Publicado em 04/11/2009 às 18h37
Exclusivo.”Virei um símbolo da ditadura porque enfrentei a TV Globo.” Dadá Maravilha…
Dario José dos Santos.
Dario Maravilha.
Ou, simplesmente, Dadá.
Três vezes artilheiro do Campeonato Brasileiro.
Quatro do Mineiro.
Autor do maior número de gols em uma só partida oficial no Brasil.
Marcou dez dos 14 gols que o Sport fez no Santo Amaro, no Pernambucano de 76.
Seus 63 anos de vida misturam alegrias e tristezas, bem escondidas.
Em uma emocionante entrevista exclusiva ao blog ele se permitiu.
Foi além do personagem. E tocou em pontos delicadíssimos da sua vida.
Ser um representante involuntário da feroz ditadura militar.
Ter a marca de ter ido para a Copa de 70 por ordem do presidente Emílio Garrastazu Médici.
“Eu carrego isso por ter enfrentado a TV Globo. Nem Deus sai ileso de uma briga com a Globo.”
A falta de dinheiro. “Se eu não trabalho, não como.”
O apartamento na periferia de Belo Horizonte.
O carro popular com que chega ao Mineirão.
A infância de deliqüência no Rio de Janeiro, as internações em casa de jovens com problemas com a Justiça.
A falta de reconhecimento do Atlético Mineiro, o sonho de ter um busto no clube.
E lógico, as pitadas de alegria, a irreverência que marcou sua carreira, sua vida.
“Hoje o nível dos times é muito ruim. Se eu fizesse menos de 50 gols neste Brasileiro, eu desfilaria só de fio dental rosa na avenida Rio Branco no Rio ou na avenida São João em São Paulo. Os caras são muito fracos.”
Vamos começar forte: como é ser um símbolo da ditadura?
Essa é uma das histórias mais absurdas que um jogador de futebol teve de suportar. Você não está falando com qualquer um. Eu marquei 926 gols na minha carreira. Fiz 499 de cabeça. Em 1969 eu havia marcado 69 gols na temporada. Fui marcado porque o João Saldanha foi demitido pelo regime militar da Seleção Brasileira. E ele descontou em mim. Falou na TV Globo que eu seria cortado. Porque cinco ficaram fora da lista final. Na época, sua palavra era temida por todos. Eu o desafiei e acabei desafiando a Globo. Disse que no México, iria o Dadá e mais 21 jogadores. Nem o Pelé eu garantia. Só garantia que eu iria. Quando saiu a lista final, o João Saldanha quis morrer e começou a me perseguir, me chamando de protegido do Medici. Realmente, o presidente me adorava, mas todos me adoravam. Eu era artilheiro. Eu carrego essa marca de ser protegido da ditatura por ter enfrentado a TV Globo. Nem Deus sai ileso de uma briga com a Globo.
O Zagallo fez a convocação por ordem do Medici?
Fez porque eu estava marcando muitos gols. Era o artilheiro do Brasil. Tinha de me levar. O Zagallo também entrou de gaiato nessa história. O João Saldanha estava com dor de cotovelo por ter caído da Seleção. E não pensou duas vezes em manchar tanto a minha carreira com a do Zagallo. Foi uma vingança boba, estúpida. Mas uma das coisas que agradeço a Deus foi ter feito as pazes com o Saldanha antes dele morrer. Não queria ficar com essa mágoa no coração. Ele está perdoado. E tem outra coisa: se a ditadura usou o futebol para alegrar a população, o jogador não poderia fazer nada. Nada. Nós queríamos ser campeões do mundo e jogamos porque o futebol era o nosso esporte, estávamos representando o povo brasileiro. Não o regime militar. Ninguém nem entendia direito o que estava acontecendo. Ouço muita injustiça em relação ao time tricampeão do mundo...
Quem vê o personagem Dadá Maravilha pensa que o homem Dario não teve tristeza na vida...
Isso é verdade. Mas a minha vida não foi nada fácil. Eu tive uma infância terrível.Nasci no Rio de Janeiro, filho de uma família pobre, muito pobre. Para sobreviver, virei bandido. Bandido mesmo.
Assaltava nas ruas, roubava quem passava pela frente. Ia com faca. Já enfiei faca em outras pessoas brigando.
Fui ruim, bandido. Não tinha nada a perder. Não tinha ninguém para me orientar. Fiquei preso em instituições para menores infratores. Mas, graças a Deus veio o futebol e minha vida mudou. Fui para o Campo Grande e depois para o meu clube, o Atlético Mineiro. A partir daí, fiz uma promessa para Deus. Deixei de ser ruim, bandido. Cansei de ser um homem triste, amargo. A partir daí, resolvi ser alegre, levar alegria às outras pessoas.
Sua identificação com o Atlético Mineiro é impressionante...
Tinha de ser o jogador símbolo do clube. Ninguém marcou mais gols pelo Galo do que eu. Em 1971 eu falei que íamos atropelar a tudo e a todos e ganharíamos o Brasileiro. Foi o que aconteceu. Enfrentamos o mesmo que derruba o Atlético desde 1971: as arbitragens. Não há interesse do eixo Rio-São Paulo que o Atlético Mineiro seja campeão. A torcida que já é maravilhosa e forte demais poderia crescer ainda mais fora de Minas Gerais. Qual é o interesse dos paulistas e cariocas? Nenhum. Tomara que este ano não venham roubar outra vez o Galo. Mas vou falar a verdade. Estou muito magoado com o Atlético Mineiro.
Por quê?
Por falta de reconhecimento. Eu precisava ter um busto no clube. O Botafogo fez para o Nilton Santos. O Palmeiras fez um para o Ademir da Guia. Por que o Atlético Mineiro é tão ingrato comigo? Eu mereço esse busto no clube. Gostaria de que ele fosse construído comigo vivo. Me homenagear morto não vale nada. Eu me sinto profundamente triste quando penso que eu tenho de pedir esse busto. Sou o maior artilheiro da história do Atlético Mineiro. As pessoas não reconhecem. Não sei o porquê.
Por falar em reconhecimento, você está rico?
Longe disso. Se eu não trabalho, não como. Não estou brincando. Meu dinheiro é pouco e contado. Sou ídolo, onde vou sou parado, dou autógrafos, tiro fotografias. Mas eu sei que quando volto para minha casa simples, o dinheiro é muito pouco. Não esbanjei, não fiz nada demais. O que acontece é que na minha época nós ganhávamos pouco demais. Não é essa festa de hoje em dia, onde qualquer cabeça de bagre ganha fortunas. Eu sou o retrato da minha época. (Dario é comentarista da TV Alterosa, em Belo Horizonte.)
Por falar nisso, você é campeão do Mundo com a Seleção. Vários campeões do mundo estão em grandes dificuldades financeiras. Isso é justo?
Não. Ao contrário. É apenas mais uma das injustiças do nosso país. Os campeões do mundo são heróis, deveriam ser valorizados. Na Europa, campeões da década de 30, 40, 50, 60 são amparados por seus países. Eu sei de vários jogadores como o Bellini, por exemplo, nosso primeiro capitão, que estão em graves dificuldades. O nosso país não consegue dar um plano de saúde e uma aposentadoria a nenhum campeão do mundo. Isso é mais uma vergonha para tantos políticos brasileiros que só legislam em causa própria e não param de roubar o Brasil. Eu tenho uma profunda vergonha de lembrar que sou campeão do mundo e o meu país virou as costas param mim. E para os outros. Não sou eu em entrevista que tenho de pedir plano de saúde e aposentadoria para quem já foi campeão do mundo com a camisa do Brasil e levou alento, alegria a milhões de pessoas.
Qual é o nível do futebol brasileiro atual?
Hoje o nível dos times é muito ruim. Se eu fizesse menos de 50 gols neste Brasileiro, eu desfilaria só de fio dental rosa na avenida Rio Branco no Rio ou na avenida São João em São Paulo. Os caras são muito fracos. Falta técnica, toque de bola. Só importa é o preparo físico. Os jogadores não são talentosos como no meu tempo. Eu disputava jogos com Pelé, Dirceu Lopes, Rivellino, Gerson, Ademir da Guia, Falcão, Figueiroa, Clodoaldo, Carlos Alberto e muitos outros. E hoje? Na Seleção de 70 dava para colocar o Kaká, o Ronaldo, nos bons tempos, e olhe lá. O nível dos times do Brasil é fraco demais. Eu deitaria e rolaria.
Dario, além dos seus gols, o porquê das suas frases históricas?
Por que eu sempre fui um cara esperto, tremendamente cara-de-pau e louco, mesmo. Percebi que além de jogar bem, eu poderia ter a mídia do meu lado. E logo comecei a tascar frases que entraram para a história mesmo. O rei Roberto Carlos já me disse que adora o “quem para no ar é beija-flor, helicóptero e Dario Maravilha”. Muitos técnicos e jogadores falam até hoje “não existe gol feio. Feio é não fazer”, sem saber que a frase é minha. Agora, os intelectuais adoraram a “não venha com a problemática que eu dou a solucionática”. Foi a frase do século para a revista Veja. Tem outra que é ótima. “Pelé, Garrinha e Dadá tinham de ser curriculos escolares obrigatórios.” Ou então aquela outra, “Quando eu saltava, o zagueiro podia ver o número da minha chuteira.” Eu sempre fui a alegria de quem vinha me entrevistar. Fui um dos primeiros a perceber o poder da mídia.
Você compara essa espera da torcida do Atlético Mineiro, desde 1971, até agora pela conquista do Brasileiro ao jejum de 23 anos do Corinthians?
Acho que sim. São duas torcidas apaixonadas, empolgantes, poderosas e sofridas. Esse sofrimento aglutina, aproxima as pessoas, todos querem estar presentes quando essa fase ruim acabar. Acaba sendo até uma prova de amor não virar as costas para o jejum. Minha grande frustração na carreira foi nunca ter jogado no Corinthians. Eu iria incendiar essa torcida que é louca como eu. Mas,voltando ao Brasileiro, desta vez eu aposto com mais confiança no Galo.
Por quê?
Porque como aconteceu em 1971, o Atlético Mineiro tem um atacante de referência. Em caso de dúvida, todos os jogadores estão passando a bola para o Diego Tardelli. Em 1971 foi assim comigo. E eu fui marcando gols e acabamos campeões. O Tardelli só precisa deixar de ser tão bobo nas entrevistas. Precisa ser mais louco, se valorizar. Esse menino tem o faro de gol. Não tanto quanto eu, mas o faro dele é muito bom. Mas também, Cosme...Dadá só existiu, só existe e só existirá um no mundo...
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