mas temos a mania nas derrotas de procurar vilões. Você é inteligente. Não acha que na Copa de 2002 também não tinha vilões? Tinha. Como na Copa de 70 também tinha e as vitórias enterram tudo.
Em 2006 você ficou muito chateado por não ter sido convocado?
Hoje eu me sinto à vontade para falar abertamente: fiquei. Porque eu tinha condições. Estava jogando muito bem na Grécia. Foi preguiça, falta de observação. Ninguém foi acompanhar o futebol grego. Diziam que era fraco demais. Mas nada mudou e o Gilberto Silva joga no futebol grego e é titular do Dunga. O Parreira não me deu chance. Todos na Grécia e na Europa perguntavam porque eu não era convocado. E eu não tinha resposta. Tinha 34 anos, mas minhas condições físicas e técnicas eram excelentes. Fui escolhido como o melhor jogador da Grécia e meu time foi tricampeão. Tudo o que eu queria era uma chance. Antes do último amistoso antes da convocação para a Copa, me chamou para conversar. Queria saber como eu estava. E disse que queria me levar para a Alemanha. Fiquei mais do que animado. Nunca vou esquecer. Foi em uma sexta-feira. Chegou na terça, eu não estava entre os convocados para o amistoso. Nunca vou saber porque não fui chamado. Mas eu sei que poderia ter ajudado. No banco, no grupo, mas eu teria ajudado. Espero que o Dunga não cometa esse erro com o Ronaldinho Gaúcho ou com o Ronaldo. E os leve para a África. Para não se arrepender depois.
Como assim? Explique...
Tudo o que a Seleção não pode fazer é repetir o que fizeram comigo em 2006. O Dunga tem de levar o Ronaldinho Gaúcho e o Ronaldo. Não se joga talento fora. Nem que for para meter medo nos gringos. O Ronaldinho Gaúcho precisa sentir que há um grupo, um treinador que confia nele. Eu o conheço e sei tudo o que ele pode fazer em campo. Eu e o restante do mundo. Mesmo se for para ele não jogar. Só estando entre os convocados. São só sete partidas para ganhar uma Copa. O treinador de qualquer time que for enfrentar o Brasil ficará na dúvida e terá de treinar seus jogadores para enfrentar o Ronaldinho Gaúcho, mesmo se estiver no banco. O mesmo vale para o Ronaldo. Dizem que ele está gordo, mas eu queria um gordo com tanto talento e metendo tantos gols como só ele sabe. Que país do mundo viraria as costas para os dois? Só o Brasil. Quem você prefere ter no banco? Dois garotos no auge do preparo físico, mas ainda verdes de Copa do Mundo? Ou esses dois talentos? Olha, será uma grande bobagem não levar esses dois. Não acredito que o Dunga vá cometer esse erro. Você vai ver, na convocação final estarão o Ronaldinho Gaúcho e o meu amigo Ronaldo.
Por falar nele, ele não te chamou para o Corinthians do centenário? Para disputar a Libertadores do ano que vem? O São Paulo fez proposta por você para jogar a próxima temporada?
Olha...Eu até falei com ele faz quatro dias. Só o chamei para o jogo beneficente que vou fazer aqui em Mogi Mirim. Ele está viajando, na Europa, diz que vem. Mas não me chamou para o Corinthians, não. E o São Paulo não me chamou, não. Me sondaram quando estava na Grécia há uns dois anos. Só que não houve acerto. Olha, tenho mais dois anos de contrato com o Uzbesquistão. Depois, com 39 anos eu volto. Adoraria jogar no Palmeiras, clube que eu realmente gosto. Mas eles não vão querer um avô. Vou encerrar no clube que é meu, sou presidente, o Mogi Mirim. Pronto. E a partir daí pensar em ser ser dirigente o resto da vida. Nem penso em ser treinador.
Espere um pouco, Rivaldo. Sei que essa conversa vai acabar com despedida. Fale dessa loucura de Uzbesquistão? E ainda você leva o Felipão?
(ri muito) Não tem nada de loucura, não. Estamos desenvolvendo o futebol em um país. Isso é muito sério. Estamos entrando para a história de uma nação que ama o futebol e não sabe como desenvolvê-lo. Estava na Grécia quando fui procurado. Me apresentaram o projeto e eu aceitei. As autoridades de lá ficaram nervosas, tensas quando me conheceram. Foi reconhecimento, respeito pelo que fiz em campo. O Zico foi o treinador por um período e quando recebeu uma proposta do CSKA e pediu para sair. Fui buscar o Felipão. E ele mostrou toda a confiança no que lhe disse. A nossa relação é de confiança plena. A mesma que fez com que ele acreditasse em mim em 2002, quando eu disse que estava recuperado de uma contusão e só ele no Brasil acreditou e me levou para o Japão. Eu mostrei para ele o projeto de profissionalizar o futebol no Uzbesquistão. Estamos construindo um estádio para 30 mil pessoas, desenvolvendo Centro de Treinamentos, fisioterapia, concentração, tudo. Dinheiro e boa vontade não faltam. Eu e o Felipão estamos muito felizes lá. O Felipão irá seguir sua carreira como técnico sabendo o bem que fez não só a um clube, mas a um país. Isso é para dar orgulho a qualquer pessoa.
E por falar em orgulho, você continua ajudando as pessoas necessitadas...
Isso me dá muito prazer. Na Espanha foi assim, quando tinha uma fundação que ajudava as pessoas carentes. Eu sei o que vivi. Na Espanha foi escrito um livro sobre a minha vida. Mostra que saí do nada, de um barraco de uma pequena cidade do Pernambuco para ser o melhor jogador do mundo. Vivi, passei por necessidades. Sei o que é passar fome. Então, agora que posso, tenho de ajudar. A gente está nessa vida apenas de passagem. Temos de ajudar quem precisa. Costumo fazer isso. Faço questão de organizar esse jogo no final do ano. Por favor, coloca aí na matéria. Será no dia 23. Basta levar um quilo de alimento não perecível para o estádio do Mogi Mirim. Chamei Kaká, Ronaldo, Carlos Alberto, Elano, estou atrás do Roberto Carlos. Diego Souza, Vagner Love, Carlos Alberto. Vem muita gente boa para jogar comigo. O importante é ajudar. Eu fico muito feliz em poder aliviar o sofrimento de quem precisa. Tomara que o estádio esteja cheio. Estou com muita saudade de jogar no Brasil...