
Somem os salários de Fred, Souza do Corinthians e Obina.
O resultado é igual à toda folha salarial do Avaí, R$ 600 mil mensais.
Ou seja, um mês do que o Corinthians paga a Ronaldo é o equivalente a dois meses e meio do que recebe todo o departamento de futebol avaiano.
Mesmo com o dinheiro curto, de franco favorito ao rebaixamento, o time catarinense se transformou na sensação do Brasileiro.
Presidente, jogadores e torcedores apontam o motivo da metamorfose: Silas.
O treinador de 44 anos quer mais.
Em entrevista exclusiva ao blog, Silas assume: deseja a Libertadores.
Seu time esta a apenas seis pontos do quarto colocado do campeonato.
No mínimo, o técnico exige a Copa Sul-Americana.
Depois dos oito últimos jogos do Brasileiro, momento de definição.
“Eu tenho a proposta do Avaí para continuar.
Aqui eu me sinto em casa.
Há algumas outras possibilidades.
Eu quero crescer na vida, na carreira.
Mas só saio daqui se for para deixar as portas escancaradas para voltar um dia.”
Silas: você foi escolhido pela mídia como o melhor técnico da Série B no ano passado. Há enormes chances de ser escolhido como o melhor da Série A.
Você sabe que não vai continuar no Avaí, não é?
Vamos com calma, Cosme.
Eu sou uma pessoa muito centrada, tenho meus pés no chão.
O meu trabalho no Avaí só deu certo porque as pessoas que comandam e os jogadores acreditaram em mim.
Tive estrutura, foi respeitado o meu planejamento.
Sei que sou a bola da vez.
Não por ser melhor do que ninguém.
O motivo é outro.
Sou novidade.
O mundo do futebol quer saber até onde vai a minha capacidade como treinador.
Só que eu quero pensar no meu futuro e no do Avaí com muita calma.
Quero crescer na carreira, na vida, mas não deixaria nunca o clube na mão.
Eu tenho a proposta para renovar.
Fui sincero.
Só vou decidir quando o Brasileiro acabar.
Antes eu tenho o sonho de brigar pela Libertadores.
Libertadores? Não é irônico? Nas primeiras rodadas você tinha de lutar para sobreviver. O Avaí perdeu vários jogos seguidos e era favorito ao rebaixamento...
Sim. A mídia do Brasil já nos dava como rebaixados.
Nós, o Santo André, o Barueri e o Náutico.
Fomos mal nas primeiras partidas, mas eu tinha a convicção que tudo melhoraria.
Eu sabia do potencial dos meus jogadores.
Tinha a nítida consciência que o nosso potencial não era pior do que muitas equipes.
A pressão foi forte, mas tive apoio de todos aqui em Santa Catarina.
O estado está muito carente de sucesso no futebol.
E fomos fortes para dar a resposta a nós mesmos.
Estamos bem porque o elenco é reduzido, mas tem qualidade.
Você acha que o Brasileiro está equilibrado?
Demais.
Não há uma grande equipe que se destaque.
Há vários ótimos elencos como o do Palmeiras, o São Paulo, o Cruzeiro, o Internacional, o Grêmio, o Atlético Mineiro.
Mas os times estão equiparados.
O sucesso do Avaí está no comprometimento dos jogadores.
E na maneira tática que o time se comporta.
Nós treinamos muito.
Há vários esquemas que podemos montar para enfrentar nossos adversários.
E importantíssimo é o atleta confiar cegamente no que o treinador fala.
Isso eu consegui no Avaí.
Ajuda muito eu ter sido um jogador da elite.
Disputei duas Copas do Mundo.
Muitas vezes eu falei em preleções como poderíamos ganhar ou perder uma partida.
Dependendo de uma jogada, um escanteio mal marcado.
E o que eu falei aconteceu.
Não porque sou mágico, mas porque já passei muitas vezes por situações que eles estão passando agora.
Foi difícil não desistir quando o Avaí estava nas últimas colocações?
Sei que seria muito mais fácil abandonar o clube.
De uma maneira até estranha, eu fui poupado pela torcida, pela imprensa.
Havia a sensação que não estava faltando seriedade e trabalho da minha parte.
E, repito, sabia quem eu tinha nas mãos.
Trabalho há quase dois anos aqui.
Peguei o time na Série B e levei para a Série A.
Depois, conseguimos vencer o Campeonato Catarinense.
Ou seja: conhecia profundamente os meus jogadores e os meus dirigentes.
Não tive medo, não larguei tudo porque acreditava na honestidade e profundidade do nosso trabalho.
Você teve várias propostas para deixar o Avaí durante o Brasileiro. E de clubes mais tradicionais do futebol brasileiro. Por que não foi?
Porque eu tenho caráter, palavra.
Meu contrato vai até o final do ano e vou cumprir.
Podem pensar que perdi oportunidades, mas eu durmo em paz.
Meu pai morreu quando eu tinha 20 anos.
A coisa mais importante que ele me ensinou foi respeitar a própria palavra.
Ser um homem correto, justo.
Eu quero continuar digno até morrer.
Olhando todos nos olhos, com a ajuda de Deus.
Depois que você parou com o futebol começou a trabalhar como empresário. Logo largou. O motivo foi o cenário desonesto?
Eu sou uma pessoa sincera.
Larguei porque senti que não iria me submeter a várias coisas para vencer como empresário.
Não vou entrar em detalhes, mas posso te dizer que não gostei do que vi e ouvi.
Então preferi mudar a minha vida de rumo.
Nós temos consciência e visão para mudar quando as coisas não nos agradam.
Eu não nasci para ser empresário de futebol no Brasil.
Quero falar que não são todas as pessoas que não são corretas.
Mas há várias que fazem o que eu não faria.
Qual o milagre que você com o Marquinhos? Ele era um jogador desacreditado depois de várias passagens frustradas em clubes tradicionais?
Não fiz milagre nenhum.
Quando o Batista saiu do Avaí eu chamei o Marquinhos para uma conversa.
Fui direto. Falei que ele seria o grande líder do meu time e o meu camisa 10.
Disse que daquele momento em diante me representaria em campo.
O Marquinhos só estava precisando de apoio para voltar a ser o grande jogador que sempre foi.
Estou muito satisfeito com ele.
Com o Muriqui.
Enfim, com todos os jogadores.
O comprometimento e a entrega desse elenco são invejáveis.
Eu sou um privilegiado.
Qual foi o treinador que mais o influenciou?
Tive a chance de trabalhar com vários muito importantes.
Mas eu quero falar agora do Antônio Lopes.
Ele faz uma coisa que os melhores técnicos do mundo fazem e ninguém percebe.
Ninguém trabalha tão bem com estatística como ele.
Quando o time que está treinando entra em campo sabe como o adversário joga.
Por onde força as jogadas.
Como faz a maioria dos gols.
Como toma os gols.
Quais jogadores cansam no segundo tempo.
Enfim, detalhes fundamentais.
Ele me passou isso e eu aplico com todo cuidado.
O Antônio Lopes me ensinou que cada adversário é mesmo um adversário diferente.
Por isso passo dias e noites estudando a maneira de anular e ganhar o nosso próximo jogo.
No futebol atual não há mais espaço para improvisos.
No Brasil não há mais Pelé...
Qual será o seu futuro, Silas?
Onde estará em 2010?
Não sei.
Só tenho certeza que farei tudo para levar o Avaí para a Libertadores.
O nosso time lutará demais nestes oito jogos.
É preciso ter objetivo na vida.
Vamos lutar.
E depois do Brasileiro analisar com calma o que será melhor.
Para mim e para o Avaí.
O balanço não está nada mal para quem era favorito ao rebaixamento, não é?