Publicado em 28/10/2009 às 12h00
“Chegou a vez do Atlético Mineiro e a minha de ganharmos o Brasileiro.” Celso Roth.
Celso Roth.
Técnico do Atlético Mineiro.
Quem o conhece sabe que há anos ele construiu uma imagem.
A de treinador fechado, sério, rígido até demais.
Mas algo aconteceu.
Os jogadores, os jornalistas notaram.
Ele está sorridente, brincalhão.
Muito mais próximo do time.
A cumplicidade está mais evidente.
A ponto de ele, justo ele, ter ido à tevê e dizer com todas as letras que o Atlético Mineiro será o campeão brasileiro.
E ontem, em entrevista exclusiva ao blog, Roth se expôs.
Mostrou que mudou.
É um homem mais feliz, que se permite mais.
Depois de ter formado o Santos de 2002 e ter deixado para Leão usufruir Robinho, Diego e o título brasileiro.
Ter chegado bem perto de vários títulos, o último foi o vice-campeonato brasileiro de 2008, Roth se mostra mais amadurecido para esse período decisivo.
Sete partidas separam o Atlético Mineiro e ele de uma conquista mais do que desejada.
Sonhada.
Seria a revanche perfeita do time desacreditado.
A primeira e última vez que o clube venceu o Brasileiro foi em 1971.
E do treinador que já foi tantas vezes injustiçado, que nunca conseguiu o título.
“Olha... o céu brilha para todos.
Os sinais são claros.
Acredito que chegou a hora do Atlético e a minha de ganharmos o Brasileiro.”
Celso qual o segredo do seu time?
De onde veio tanta força?
Basta vencer os últimos sete jogos que o Atlético é campeão do Brasil.
O segredo vem do fato de entrarmos no Campeonato Brasileiro desacreditados.
Ninguém apostava uma moeda no nosso time.
O Atlético havia perdido a decisão do Mineiro.
E eu saído do Grêmio.
A tendência seria que levaríamos um tempo para acertar a equipe, nos entender.
Mas o futebol é completamente desprovido de lógica.
Muitas vezes as coisas simplesmente acontecem, se encaixam.
Eu tive de montar duas vezes a equipe em pleno campeonato.
A lógica recomendava que seria necessário tempo para tudo funcionar.
Mas revertemos todas as expectativas.
Foi ilógico o que aconteceu.
O time ganhou alma.
O Atlético Mineiro não é um grupo de jogadores que atuam juntos.
É uma equipe que se gosta, que se ajuda, que deseja vencer.
Todos estão na mesma energia.
Nós temos alma.
Você pode explicar melhor essa falta de lógica?
Sim. O São Paulo, por exemplo, joga no 3-5-2 há pelo menos cinco anos.
O Palmeiras tem uma equipe montada e trabalhada pela parceria com a Traffic há dois anos.
Esses são trabalhos que precisam dar resultado já que são feitos há muito tempo, a filosofia não muda.
Mas o que aconteceu no Atlético Mineiro foi inesperado.
Nós juntamos um grupo de jogadores de talento e com desejo grande de conquistas.
A maneira que a equipe atua taticamente combina perfeitamente com os ótimos reforços que chegaram.
Conseguimos escolher os atletas certos.
Tudo está como deveria, só que foi muito rápido.
São situações que só acontecem no futebol.
A euforia da torcida do Atlético Mineiro não pode atrapalhar nestes jogos finais?
Não. Pelo contrário.
A energia do nosso torcedor é extremamente favorável ao time.
O torcedor do Atlético Mineiro há muito tempo não vive essa expectativa de conquista.
E ele pode e deve viver esse momento na plenitude.
O que não vai acontecer é esse clima de ansiedade, de euforia, contagiar o nosso time.
Nós sabemos bem o que temos de fazer.
Estamos trabalhando sério, forte, sem perder a noção das coisas.
Sabemos exatamente o nosso potencial.
Quando eu vou à uma rede de tevê nacional e digo que o Atlético Mineiro tem tudo para ser campeão do Brasil, eu sei do que estou falando.
Não é empolgação, não.
Sei que um descuido pode colocar tudo isso abaixo.
Como a partida de quinta-feira contra o lanterna Fluminense?
Sim. Exatamente isso.
O Fluminense tem uma grande equipe, mas por motivos seus não conseguiu se equilibrar no Brasileiro.
Se nós perdemos de vista a força do Fluminese seremos derrotados e desperdiçaremos a chance de brigar pelo título.
O segredo da campanha do Atlético Mineiro é ir jogo a jogo.
Não posso pensar nas sete partidas que nos faltam como um todo.
Isso só seria prejudicial.
Por isso nós aqui hoje só pensamos no Fluminense.
Em como teremos de atuar para conseguir a vitória.
Jogo a jogo.
E isso não é discurso: é o que fazemos no dia-a-dia.
Saber exatamente a força de quem vamos enfrentar.
O que você aprendeu com o ano passado?
O seu Grêmio estava 11 pontos à frente e acabou perdendo o Brasileiro...
Pergunte ao Muricy e ao time do Palmeiras.
A pressão de disparar na frente é muito grande.
Talvez eu seja a pessoa que melhor entenda o que está acontecendo com o Palmeiras.
A cobrança, o ‘já ganhou’ exagerado que domina o clube.
O primeiro colocado passa a ser o time a ser batido.
Equipes que não estão bem no Brasileiro se matam quando enfrentam o líder.
Querem tirar um pedaço porque esse pedaço é que pode dar força para não ser rebaixado.
Os jogos se tornam muito mais difíceis do que deveriam.
Eu aprendi isso no ano passado.
A pressão no Grêmio, dentro do próprio Rio Grande do Sul, nos atrapalhou demais.
Aprendi que é fundamental não se deixar levar por essa pressão e percebi que os jogos do primeiro colocado no Brasileiro são bem mais difíceis do que as outras equipes.
Você concorda com o Andrade que o Flamengo e o Atlético Mineiro são as equipes que chegam melhor no final do Brasileiro?
Concordo. As duas equipes deram uma arrancada que ninguém esperava.
Só quem trabalha no Atlético e no Flamengo sabia, acreditava.
Este espírito de confiança, convicção no que está fazendo pode decidir esse Brasileiro.
Tudo está muito equilibrado.
O lado psicológico, a confiança têm um peso decisivo.
O fato de ter jogadores importantes que já passaram por várias decisões também conta a nosso favor.
Celso, a sua história no futebol é a de um treinador muito trabalhador e honesto.
Mas sem muitas conquistas, títulos.
Não já sofreu demais?
Eu também acho (ri).
O que acontece é isso mesmo que você falou.
Trabalhar eu sempre trabalhei, e duro, pelos clubes que dirijo.
Só que no futebol muitas vezes o trabalho não significa conquista.
E muitas vezes conquista não significa trabalho.
Espero que você tenha me entendido.
Eu estou fazendo o que devo para conseguir ser campeão.
A minha consciência está tranquila.
Tudo pode ser uma questão de mero detalhe, sorte.
Trabalho nunca faltou.
(Desde 1988, os títulos são poucos. Roth ganhou duas vezes o Gaúcho, uma vez com o Grêmio e outra com o Inter. Com o Grêmio ainda venceu a Copa Sul. Com o Sport, a Copa Nordeste. E com o Caxias a Copa Daltro Menezes.)
(Em relação aos torneios perdidos, os que mais doeram foi o vice brasileiro com o Grêmio e ser eliminado da final da Libertadores pelo Boca, dirigindo o Palmeiras.)
Você está mais sorridente, tranquilo. O que mudou?
A maturidade.
Sei do momento bom que estou vivendo com o time do Atlético Mineiro.
Mas aprendi que não é preciso estar tenso, sério, pesado toda hora.
Estou mais light, com se diz agora.
Isso é melhor para o grupo e, principalmente, para mim
O Atlético Mineiro será campeão do Brasil?
Olha... o céu brilha para todos.
Nós estamos trabalhando muito para isso.
Os sinais são claros.
Acredito que chegou a hora do Atlético e a minha de ganharmos o Brasileiro.
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