17 1994. O brasileiro infiltrado na Argentina, do dopado Maradona. E as loucuras dos gregos
Depois de oito anos na redação, primeira Copa do Mundo.

A dos Estados Unidos. Havia coberto os jogos decisivos das Eliminatórias. Minhas matérias exclusivas com Romário saíram na capa do Jornal da Tarde e no Estadão, que podia usar o que achasse interessante no JT, sem pagar um centavo a mais aos jornalistas. Tinha duas redações a seu serviço, pagando uma.

Além destas matérias serem distribuídas na Agência Estado. A Internet foi desprezada por décadas, o que explica a difícil situação financeira do Estadão hoje em dia.

Chego com peito inflado na redação. Reunião para a Copa dos Estados Unidos. Já me imaginei cobrando um futebol mais efetivo de Parreira, me preparando para ficar de olho em Romário, aguentando os discursos ufanistas de Dunga, rindo com Ricardo Rocha, tentando apertar o 'liso' Bebeto.

"Você vai cobrir a Argentina, Cosme", me diz o chefe de reportagem, Castilho de Andrade.

Balanço a cabeça afirmativamente, esboço um sorriso, quando na verdade, sinto um arpão perfurar meu peito. "Como assim, Argentina?" Estava enfronhado com a Seleção Brasileira. Mas não há como o repórter argumentar. Na Copa do Mundo, a grande maioria dos chefes de esportes costuma cobrir. E invariavelmente vão para a Seleção Brasileira.

Não era o caso do Castilho.

Mas de outros chefes.

Já que é assim, lá vou eu para Recife. Em março de 1994, o Brasil fez um amistoso com a Argentina. Nos treinos, vou me juntar aos hermanos periodistas. E há a coletiva com Alfio Basile. Pergunto aos colegas sobre sua personalidade.

"Truculento, ligado aos militares, incompetente, apreciador de vinho.

"E um servo de Diego."

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Tive a prova depois da única coletiva que deu antes do jogo. Após as perguntas de praxe. Esperei na saída da sala, expliquei que iria cobrir a Seleção Argentina, me apresentei.

"Brasileiro, fazendo matérias sobre a Argentina na Copa? Não vai sair coisa boa", provocou. Falei para ele ficar tranquilo. E fiz uma pergunta sobre o time. Ele respondeu atravessado. E quando toquei na influência do Maradona na equipe, os gritos.

"A coletiva acabou. Se você quiser se dar bem comigo, siga as regras", e me olhou com ódio. O olhei firme também. Enquanto ele foi embora, jornalistas argentinos se aproximaram e disseram que esta era uma estratégia do "Coco Basile" para intimidar quem ousasse perguntar sobre a força de Maradona na Seleção.

O episódio foi ótimo para mim. Fiz amizade com um repórter do La Nacion e outro do El Grafico. Teria um inestimável apoio na Copa. Durante o Mundial, os dois me passavam informações de bastidores, que eu juntava com as que conseguia durante os treinos.

Cheguei em Boston sozinho. Não havia colega de outro jornal brasileiro indo no dia-a-dia argentino. Fui adotado por uma equipe grega. A Grécia estava no grupo da Argentina. Durante as manhãs e tardes, com os argentinos. À noite, com os gregos, que eram absolutamente loucos.

Enquanto eu jantava, tomavam uma garrafa de uísque. Todas as noites. E iam para clubes de strip. Enquanto o brasileiro economizava cada dólar, eles colocavam notas de dez nas calcinhas das americanas. Era toda a noite, a mesma rotina. Devo ter sido o jornalista brasileiro que mais lamentou a eliminação da Grécia em 1994.

Nos treinos, estava claro quem mandava. Depois que Coco Basile dava sua preleção, Maradona chamava um a um dos jogadores importantes e falava o que queria. Mostrava o espaço que deveriam ocupar. Era ele quem mandava e desmandava na seleção. Estava explicada a expressão 'servo de Diego'.

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Maradona estava em uma ferrenha luta contra a balança. Passou 1993 e o início de 94 muito gordo. Excesso de bebidas, drogas, noitadas sem fim. Ele havia saído do inferno. Em 1991 seu exame antidoping apontou cocaína. E seguida foram divulgadas provas de sua ligação chefes da Máfia Italiana, provavelmente, para ter seu estoque de drogas. Foi suspenso pela Fifa por 15 meses. Na Argentina, chegou a ser preso, drogado.

Sem Maradona, a Seleção Argentina nas Eliminatórias havia passado um dos seus maiores vexames, goleada por 5 a 0 para a Colômbia, em plena Buenos Aires. Só chegou ao Mundial porque o Paraguai não venceu o Peru, em Lima.

Gordo, no início de 1994, Maradona deu tiros de chumbinho em jornalistas que estavam na porta de sua casa. Mas logo conheceu Daniel Cerrini. Um fisiculturista amador que logo o colocou em forma. De forma espantosa, a gordura sumiu. E ele estava pronto para voltar e assumir a Seleção Argentina.

O time tinha Caniggia, Batistuta, Redondo, mas era irregular. Marcava mal. Era lento. Basile não conseguia fazer a equipe fluir. Dependia umbilicalmente da genialidade de Diego.

E cada treino era um deleite para os olhos. Naquela época, todos eram abertos para a imprensa. E além dos dribles, lançamentos e gols que fazia, ele reservava seu show especial ao fim dos treinamentos. Ele pegava uma bola, uma bola de tênis, uma laranja, qualquer coisa que fosse redonda e mostrava o poder de sua perna esquerda.

Depois de uma semana repleta de treinos, Diego estava cansado. Queria descanso à tarde, depois de uma manhã de treino em pleno tórrido verão norte-americano. Para não ficar claro que ele mandava, ele fez a seguinte proposta a Basile. Se fizesse cem embaixadas com uma pequena laranja, todos teriam folga à tarde. Alfio não tinha moral para dizer não.

E Diego começou a controlar a fruta. Com todos os jogadores contando. "Um, dois, três, quatro..." Quando chegou aos noventa e nove, Maradona levantou com gosto a laranja. E deu um chutão para cima, com raiva, no centésimo toque. "Cien. Listo, muchachos. Nos vamos de compras", (Cem. Pronto, amigos. Vamos para as compras.)

Quem me contou esse episódio, em detalhes, foi o competente Luis Augusto Monaco. Os jornalistas que cobriam a Argentina souberam da inesperada folga no final do treinamento. E ninguém quis explicar o motivo.

Maradona mal falou com a imprensa durante os treinos.

Vieram os jogos. A Argentina estreia contra a Grécia. 4 a 0 para o time de Maradona, com direito a golaço sensacional do meia. E uma vibração estranha, encarando, raivoso, as câmeras. Nunca vi pessoas bebendo tanto quanto a equipe grega após a goleada. Bebiam, cantavam, sorriam. E mais dinheiro nas calcinhas. Eles alternavam tristeza com euforia por terem sido goleados, com direto a um gol de Maradona, a quem tratavam como Dios.

Eu acreditava que o destino havia me dado um presente. A Argentina seria campeã naquele mundial insosso. E as minhas matérias estariam na capa do jornal. Aí, chegou o banho de realidade.

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Na virada emocionante diante da Nigéria, Maradona não marca, mas tem uma atuação fundamental na vitória por 2 a 1, com dois gols de Caniggia. Eis que surge, logo ao final do jogo, a enfermeira Sue Carpenter. E Ela sobe ao gramado do Foxboro Stadium. E leva o meio argentino à sala de antidoping. Cercada de policiais. Tudo muito estranho.

O jogador faz graças, diz, em espanhol, que está indo fazer amor com Sue. Mas ele não imagina que ela entende cada palavra, já que era casada também com argentino.

O resultado do exame não é divulgado. Jogadores e Basile não tocam no tema. Muito menos Maradona. A terceira partida da fase de grupos é em Dallas. Contra a Bulgária. Por economia, o jornal contava com a cobertura desse jogo. A ordem era para que eu cobrisse pela televisão.

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Em um arroubo, conto o meu dinheiro. Vou para o aeroporto, compro passagem para Dallas. Vou para o estádio. Só avisei a chefia quando cheguei na cidade. Foi a melhor coisa que fiz. A Argentina perde para a Bulgária. Mas a notícia é Maradona.

De acordo com o resultado dos exames, ele havia perdido 16 quilos e estava jogando a Copa, graças à um suplemento que utilizava efedrina. A substância é proibida por acelerar os batimentos cardíacos e ajudar, de forma absurda e perigosa, a perda de peso.

"Me cortaram as pernas", disse na coletiva que eu estava e não deveria estar, em Dallas. Lá, começam a surgir várias versões. A mais forte é que a Fifa havia prometido que Maradona não faria exames antidoping durante o Mundial. Já que ele seria a estrela maior em um país que começava a descobrir o futebol. Nos jogos eliminatórios para o Mundial, contra a Austrália, depois do vexame nas Eliminatórias, Maradona atuou e não fez exame algum.

Desde então, Maradona insiste que João Havelange o traiu. Assim como Joseph Blatter, que saberia do acordo e se calou.

Há versões de lado a lado até hoje.

Diego foi suspenso e nunca mais jogou uma partida de Copa do Mundo.

Minhas matérias foram capas no Jornal da Tarde e no Estadão. Duas páginas em cada um dos jornais. Mas, por estranha coincidência, o subeditor do Estadão, na época, Claudio Arreguy, não mudou uma palavra do que escrevi. Mas não assinou meu nome. Era como se um espírito estivesse ido para Dallas e mandado as informações para alguém psicografar.

Na verdade, havia uma rivalidade bárbara e silenciosa entre as equipes de Esportes do Estadão e do JT. Que maneira mais cruel de agir do que publicar uma das matérias de maior destaque da Copa e não assinar? O coordenador da cobertura da Copa, mandou Arreguy me ligar e pedir desculpas.

Eu aceitei. E só sugeri que ele avisasse aos mais de cem mil leitores do Estadão naquele dia, que fui eu quem escrevi as matérias. Arreguy riu, sem graça, e a vida seguiu.

Sem Maradona e os eliminados gregos, tudo mudou. A Argentina sem dono perde logo de cara para a Romênia por 3 a 2 e sai da Copa nas oitavas de final. Sou deslocado para cobrir a Romênia. Mas, depois do 2 a 2, o time perde nos pênaltis para os suecos. Lá vou eu cobrir a Suécia, que enfrentaria o Brasil, nas semifinais. Outra derrota, outra página 4, a menos valorizada do caderno de esportes.

Finalmente me junto à equipe principal para cobrir o Brasil.

Final da Copa do Mundo contra a Itália.

O peito volta a inchar.

Mas essa história fica para o futuro.

O resto do dia é para pensar em Maradona.

Nos loucos gregos.

Nos strip-teases.

E em Arreguy...
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