
Casa nova.
Adriano. Parte 1.
A fragilidade por trás dos músculos.
A prova do que a tristeza pôde causar na vida de um dos melhores jogadores do mundo.
Na entrevista exclusiva ao blog, ele abriu o coração e contou, sem meias palavras, tudo que viveu.
Foi um depoimento duro, sincero.
No Rio de Janeiro, na Gávea, no clube que tanto ama, Adriano não teve vergonha de ser Adriano.
E jura que nunca esteve mais forte na vida.
Desceu ao inferno e voltou.
Você sabe o que significa ao futebol brasileiro?
Você não tinha o direito de fazer tudo o que vez com você mesmo...
Não concordo.
Precisava passar pelo que passei para ser quem sou hoje.
Eu tenho plena noção do que represento.
Era um ídolo.
Eu mostrei o que é superação, de volta por cima.
As crianças, as pessoas olham para sim e me vêem como um exemplo.
Como assim?
Eu fiz muita coisa errada e consegui superar.
Se eu pude, as outras pessoas também podem.
Vou contar o que eu enfrentei.
Eu enfrentei uma depressão que foi de 2005 até 2009.
Só eu sei o quanto sofri.
A morte do meu pai deixou um buraco enorme na minha vida.
Ele morreu em agosto de 2004.
Foi a pessoa que me fez quem eu sou.
Devo tudo a ele e a minha família.
Eu acabei ficando muito sozinho, me isolando quando ele morreu.
Foi a pior coisa.
Me vi sozinho, triste, deprimido na Itália.
Foi quando surgiu o problema de alcoolismo?
Foi.
E vou ser bem sincero para você entender o que vivi.
Eu passei a beber, só me sentia feliz bebendo.
Eram festas todas as noites.
E bebia o que passava pela frente: vinho, uísque, vodca, cerveja... muita cerveja.
A situação ficou fora de controle.
Eu só conseguia dormir bebendo.
Acordava e não sabia nem onde estava.
Eu era jogador de um dos maiores times do mundo.
Comecei a ter problemas com o treinador, o Mancini, com os companheiros.
Eles perceberam?
Não tinha como não perceber.
Eu chegava bêbado para os treinos da manhã.
Com medo de perder a hora dormindo, eu ia bêbado mesmo.
Isso aconteceu várias vezes.
Eu ia dormir no departamento médico e diziam para a imprensa que eu estava com dores musculares.
A direção da Inter foi sensacional comigo, tentou me ajudar de todos os jeitos.
Eu passei a me dar mal com o Mancini, o técnico.
A situção ficou insuportável.
Eu não parava de beber, tive de sair da Inter.
O São Paulo me ajudou muito a consertar a minha vida.
Como assim?
Olha, a ideia de vir para o São Paulo por empréstimo foi do meu empresário, Gilmar Rinaldi.
Quando eu cheguei havia um esquema preparado para a minha recuperação.
Me deram psicólogo, carinho, acompanhamento 24 horas.
Eles se propuseram a salvar a minha carreira.
Tive várias conversas com os dirigentes, com o Muricy.
Conversas de apoio e até conversas duras.
Eu fui percebendo o mal que estava fazendo para mim.
A carreira estava indo indo embora.
E passei a perceber o quanto estava mal cercado de amigos.
Amigos que só me levavam para as farras, mulheres, bebidas
Não eram meus amigos, eram pessoas que queriam usufrir do que eu poderia proporcionar.
Foi a direção do São Paulo que me abriu os olhos.
Sinto que poderia ter retribuído mais ao São Paulo.
Deveria ter feito mais por tudo que fizeram para mim.
Por que você voltou para a Inter de Milão?
Porque o Mourinho assumiu e o Mancini tinha ido embora.
Só que quando me vi novamente na Itália, me senti sozinho, sem o apoio que precisava.
Voltei a beber.
Lembrando hoje, fico até com pena do Mourinho.
Ele queria demais me ajudar, ficou brigando com a diretoria, que queria me mandar embora.
O fundo do poço foi quando eu tinha voltado para o Brasil, parado de treinar e bebido muito.
A Inter mandou o preparador físico ao Rio para me ver.
Eu estava um boi de tão gordo, de tão inchado.
Quando vi a cara do preparador físico me olhando, eu senti: cheguei no fundo.
Decidi encerrar o meu contrato com a Inter.
Não queria voltar para lá.
Não tinha forças para superar.
Se tivesse voltado seria o fim da minha carreira.
Mas você tinha mais um ano e meio de contrato.
Era um dos jogadores mais bem pagos do mundo.
Muita gente diz que você foi louco e rasgou dinheiro.
Eu vou ser bem sincero com você.
Eu não rasguei dinheiro.
O que eu fiz foi comprar a minha felicidade.
Não tem milhões de euros que compense eu ter voltado para o Brasil.
Foi nessa época que o Gilmar Rinaldi quis te internar?
Sim. Essa história eu agora posso falar que foi verdadeira.
Ele queria de todo o jeito me internar para acabar com meu problema com o alcool.
Ele e o meu assessor, o Flávio Pinto, cuidaram de mim como puderam.
Mas eu me recusei.
Sabia que a cura para o alcoolismo estava em mim, na minha infelicidade.
Voltei ao Brasil, à comunidade, à favela da Vila Cruzeiro, onde cresci.
E me vi forte, confiante, cercado da minha família e dos meus verdadeiros amigos.
Isso me fez voltar a ser eu mesmo e sair da depressão.
O que você fez quando sumiu na favela da Vila Cruzeiro.
Até hoje é um mistério...
Eu fui ser o Adriano de verdade.
O que gosta de andar só de bermuda, com os pés no chão.
Fiquei conversando, brincando com meus amigos, convivendo com a minha família.
Falaram até que eu estava morto.
Eu tenho raiva dessa parte irresponsável da imprensa que fica espalhando mentiras por aí.
Essa gente irresponsável que se esquece que o jogador tem família, mãe, avó.
Minha mãe, minha vó ficaram apavoradas quando ouviram isso.
Mas você ficou convivendo com traficantes?
Olha, eu vou ser direto com você.
Eu tenho amigos na comunidade que são traficantes, trabalhadores, policiais.
Para mim, dá no mesmo.
Se são meus amigos, eu vou dar a mão, conversar, brincar.
Não vou virar as costas porque seguiram pelo lado que acho errado na vida.
Mas não é por isso que vou ficar cheirando cocaína, como muita gente acha.
Sou um jogador profissional e não uso e quero saber de drogas.
Você não usou cocaína nesta crise que teve?
Não. E não tenho porque mentir.
Hoje estou bem.
Poderia falar que usei e hoje me recuperei.
Mas não usei.
O meu problema era com o álcool.
Eu não me controlava.
Fui forte e superei.
Não sou hipócrita, na minha folga bebo uma cerveja, um vinho, como todo jogador faz.
Bebo uma cerveja e acabou.
No dia seguinte estou treinando, correndo até mais forte.
Sei o que é a minha carreira e dei valor para ela como nunca.
A religião o ajudou a se fortalecer?
Sim. Minha avó é evangélica.
Ela me levou para várias missas.
Ouvi, prestei atenção no que ouvi nas missas.
Me senti mais em paz, fortalecido.
Não me converti, mas gosto da paz que a religão me traz.
Qual conselho você daria a um jogador que fica deprimido e mergulha no alcoolismo?
Primeiro que confesse a ele mesmo que tem um problema.
Você só sara quando assume para você o problema.
Não para os outros, para você, que é muito mais duro.
E depois peça ajuda.
Até médica se for preciso.
Não tenha vergonha.
Eu não me internei, mas tive ajuda para superar a minha depressão e o alcoolismo.
Como é ser Adriano?
Não é fácil. Ser observado, ser cobrado todos os dias.
São vários convites, várias armadilhas.
Você precisa ter uma estrutura psicológica muito forte.
E graças a Deus, agora eu estou forte o suficiente para ser Adriano.